Guiné > s/d > s/ l > Este é o primeiro postal de uma coleção de postais de propaganda das NT, dirigida aos "homens do mato" (SIC)... A coleção foi -nos disponibilizada, para ser digitalizada e publicada no blogue, pelo nosso saudoso camarada Joaquim Nunes Sequeira, o "Sintra, que foi 1º cabo canalizador, BENG 447 (Brá, 1965/67) (1944-2024), e que encontrávamos quase sempre nos almoços-convívios da Magnífica Tabanca da Linha.
O cartaz, tipo vinheta de BD, a cores, foi "restaurado" digitalmenete, com recurso à IA. É um material produzido no âmbito da Acção Psicológica (mais conhecida pela abreviatura APsic) e deve remontar ao tempo do com-chefe e governador-geral gen Arnaldo Schulz (1964-1968).
Não sabemos se já existia na época a Rep ACAP (Assuntos Civis e Ação Psicológica), do QG/CCFAG, a funcionar no forte da Amura.
Já aqui o dissemos, é um material muito interessante, do ponto de vista documental, iconográfico e e historiográfico, mesmo que revele; (i) muita ingenuidade; (ii) desconhecimento grosseiro do fardamento e das armas do PAIGC, da organização e funcionamento das FARP (Forças Armadas Revolucionárias do Povo, crizadas em fevereiro de 1964) e (iii) uma estética de mau gosto e duvidosa eficácia.
O PAIGC não era a UPA/FNLA, um simples bando de gente esfarrapada, desçalca, esfomeada, desmoralizada ( o mesmo não se pode dizer da população que "vivia no mato")...
Mas, provavelmente, era essa a imagem caricatural que "encomendaram" ao artista gráfico, cujo identidade ainda hoje desconhecemos.
A mensagem que se queria transmitir, na época, era sobretudo psicológica: associar a guerrilha à miséria, a fome, à doença, ao sofrimento físico e à morte, apresentando o "homem do mato" (sic ) como um foragido, uma vitima da desgraça que anda a espalhar...
É uma representação propagandística, não é (nem pretende ser) um retrato documental neutro. Tal como os documentos de propaganda do PAIGC dirgidos aos "tugas" e aos "cães dos colonialistas" que eram os nossos soldados e mílicias fulas. A propaganda é sempre caricatural, feita a preto e branco, a traço grosso.
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Fernando Louro |
1. Vamos recuperar para esta série ("Documentos") alguns textos sobre a "Psico", como dízíamos na Guiné. APsic, na terminologia militar. (Ou "Pchícola", como pronunciavam algumas das nossas praças, em linguagem brejeira, já que para eles fazer a "psico" era ir às tabancas catrapiscar as bajudas...).
Recorde-se que em plena "Spinolândia" (maio de 1968 / agosto de 1973) havia no QG/CCFAG, na Amura, a 2ª Rep, a Rep ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) onde trabalharam ilustres militares como Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho, Lemos Pires, etc., a "intelligentsia" político-militar do gen Spínola. Mas também o nosso camarada Ernestino Caniço, hoje médico.
A "Psico" não foi uma "invenção" de Spínola, mas foi com ele e os seu "estado-maior" que ela se tornou uma "arte & ciencia", castrense, apurada... Em todo o ca, convira ir aos "primordios.Vale a pena rcuar até ao tempo de Fernando Louro, ao ano do início da guerra com o PAIGC, para perdermos melhor como evoluiu o conceito e se ch3gou a criação da Rep ACAP.
Recorde-se que o brigadeiro Fernando Louro de Sousa (1911–1989) foi nomedao Comandante-Chefe das Forças Armadas na Guiné Portuguesa em 13 de março de 1963, cargo que exerceu durante pouco mais de um ano.
Ele e o governador, o comandante Vasco Rodrigues, nunca se terão entendido sobretudo no exercício e na partilha das suas funções, permitindo com isso que PAIGC tivesse uma arrancada fulgurante, sobretudo no sul. (E isto, apesar da Op Tridente, cujo sucesso relativo não chegou para mudar a ideia de que o brigadeiro fora um tremendo erro de "casting".)
Ambos, o comandante-chefe e o governador, serão substituídos em maio de 1964, pelo brigadeiro Arnaldo Schulz, que passou a acumular os dois poderes, o político e o militar.
As ideias de Fernando Louro sobre a "acção psicossocial" não destoavam muito do "assistencialismo" que ainda se praticava no início dos anos 60 na metrópole.
E, em termos práticos, não passaram do papel, por falta de meios humanos, técnicos e financeiros, etc., além da proverbial falta de articulação entre as ainda escassas forças armadas e a administreção civil, já em colapso.
Enfim, não havia médicos, professores, engenheiros, quadros técnicos, nem civis nem militares... Sobretudo não havia visão estratégica nem tática para fazer frente ao PAIGC... que muito rapidamente ganhou a adesão, a mal ou a bem, o da grande maioria dos animistas (em especial os balantas, que vão servir de "carne para canhão" ) mas também parte da população muçulmana (biafadas, mandingas, nalus...).
O "checklist" que a seguir se publica é de um indigência intectual atroz, resultante de uma leitura apressada da "Bíblia", o manual “O Exército na Guerra Subversiva” produzido pelo Estado-Maior do Exército (1963) (em 5 volumes, revistos em 1966).
Vê-se que Louro é um militar de outro tempo, ainda eivado de estereótipos coloniais, como o uso infamante do termo "nativo", apesar de tudo mais "neutro" do que "indígena" (o indigenato tinha acabado de ser abolido, pelo Decreto-Lei n.º 43 893, aprovado em 6 de setembro de 1961 sob a alçada do ministro do Ultramar, Adriano Moreira).
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Acção Psicológica - 1963
(Parte I)
(Excertos: CECA, 2014)
O primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre o assunto, é a Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63. (#)
Na primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população". Na segunda parte, da "Acção psicossocial sobre as NT", no âmbito da acção psicológica e acção social.
Expõem-se de seguida ambas as partes.
Em 15Nov, através da Nota n° 247/C da 3ª Rep/QG/CTIG, foi enviado aos Comandantes de Sector e Chefes de Serviço, entidades que o iriam elaborar, o modelo de "Relatório Periódico de Acção Psicológica" com a finalidade, âmbito, periodicidade e difusão. Este é apresentado no final: Anexo A "Acção Psicossocial-Instruções".
1ª PARTE
Acção Psicossocial junto das Populações
Introdução
Uma das principais diferenças existentes entre a Guerra Convencional e a Guerra Subversiva, é que, nesta última, se procura conquistar a população para depois dominar o território por ela ocupado.
A população é, pois, o objectivo número um de qualquer dos partidos em luta, e quem tiver o seu apoio dispõe de muito maiores possibilidades de vitória.
Para manter ou obter o apoio da população, existem diferentes modos de acção sendo de destacar entre eles a "Acção Psicossocial".
"Quando houver que actuar psicologicamente sobre a população dum território onde se leva a efeito uma luta contra a subversão, é possível conquistar simultaneamente o afecto e a confiança dessa população, tornando-a mais sensível à acção psicológica, por meio de uma acção social ou de assistência dirigida no sentido de diminuir as suas principais deficiências morais e materiais. É ao conjunto destas duas acções, psicológica e social, que se chama Acção Psicossocial". (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicológica).
Acção Social
A Acção Social consiste na aplicação planeada de um conjunto de medidas, que têm por fim não só levantar o nível de vida da população como também ganhar o seu afecto e confiança, tornando-a mais facilmente permeável à Acção Psicológica.
- Exige muito bom senso e ponderação, pois de forma alguma se pode prometer aquilo que não se pode ou não se tem a certeza de poder dar ou realizar. Em todos os escalões é preciso "saber prometer, a fim de nunca comprometer".
- É igualmente muito importante actuar com autoridade e não pretender convencer que somos muito ricos ou todo-poderosos, capazes de tudo resolver dum momento para o outro. Há que ter a noção clara das realidades e das possibilidades, procurando sempre resolver ou tornear as dificuldades no sentido de serem atingidos os objectivos propostos e cuidadosamente seleccionados.
- É também muito importante procurar compreender o nativo mostrando-se interessado pelos seus problemas e aspirações. A população civil branca deve ser levada a interessar-se pelos problemas respeitantes à Acção Psicossocial. É pois fundamental que exista uma "compreensão mútua" entre os diferentes elementos da sociedade.
Os campos de acção normalmente abertos à Acção Social das Forças Militares são os seguintes:
- Assistência Sanitária;
- Assistência Religiosa;
- Assistência Educativa;
- Assistência Económica.
Seguidamente se indicam algumas das muitas actividades que se podem realizar nestes campos:
Assistência Sanitária
Campo Sanitário:
- Criação de P.S. [Posto de Socorros] e centros de tratamento.
- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência regular às diferentes localidades do sector.
- Procurar colaborar com o S.S.[Serviço de Saúde] da Província e obter a sua colaboração.
- Utilizar viaturas militares para o transporte de doentes. Quando as circunstâncias o aconselharem providenciar para se efectuar a evacuação aérea.
- Por intermédio deste Comando, procurar obter a colaboração das Autoridades Administrativas, MNF Movimento Nacional Feminino] , Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas e elementos civis para a aquisição de medicamentos (não há distribuição mas apenas aplicação de medicamentos, quando se torna necessário a aplicação repetida de um medicamento, é o doente que se desloca até ao P.S.).
