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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

Capa da revista Brasil-Portugal, edição de 16 de novembro de 1905. Aspeto curioso é a publicidade a uma água que foi famosa, Lombadas, tinha a sua nascente na ilha de São Miguel, Açores, quando prestei serviço militar como aspirante a oficial miliciano no Batalhão Independente de Infantaria nº 18, Arrifes, a escassos quilómetros de Ponta Delgada, descobri esta belíssima água de mesa.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A Biblioteca da Sociedade de Geografia permite por vezes estes tesouros, eles surgem inesperadamente, anda-se à procura de trabalho sobre a cidade de Tomar, tinha havido uma excursão científica ao património tomarense, o Dr. José Vieira Guimarães, conceituado médico e historiador proferira palestra e andara como guia entre a cidade e o Convento de Cristo, e é a folhear os números da revista Brasil-Portugal,, publicação que é da sua existência entre 1899 e 1914, que aparece este trabalho sobre a Guiné, algumas destas imagens eram-me desconhecidas, outras não tanto.Porventura correspondente, o autor não está para vénias nem laudes, diz verdades como punhos, revela o estado da colónia, o domínio total do comércio por franceses e alemães, a permanente incúria num território com potencialidades agrícolas de indiscutível valor, falham estrondosamente os investimentos portugueses.

Um abraço do
Mário



Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905

Mário Beja Santos

Brasil-Portugal era uma revista quinzenal ilustrada, editou-se entre 1899 e 1914. De algum modo concorria com a revista Ocidente, eventos sobre a família real, visitas a lugares com património, noticiário sociopolítico; no caso vertente da Brasil-Portugal havia o foco de procurar sensibilizar os leitores de ambos os países não só para os laços irmãos como mostrar, dito em linguagem de hoje, as potencialidades da cooperação, despertando os interessados também para as possibilidades de investimento.

Ora neste número de novembro de 1905, temos um desassombrado artigo sobre a Guiné, encavalitado com outro da autoria do escritor Zófimo Consiglieri Pedroso, que foi Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, vai explanar sobre a guerra russo-japonesa que debilitou profundamente o regime czarista.

Indo ao que interessa, vejamos o que um autor anónimo, porventura correspondente da revista, veio dizer sobre o estado da Guiné:
“A enorme região da Guiné, tão descurada e quase desconhecida, é uma inesgotável mina de tesouros que ninguém pensou nunca em explorar, levando para ali capitais e elementos do trabalho. A nossa tradicional indolência e o receio do risco em matéria de empresas, tem deixado no abandono aqueles riquíssimos territórios em que há séculos dominamos dormindo. Todos os países coloniais tendem a desenvolver as suas possessões, e os que não as têm vão fixar-se nas alheia, explorando-as comercialmente e estabelecendo carreiras de navegação para os seus produtos que assim valorizam. Nós cruzamos os braços e assistimos impassíveis a essa invasão que pouco a pouco vai sugando o que poderia enriquecer-nos. É o que sucede na Guiné, em que a parte continental e a parte do arquipélago se medem por muitos milhares de quilómetros quadrados.

Hoje pode dizer-se que a Guiné é apenas uma grande feitoria comercial de alemães e de franceses que se limitam a importar mercadorias para a permuta sempre vantajosa com os produtos indígenas, numa luta contante de interesses e de competência. O negócio com os naturais no país está quase exclusivamente nas mãos desses concorrentes que auferem lucros fabulosos em prejuízo dos poucos portugueses que ali moirejam.

Nos séculos XVII e XVIII, Geba, Cacheu, Farim e Buba tiveram grande importância como depósitos de escravos, mas caíram em decadência, e estão reduzidos a pequenos povoados sem vida. Atualmente os verdadeiros centros comerciais são Bolama e Bissau. Na Guiné há comércio apenas, e esse acanhado, sempre o mesmo, sempre assente na troca de produtos e na exploração do trabalho do indígena.

Em agricultura não se pensa. A orientação sobre os modernos processos de plantação é nula. No entanto, os terrenos são feracíssimos, o clima e a humidade dos plainos os mais adaptados para todas as culturas intertropicais, e alguns dos seus portos naturais são amplas enseadas onde poderiam fundear navios das maiores lotações, a sua verdadeira riqueza seria a agricultura, que se mantém rudimentar. Começam a surgir tendências para um impulso agrícola. Mas não bastam esses movimentos isolados. Torna-se necessário que os governos coadjuvem essas iniciativas e que os capitais portugueses afluam corajosamente e concorram para o engrandecimento daquela província, hoje encravada em território francês. Poucos anos de cultura bastariam para se transformar a Guiné que, pela sua situação especial, pela sua flora, pelos seus jazigos mineiros, tem direito a sair da miséria em que se acha, e a deixar de ser, como é, um pedinte morrendo de fome sobre montanhas de ouro (…) A Guiné não tem défice. Vive com os recursos dos direitos aduaneiros e o imposto de palhota. Contém uma grande variedade de raças, sendo as menos atrasadas as dos Fulas e Mandingas, gente belicosa, mas submissa ao Governo e com ótimos marinheiros. Os Papéis, ainda asselvajados, são belos carregadores e os mais aproveitáveis para os trabalhos de campo.”


As gravuras que hoje publicamos foram-nos enviadas pelo nosso correspondente na Guiné e referem-se à viagem que o Governador, Senhor Carlos Pessanha fez há pouco tempo no interior, pelo rio Geba, e onde se reuniram 22 régulos com as suas comitivas compostas de Fulas e Mandingas, formando um grande exército de 20 mil homens a cavalo e a pé, e todos armados de espingardas e de espadas, estas fabricadas por eles próprios. Inesperadamente o texto muda para a guerra russo-japonesa, Zófimo Consiglieri Pedroso tinha a seu cargo a secção de política internacional, ela aparece dentro deste artigo da Guiné Portuguesa, todo o artigo que ele publica sobre o conflito russo-japonês está enxameado de fotografias da referida visita do governador Carlos Pessanha. Para que conste.


Fotografia do novo governador da Guiné (fevereiro de 1905 a agosto de 1906), publicada na Revista Brasil-Portugal, na sua edição de 16 de agosto de 1905
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Nota do editor

Último post da série de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

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