
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Setembro de 2026:
Queridos amigos,
Belíssima iniciativa esta, a de pôr em circulação nacional obras da Coleção de Arte Contemporânea do Estado, um conjunto significativo de obras de artistas consagrados e emergentes. Entrando na exposição e começando a ler a brochura, fico com sérias reservas quanto à comunicação utilizada pelos curadores, eu sei que eles sabem da poda, resta saber se o visitante que habita Sines e arredores se entende com as razões do título da exposição e as temáticas nela abordadas. Senão veja-se: "Esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza." O leitor que vai discorrer pelas imagens que selecionei que se pergunte onde encontra imaginário associado ao verão e até mesmo a experiência da vida balnear. Mais adiante, escrevem os curadores: "O verão surge como um momento de suspensão e expansão, onde as convenções quotidianas cedem lugar a formas intensificadas de relação com o mundo. Longe de uma leitura nostálgica, Chuva de Verão inscreve-se num horizonte de comunhão com a natureza e com o coletivo, explorando territórios instáveis, geometrias afetivas e estados de leveza que redefinem a perceção e a presença."Parece-me muito barulho para palavrório tão altissonante, percorre-se este conjunto de obras e só por milagre há uma relação de causa e efeito entre a apresentação e a explicação do que se vai visitar e a sucessão de telas e obras que o visitante encontrará dentro deste belíssimo espaço que é o Centro de Artes de Sines. Há quem pense que o uso da imaginação da palavra coincide com o impacto estético do que o visitante encontra; no caso vertente, por onde andará a Chuva de Verão?
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (275):
Uma inesperada Chuva de Verão no Centro de Artes de Sines, até 19 de outubro
Mário Beja Santos
Estando ali perto de Sines, sendo um entusiasta destas instalações, vim visitar esta Chuva de Verão, uma nova exposição da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Reza a brochura que me acompanha na visita que esta exposição propõe uma leitura sensível e expandida do imaginário associado ao verão, tomando como ponto de partida a experiência da vida balnear e as formas de sociabilidade, lazer e pertença que esta mobiliza. Confesso que não entendo na vertigem deste palavrório, provavelmente um jargão corporativo de quem ganha a vida no domínio da história de arte e quer fazer um figurão com nomenclaturas impressionantes. O que irei visitar, subordinado a uma certa diversidade, entre o humano e o animal, dizem os curadores que nas chuvas de verão todos os elementos naturais estão reunidos e os corpos aceleram a esse apelo. Os humanos acedem à sua condição animal, explorando os seus instintos ancestrais e contemplando o mundo de modo radicalmente diferente das rotinas do dia-a-dia. Além deste humano e animal há outras temáticas, as geografias imaginárias e os corpos flutuantes. Vim cheio de curiosidade contemplar um tal diálogo entre diferentes práticas artísticas, do verão não vi sinal, rendi-me ao gozo estético que me provocam certas obras, sinto-me impressionado pela representação do belo, outras nada me dizem, mas isso parece ser matéria que tem a ver com as impressões que a arte provoca a cada um, desde o figurativismo mais académico às construções abstratas e às disparidades dos materiais. Deixo aqui um mero registo do que vi e porventura mais me tocou, quem vive em Sines ou nas proximidades está em cima da hora para poder visitar Chuva de Verão.
Inaugurado em 2005, o Centro de Artes de Sines (CAS) está dotado de biblioteca, auditório, galeria de exposições e arquivo histórico. Projeto dos arquitetos Manuel e Francisco Aires Mateus (prémio AICA/MC 2005 e finalista do Prémio Mies van der Rohe 2007)
Joaquim Bravo (1935-1990), La Mer, 1985. Este quadro mostra uma paisagem imaginária que evoca a superfície do mar e é reveladora de uma perspetiva original, revela a duplicidade entre escalas e cores, o vermelho e o azul, o grande e o pequeno, o cimo e o baixo, num jogo constante de contrabalanço.
