Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28443: Documentos (68): Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)








Guiné > c. 1965 > Estamos a reproduzir  os postais de propaganda das NT, dirigidas ao IN e à População. Fazem parte de uma  colecção  do Joaquim Sequeira (1940-2024), ex-1º cabo canlizador, BENG 447 (Brá, 1965/67). carinhosamente tratado  por "Sintra" (ele morava no Mucifal, concelho de Sintra,e era assíduo frequentador da Tabanca da Linha).

Trata-se de uma sequência de banda desenhada, sob a forma de um folheto desdobrável com uma meia dúzia de postais, impressos de um lado e do outro. Ccmeça com uma imagem do mapa da Guiné ("Guiné Portuguesa, Guiné Feliz"). À direita está escrito, esferográfica azul: "Do Sintra, 8/65".

No primeiro  postal  (*) mostra-se um grupo de "homens do mato"  (nunca "guerrilheiros"),  feridos, esfomeados, esfarrapados, desmoralizados. Os combatentes do PAIGC nunca são tratados como tal, mas simplesmente como "homens do mato" (leia-se: bandidos, foragidos, indivíduos que estão fora da lei e da ordem). 

Aliás, no nosso tempo, "ir no mato" era, no falar das gentes da Guiné ( a começar pelos soldados do recrutamento local), juntar-se à guerrilha, fugir das zonas sob administração portuguesa (civil e militar).

 Portugal, de resto, nunca reconheceu o PAIGC como inimigo, no sentido militar e legal do termo,  nem a luta contra o "terrorismo" (ou a "subversão) como uma situação de guerra, face à Convenção de Genebra.  

O título do primeiro postal é : "No mato, há doença, fome e morte", A legenda, por sua vez, acrescenta o  seguinte: "O Chefe do Grupo do mato julga que vai morrer. Foi gravemente ferido".  Deduz-se que são os sobreviventes de uma ação ofensiva das NT.

No postal acima  vemos o mesmo grupo de "homens do mato" a entregar-se às autoridades militares portuguesas da zona. 

Depois do chefe do mato ter ido falar com o "homem grande da tabanca" (o régulo, que veste à maneira fula, o que está longe de ser inocente, já que os fulas eram os nossos grandes aliados), o homem grande intercede por eles junto da tropa:

Legenda: "O Homem Grande diz à tropa que estes homens foram enganados, estão arrependidos e fartos da guerra".
 
Foto (e legenda): © Joaquim Sequeira (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI]


Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63 (II)
(Excertos: CECA, 2014)
 

Estamos  a reproduzir o  primeiro documento de que se tem conhecimento na Guiné, sobre a Ação Psicológica, e que se intitula Acção Psicossocial - Instruções, da 3ª Rep/QG/CTIG, de 27Set63.

A primeira parte, trata da acção psicossocial com o objectivo de "obter ou manter apoio da população".  A segunda parte abarca  a "Acção psicossocial sobre as NT",  na dupla  imponente da acção psicológica e da acção social.

(Continuação)

 II. Acção Psicológica


A Acção Psicológica consiste na aplicação dum conjunto de medidas, devidamente coordenadas, destinadas a influenciar as opiniões, os sentimentos, as crenças e, portanto, as atitudes e o comportamento dos meios amigos, neutros e adversos com a finalidade de:

- fortificar a determinação e o espírito combativo dos meios amigos;

- atrair a simpatia activa dos meios neutros;

- esclarecer a opinião de uns e outros e contrariar a influência adversa sobre eles;

-  modificar a actividade dos meios adversos num sentido favorável aos objectivos a alcançar (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicológica).

Em primeira urgência a Acção Psicológica a desenvolver incidirá principalmente sobre a população nativa e terá como objectivo "obter ou manter apoio da população".

Para atingir este objectivo, pretende-se:

A - Levar a população a informar a tropa da presença dos rebeldes.

B - Levar a população a atacar os rebeldes e a defender-se com o apoio dos militares.

C - Reagrupar as populações dispersas, proporcionando-lhes condições de vida e autodefesa.

D - Dar a conhecer às populações as nossas intenções e compará-las com as do inimigo.

Temas a desenvolver em relação a cada uma das missões indicadas:

A - Levar a população a informar a tropa da presença dos rebeldes.

  • Necessidade de sabermos quem são os bons para serem compensados e os maus para serem castigados. 
  • A tropa só faz justiça e quer o bem e a paz.

B - Levar a população a atacar os rebeldes e a defender-se com o apoio dos militares:

  • Se o nativo ajudar a tropa é mais fácil haver paz e viverem sossegados nas tabancas. 
  • A tropa protege todos os portugueses qualquer que seja a sua raça e naturalidade.

C - Reagrupar as populações dispersas proporcionando-lhes condições de vida e autodefesa:

  • Vantagens de viverem nas tabancas onde nada falta em relação à vida no mato;
  • A tropa proporciona a defesa das tabancas onde os nativos se instalarem e perdoa-lhes terem ido com os rebeldes.

