1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:Queridos amigos,
O jantar dos militares está a findar, já sabemos como lhes correu a vida desde que chegaram de Moçambique, amores, desamores, sonhos, pesadelos, o tenente-coronel viúvo tem agora o apoio da porteira e mulher a dias, não é amor, é companhia, o Jorge alferes casou com a Inês, menina de famílias finas, trabalha no banco e vive jantares abomináveis em casa dos sogros, numa quinta em Carcavelos, o soldado engrenou em serviços de mudanças, empresa do tio, irão a caminho da Baixa no dia 25 de abril de 1974, não tenho dúvida alguma quando um dia se se quiserem resgatar as páginas sublimes que se escreveram sobre o 25 de abril, é inevitável retirar parágrafos luminescentes deste Fado Alexandrino. A reunião dos militares, que começou num jantar, passou agora para uma boate no Intendente, será aí, entre equilibristas e striptease, que se vai viver o 25 de abril.
Um abraço do
Mário.
Chegámos da guerra, apanhámos o fim do Estado Novo, vivemos o 25 de abril e o depois: como e porquê Fado Alexandrino, de Lobo Antunes, é um notável romance ancorado no fado de ex-combatentes – 2
Mário Beja Santos
Esta obra-prima de António Lobo Antunes teve a sua primeira edição em 1983, vem na sequência de um ciclo de romances que versam a experiência dele como tenente-médico em Angola, a sua vida profissional como psiquiatra, os desabafos sobre a sua vida íntima. Fado Alexandrino, considerado pela crítica como um dos seus textos fundamentais, justamente premiado, prende-se com a história de um conjunto de militares no período final do Estado Novo, segue-se o 25 de abril e o PREC e o culminar de um tempo de rescaldo, tudo é passado entre um jantar verdadeiramente funambulesco, a passagem por uma boate no Intendente, haverá um surpreendente final, onde não falta uma atmosfera de orgia.
Romance a várias vozes, por vezes interferindo quase em vertigem o que eles vão dizendo uns aos outros ou o que guardam para si no discurso da consciência, falando desabridamente da vida amorosa onde não faltam desastres e desencontros, no seu trabalho, da situação política do país, temos aqui um retrato da década de 1970 e o início da seguinte.
Já sabemos que há um encontro de militares, de tenente-coronel a soldado, estão a rememorar acontecimentos anteriores ao 25 de abril, vieram todos de Moçambique, terão pertencido a um Batalhão colocado em Mueda ou algures, obviamente que se seguiram itinerários diferentes, o oficial de transmissões está no uso da palavra, colocado no Ministério do Terreiro do Paço a levantar processos e autos, é esquerdista-maoísta, distribuindo folhetos à socapa, “folhetos que entregava depois do serviço nos gabinetes despovoados, toscos e tolos contos da carochinha para aldrabar ingénuos.”
E desabafa para todos os presentes no jantar:
“O que nessa época custava mais na militância política era a falta de contactos, de amigos que nos acompanhassem, da orientação dos camaradas. Nunca nos víamos, nunca nos falávamos, podíamos estar presos ou mortos só o sujeito invisível e desconhecido que nos coordenada sabia, largávamos as informações num envelope, no balcão de uma pastelaria ou de um café, mas não obtínhamos resposta, nenhum fulano convicto e grave, de cara enviesada, nos procurava.”
Intervém agora o soldado, ele está numa empresa de mudanças, iam mesmo à Feira Popular, transportando a mobília de restaurantes inteiros, as girafas, os elefantes e os cavalos do carrossel, houve mesmo cenas de amor assolapado com a Ciganita Dora. Os ex-combatentes já estão bem bebidos, o alferes sugere saírem dali e irem para uma boate do Intendente, mas as conversas estendem-se, as memórias dilatam-se. “Eu sentia o Estado Novo podre, mas firme, disse o oficial de transmissões de pálpebras descidas. Estávamos fartos da guerra, fartos das promessas não cumpridas". É a vez do alferes também pôr a sua escrita em dia, recorda que o seu casamento com Inês, menina que vivia num ambiente muito bem, estava a correr mal, a sogra sempre a dar ordens lá na vivenda de Carcavelos, a convidá-los para jantar em cima da hora, conversas descabeladas na viagem com a filha pequena aos gritos.
O tenente-coronel também desabafa, tem como companhia precária a porteira e mulher a dias. O soldado, o da empresa de mudanças, conta que a mulher do tio, em cuja casa ele vive, dera-lhe a trombose, descreve toda aquela cena da ida ao Hospital de São José. “Uma espécie de claustros gelados, irreais de néon, doentes por toda a parte, cobertos de compressas, sentados no chão, olhando-nos na distintíssima altivez apática do sofrimento, macas, cobertores e camas amontoados numa confusão indescritível, arrastadeiras, algálias, algodão, tribos acocoradas de ciganos comendo em silêncio, funcionários transportando papeis, bêbados a ressonar em longos bancos de pau, gemidos, queixas, suspiros, arranques de vómitos, dois arcos de pedra, munidos dos letreiros HOMENS e MULHERES, a seguir ao relento das retretes, onde as fezes acumuladas se aparentavam a certos rochedos da vazante, e lá dentro, ativíssimos em torno de marquesas vazias, médicos de estetoscópio pendurado ao pescoço como correntes de escanção, examinando, com uma prega douta na testa, radiografias de ossos contra foscas superfícies cintilantes.” Seguem-se as peripécias em que os profissionais de saúde decidem que a tia volta para casa com uma receita médica.
Há um certo capitão Mendes que procura o tenente-coronel em 1973, os capitães já começaram a conspirar, Mendes informa o tenente-coronel, cujo nome é Artur de que há solidariedade ativa de todas as unidades do país, Mendes pretende saber se podem contar com o apoio expresso dele, entrega de papelada e rabuja que os militares andam fartos de servir de bode expiatório aos políticos. Segue-se uma longa introspeção de memórias deste tenente-coronel. Ainda estão no jantar, fala-se de tudo um pouco, o nosso alferes maoísta lembra que foi levado pela PIDE.
Agora sim, já estamos no Bar Boate Madrid, rememoram-se festarolas do tempo da guerra, alguém, no bar, anuncia o programa festivo que vai começar, há de tudo desde equilibristas a striptease, as vidas familiares vão-se escancarando, aqui finda a primeira parte, entramos agora na revolução, confesso que encontrei neste livro algumas das páginas mais impressivas e de alto recorte literário sobre os acontecimentos do 25 de abril, como passo a exemplificar:
“Da sala vinham marchas militares, guitarras, vozes de homem que cantavam, um locutor lia de tempos a tempos um pequeno discurso, e a seguir, após um breve silêncio interminável durante o qual o sangue estancava, suspenso nas veias, à espera, mais marchas, mais hinos, mais orfeões, mais música.”
“E foi a primeira vez, contou-me o soldado, que chegámos juntos ao armazém, esbofeteados ao longo das travessas por centenas de telefonias aos gritos. Homens de barba por fazer debruçavam-se nas janelas como bichos de buracos de maçãs, os cães derrubavam os caixotes de lixo esquecidos, o porteiro do hospital dos doidos, de pé junto à entrada, colava o transístor à orelha como se escutasse o mar nas espiras de um búzio, um friozinho acre enregelava as pernas, o tio bufava Se atiram o Governo de pantanas não descansam até arranjar outro ainda pior e nos porem de tanga a pedir esmola, Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, e o senhor Ilídio, amargo, Olha para os gajos, olha-me só para a alegria deles, caneco, até parece que vão salvar o mundo.”
E vamos ver seguidamente a carripana das mudanças a avançar para a Baixa, vão testemunhar a queda do Estado Novo.
António Lobo Antunes (1942-2026)
(continua)
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Notas do editor:
Post anterior de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)


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