Eduardo Batarde (1943-2025), da série “Candeeiros, Cubismos, Cães e Colunas”, 1980-81. Dotado de um domínio virtuoso da técnica e de uma atitude crítica e rigorosa perante a prática artística, Eduardo Batarda destacou-se pela coragem e ousadia da sua linguagem, construindo um legado que alia experimentação formal, densidade crítica e uma singular ironia.
Paula Rego (1935-2022), “Sem título”, 1983. A obra de Paula Rego depende, no essencial, da sua experiência portuguesa, de uma infância vivida perto das mulheres que povoaram a sua vida. Basta olhar algumas das suas obras para sentirmos a brutalidade implícita. É um regresso à imagem mais forte desse jogo persistente entre o bem e o mal, a razão das suas figuras, ou o modo insinuante como se questiona a sociedade patriarcal.
Francisca Carvalho, Ashlesha, 2018, tintas naturais sobre lona de algodão. Esta obra reúne referências expressivas da astrologia hindu e da mitologia grega, nomeadamente a Hidra, um corpo complexo com várias cabeças de serpente que surge representado com formas curvilíneas pintadas com pigmentos naturais.
Pedro Casqueiro, “Sem título”, 1984, acrílico sobre tela. Este artista tem desenvolvido um processo de produção criativa no qual vai variando ciclicamente a linguagem formal e os temas que explora nas suas obras. As suas obras mais abstratas envolvem a criação de espaços interiores e espaços arquitetónicos e cenográficos.
João Fonte Santa, Reisen In Brasilien, 2016, acrílico sobre tela. O artista recorre a imagens com origem na grande tradição narrativa do século XIX, introduz-lhes linhas de reflexão que não dispensam uma espécie particular de contemplação estética. De grande escala, estes trabalhos em acrílico estão impregnados de mensagens e metáforas críticas sobre os desequilíbrios da contemporaneidade.
René Bertholo (1935-2005), Nouvelles du Nord, 1966. Artista que não seguia uma gramática única, nem reconhecia as definições estanques em que se encerram as linguagens da figuração e da abstração. Os elementos presentes nas suas telas não possuem uma natureza precisa. E são eles que convivem livremente nos seus quadros, sem estarem dispostos numa relação aparentada à ordem clássica da composição pictórica.
Paula Rego, O mundo às avessas, aguarela sobre papel. Tudo o que diz respeito à condição feminina, em particular a inversão dos seus estereótipos, parece encontrar na pintura de Paula Rego um aliado inevitável e preciso. Entre pinturas a pastel de óleo, gravuras e desenhos, o que particulariza a sua obra é o paradoxo da imagem da mulher, da sua força intrínseca, assim como a ambígua condição imagética da pintura, entre um formalismo académico e clássico e a modernidade inventiva que a alimenta.
Eduardo Batarda, El Cineasta, 1979.
Helena Almeida (1934-2018), Pintura Habitada, 1975. Esta artista desenvolveu uma obra singular em que o corpo se torna simultaneamente sujeito, ferramenta e suporte da produção artística. Em Pintura Habitada, série desenvolvida na década de 1970, ela rompe as fronteiras da pintura, fotografia e performance, usando a imagem fotográfica para registar ações em que o seu próprio corpo, de algum modo, habita a composição.António Palolo (1946-2000), Sem título, 1971. O corpo de trabalho deste artista oscila entre a abstração, informal e geométrica, e a figuração. Nos anos 1960 e 1970, desenvolve composições onde privilegia a justa composição concêntrica de elementos geométricos, lineares, triangulares, quadrados e cúbicos, tecendo um jogo de grelhas, molduras, de enquadramentos sobre enquadramentos.
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Nota do editor
Último post da série de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28423: Os nossos seres, saberes e lazeres (754): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (274): Assisto a um concerto memorável no Festival de Música do Reno, amanhã sigo para Trier, já tenho saudades de regressar à Renânia-Palatinado - 9 (Mário Beja Santos)












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