D - Dar a conhecer às populações as nossas intenções e compará-las com as do inimigo:

  • Lutamos pelo bem estar da população da Guiné e para que vivam todos os povos em paz;
  • Não obrigamos ninguém a ir para o mato nem a dar-nos comida,antes pelo contrário, queremos que venham para as tabancas e damos remédios, abrigo, comida, etc. 
  • Lutamos com os nativos pelos nativos e os terroristas vêm defora para vos fazer mal~;
  • Os meios de comunicação a dar prioridade, serão, por enquanto, os seguintes: conversa orientada; palestras; reuniões populares; processos visuais;
  • Serão rebatidos lógica e oportunamente todos os boatos que nos forem desfavoráveis, demonstrando-se a sua falsidade;
  • Procurar-se-á explorar a nostalgia das populações atingidas pelas actividades terroristas criando-lhes imagens que despertam saudades dos tempos em que viviam sossegadas e sem preocupações nem receios.

Dados Estatísticos e Psicológicos

É importante recolher todos os elementos que possam fornecer dados estatísticos os quais podem ser apresentados sob a forma de quadros ou de gráficos. Entre os diferentes elementos que interessa conhecer, destacam-se os seguintes:

• Assistência Sanitária

- Número de doentes assistidos;

- Valor dos medicamentos distribuídos pelas FM;

 Valor dos medicamentos fornecidos pelas entidades civis e distribuídos pelas Forças Militares (FM);

- Número de nativos vacinados;

- Número de doentes transportados.


• Assistência Religiosa

- Número e natureza de actos de culto celebrados;

- Número de instruendos da catequese .


• Assistência Educativa

- Número de escolas e de alunos (localidades);

- Número de escolas de artes e ofícios (modalidades e localidades);

- Número de professores e auxiliares;

- Número de espectáculos recreativos e locais em que se realizaram;

- Número de festas gentílicas a que assistiram e locais em que se realizaram; 

- Número de espectáculos desportivos e locais onde se realizam.


• Assistência Económica

- Valor das dádivas distribuídas pelas FM;

- Valor das dádivas feitas por elementos civis e distribuídas pelas FM;

- Número e natureza dos serviços prestados.

- De acordo com o regulamentado, deve ser elaborado e enviado  mensalmente  um relatório cujo modelo se indica em anexo.


2ª PARTE

Acção Psicossocial sobre as NT


I - Acção Psicológica


1. A acção psicológica a exercer sobre as forças militares tem as seguintes finalidades:

- formar, manter e fortalecer o moral do pessoal e imunizá-lo contra os ataques psicológicos adversos.

- preparar o pessoal para colaborar na acção psicológica a exercer junto das populações e sobre o adversário (O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicossocial).

Terá de ser também orientada de modo a combater a "saturação" e o desgaste psíquico proveniente duma prolongada estadia em más condições de alojamento e do forçado afastamento não só dos meios onde normalmente o pessoal vivia como também, por vezes, das populações civis. Ao planear-se a acção psicológica numa Unidade deve ter-se em atenção as diferenças existentes nos vários escalões a fim de que a mesma se ajuste a cada um deles.

2. Os campos de acção onde os comandos militares podem, principalmente, exercer a sua actividade para obtenção das finalidadesmencionadas são, entre outras, as seguintes:

- moral e cívica;

- informativo;

- da instrução técnica.

2A. Formação Moral e Cívica

a. Toda a actividade do comando neste campo deve basear-se nos regulamentos e ser orientada de molde a:

- desenvolver a crença na justiça da causa que defende.

- aumentar a vontade de combater.

- criar a certeza da vitória.

- valorizar os militares tornando-os mais conscientes dos seus deveres.

b. A formação moral e crvica dos quadros deve merecer especial atenção não só devido à sua pouca experiência como também devido ao facto de serem eles os orientadores directos e os educadores que mais intimamente lidam com as praças que são os que em maior número contactam com as populações nativas.

c. Deve merecer especial cuidado de todos os comandos a Acção Psicológica a exercer sobre as NT quando elas estão prestes a finalizar as suas obrigações militares e a embarcar para a Metrópole. 

Procurar-se-á incutir noespírito dos homens a necessidade de se tornarem, nas suas terras, valores sociais positivos, sempre prontos a baterem-se pela verdade, pelo bem e pela justiça. 

É também muito importante demonstrar-lhes a necessidade de informarem com verdade, principalmente os mais novos àcerca do que é o Exército e a obra que por ele está sendo levada a efeito nas Províncias Ultramarinas.

2B. Informações

a. No aspecto informativo deve constituir preocupação do Comando trazer os seus subordinados convenientemente informados sobre os assuntos e problemas do seu interesse.