- Vigilância do estado sanitário das populações.
- Conselhos de profilaxia.
- Vacinações.
- Consultas e tratamentos (incluindo as vítimas dos insurrectos).
- Intervenções cirúrgicas dentro das suas possibilidades.
Campo de higiene
- Divulgar medidas de higiene.
- Aconselhar sobre a alimentação mais adequada.
- Orientar a construção de novas casas com melhores condições de
habitabilidade.
- Demonstrar os perigos e inconvenientes que tem o gado andar dentro
de casa, pelas ruas, etc .
Assistência religiosa
- Elaboração de calendários de visitas de modo a garantir uma assistência
regular às diferentes localidades do sector.
- Procurar colaborar com as autoridades eclesiásticas e obter a sua colaboração.
- Prestar assistência religiosa, a qual pode apresentar as seguintes modalidades: apoio espiritual, celebrações de acto de culto, catequese.
Assistência Educativa
Cultura Geral
- Criar escolas para crianças e adultos.
- Procurar colaborar com os professores nos locais onde já existem escolas e obter a sua colaboração.
- Procurar aumentar a frequência das escolas não esperando que venham inscrever-se.
- Divulgar a existência das escolas e as vantagens que podem usufruir
aqueles que as frequentam.
- Criar prémios para os melhores alunos e para os mais assíduos.
- Procurar obter a colaboração de elementos civis (fornecimento de
material escolar).
- Organizar bibliotecas populares com livros, jornais e revistas, pedindo
por intermédio deste Comando a colaboração de A.G. [Agência Geral do] Ultramar, MNF, entidades particulares, etc .
- Organização de festas culturais, orfeões, sessões de música (principalmente
folclórica), cinema, etc .
Cultura Técnica
- Organizar escolas de artes e ofícios em todas as localidades onde isso for possível e obter para elas a colaboração dos elementos civis.
- Construções.
- Conselhos técnicos.
- Fornecimentos de alimentação, abafos, alojamentos, etc. (em casos especiais) .
- Compras (os pagamentos serão feitos a pronto e os contratos estabelecidos
livremente).
- Entusiasmar os nativos na organização de granjas com vista não só à satisfação das suas necessidades como também para poderem fornecer às Forças Militares, aumentando assim os seus proventos.
- Interessar os nativos na criação de animais com vista à satisfação das suas necessidades e fornecimento às F. Militares que os comprarão, aumentando assim os seus lucros.
- O contacto com as populações deverá ser sempre procurado preconizando- se o seguinte:
- Participação nas festas gentílicas, quando convidados;
- Pernoitar e tomar refeições nas tabancas e convidar para estas os elementos mais importantes;
- Convidar os régulos, chefes de tabancas e homens grandes para visitarem o quartel;
- Quando dos reconhecimentos, efectuar visitas de cortesia àqueles indivíduos (não estranhar que inicialmente as populações fujam ao contacto com a tropa e procurar, a bem, fazer-lhes ver que somos amigos e procuramos a sua amizade e confiança);
- Tomar as medidas que estiverem ao seu alcance para resolver os problemas apresentados pelos nativos;
- Procurar que os colonos tratem os nativos como homens, não os explorando (enviar relatórios imediatos sobre actos de injustiça de que tenha conhecimento);
- Aproveitar todas as oportunidades para explorar em nosso favor os erros, mentiras e exageros de propaganda adversa (facilmente rebatíveis, pois duma maneira geral são grosseiros);
- Aproveitar todas as oportunidades para efectuar uma propaganda baseada em factos ou temas que possam ser facilmente verificados pelo indígena. Os dados utilizados devem ser rigorosamente verdadeiros;
- Aproveitar todas as oportunidades para elevar o nível político através duma doutrina dirigida e compatível com o grau de civilização da população.
(Continua)
Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 149 / 154.
(Seleção, revisão / fixação de trexto, negritos: LG)
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Nota da CECA:
(#) Para elucidação sobre os antecedentes, organização, estruturas e actividades do Exército no campo da acção psicológica veja-se o Capítulo VII do 10 Volume "Enquadramento Geral", da Resenha Histórico Militar das Campanhas de Africa (1961-1974) da CECA/EME; páginas 373 a 398.
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Notas do editor LG:
Último poste da série > 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28133: Documentos (66): Para a história da administração civil ultramarina: "Levante auto e envie os indígenas para Bolama a fim de serem expulsos da Província!"... Despacho (do Governador ?) a uma nota do administrador António Augusto de Barros, vítima de agressão, em Pete, chão mancanha, em 8/4/1920




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