Isto é tanto mais importante quanto é certo que a falta de informações correctas e oportunas torna o "terreno" fértil para o lançamento de boatos sempre exploráveispelo inimigo.

 b. Os comandos devem igualmenteinformar os seus subordinados sobre os erros ideológicos do adversário preparando-os assim para não "se deixarem levar", tornando-se "simpatizantes" ou gerando nos seus espíritos dúvidas quanto àjustiça da causa que defendem. Lembra-se a este respeito que um dos objectivos dos insurrectos, neste tipo de luta, é a criação da dúvida no espírito das tropas quanto à legalidade e justiça das causas por que se batem.

c. A fim de manter as tropas tanto quanto possível bem informadas podem utilizar-se os seguintes meios:

- criação do centro informativo da unidade;

- realizar palestras;

- promover discussões dirigidas;

- publicar folhetos ou jornais.

d. É também procedimento aconselhável o que consiste em dar publicidade aos actos heróicos praticados por militares levando-os ao conhecimento das populações da terra da sua naturalidade e posteriormente distribuir, na Unidade, os jornais em que foi dada a notícia.

2C. Instrução técnica

- Todos os elementos das FM tomam parte, permanentemente, nos programas da acção psicossocial, sendo consciente ou inconscientemente um elemento activo da sua execução.

Nestas condições e com o fim de tornar os seus actos conscientes deles obtendo maior rendimento, recomenda-se seja ministrada instrução sobre a matéria constante de "O Exército na Guerra Subversiva - III Acção Psicossocial".

- É sempre de salientar o efeito psicológico que tem sobre as populações nativas as atitudes dos militares, a grande eficiência que demonstram, a maneira como se comportam perante os civis e os militares seus superiores, a segurança e apresentação das instalações que ocupam, etc ..

- Deve igualmente salientar-se que o desejo da maioria dos militares em regressar à Metrópole e a exteriorização das saudades que sentem de suas famílias e suas terras, não significa de modo nenhum revolta contra a missão que lhes foi atribuída ou desejo de entregar ao ln esta ou aquela parcela do território português.

II - Acção Social

3. No aspecto social, a actividade dos comandos exerce-se, entre outros, nos seguintes campos:

- Literário e cultural;

- Técnico;

- Recreativo e desportivo;

- Assistencial.

3A. Campo literário e cultural

- Organização de Escolas Regimentais procurando que no fim das comissões todos os militares saibam, pelo menos, ler, escrever e contar. Entregar diplomas aos que fizerem exames.

- Organização de cursos liceais para os militares que estiverem em condições de os frequentar. Procurar que se habilitem a fazer exames no liceu em Bissau.

- Organização de bibliotecas, as quais tanto interessam ao campo literário como ao recreativo. 

- Organização de exposições com prémios aos que apresentarem melhores trabalhos.

3B. Campo técnico

- Valorizar tecnicamente os homens facilitando a frequência de cursos de condução auto civis, primeiros socorros, etc ..

- Aproveitar as aptidões dos especialistas procurando aperfeiçoá-los pela atribuição de trabalhos da sua arte os quais, sempre que possível, serão recompensados.

- Organizar a exploração agro-pecuária da unidade e entusiasmar os homens no tratamento da mesma ensinandolhes como proceder.

3C. Campo recreativo e desportivo

- Organizar as actividades recreativas da unidade;

- Criar conjuntos artísticos;

- Efectuar espectáculos para distracção do pessoal e distribuir prémios e recompensas aos melhores soldados;

- Estimular a entrada de militares no "ambiente local";

- Efectuar visitas de solidariedade entre as unidades;

- Organizar grupos desportivos e promover a disputa de torneios;

-  Manter e, se possível, melhorar a boa forma física do pessoal, levando-o a praticar educação física, marchas, desportos, etc ..

3D. Campo assistencial

- Efectuar, sempre que possível, visitas de solidariedade aos doentes ou feridos internados levando-lhes pequenas lembranças;

- Sempre que as circunstâncias o aconselhem, enviar mensagens às famílias dos militares e responder a todas as cartas e pedidos de informações que recebam;

- Procurar a colaboração do MNF, Cruz Vermelha Portuguesa, Cáritas, para a resolução dos problemas e prestação da assistência às famílias dos militares que se encontram em comissão no Ultramar;

- Promover a celebração de actos de culto para todos aqueles que desejarem associar-se.

4. A criação e organização do "Jornal da Unidade", além de aumentar o espírito de corpo da mesma, é uma iniciativa muito útil e que interessa simultaneamente à maioria dos campos mencionados nas alíneas anteriores. Estes Jornais devem focar temas educativos, instrutivos, psicológicos e recreativos de preferência a temas especulativos.

(Continua) 

Fonte: Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pp. 155/162.


(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

______________

Nota do editor LG:

 Último poste da série >  16 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28440: Documentos (67): a Ação Psicológica - 1963 (1(

Sem comentários: