1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2026:Queridos amigos,
Por amável empréstimo da Biblioteca da Liga dos Combatentes li as memórias de infância de Frederico Valarinho em Tete, são tocantes como retoma um sexagenário à vida de uma criança num ambiente predominantemente militar e ao elogio que tece aos seus pais. Assim se vai abandonando o terreno da especulação de que a literatura da guerra colonial ou era domínio de reserva de ex-combatentes ou de estudiosos, está amplamente confirmado pelo que temos lido de Paulo Faria, Joana Pontes ou Catarina Gomes, entre outros, que os filhos da guerra, incluindo os filhos de tuga, são hoje literatura constante do dever da memória da guerra colonial.
Abraço do
Mário
Os filhos da guerra são hoje a geração a quem compete transferir a memória das suas vivências coloniais
Mário Beja Santos
O dever de memória, em termos literários da guerra colonial, começou por se manifestar por testemunhos de ex-combatentes através de romances, novelas e contos, poesia e memórias; outros deram seguimento por via da historiografia, do jornalismo, até da hagiografia, narrativas múltiplas, não faltaram posicionamentos ideológicos. Passadas estas décadas, assiste-se à consolidação da literatura memorial e à emergência de novos protagonistas, com um peso particular para os filhos, mesmo aqueles filhos de tuga que reivindicam o direito à identidade. É uma variante do subgénero literário esta maré de escritos dos filhos de ex-combatentes.
É nesse contexto que se justifica um comentário ao livro de Frederico Valarinho "Nós, Os Filhos da Guerra", Âncora Editora, 2024. Valarinho nasceu em Nampula, em dezembro de 1964, o pai, oficial do Exército, fazia ali a sua comissão. Valarinho é homem dos sete ofícios, trabalhou como jornalista e tem o seu nome ligado à esgrima, modalidade desportiva em que o pai foi ilustre pioneiro. O Major-general Pedro Pezarat Correia prefaciou estas memórias de Valarinho criança na cidade de Tete, onde o pai aparecia de vez em quando, o seu batalhão estava em área de refrega.
O prefaciador não esconde a sua admiração por este poder de regressar à infância, o brincar despreocupadamente com outras crianças, o ambiente escolar, o seu interesse em ter recolhido lembranças de amigas mais chegadas daqueles tempos. Também pesa como documento as notas de enquadramento, o adulto que foi jornalista não se irá coibir de contextualizar histórica, geográfica, política e militarmente, as memórias da infância. É deste prefácio que retirei o título que dou a este apontamento: “Os filhos na guerra são hoje a geração a quem compete transferir o legado dos seus pais aos seus filhos e aos seus netos.” Trata-se de uma aventura memorial: a interrupção de estudos na metrópole, a viagem com a mãe para Moçambique, dá-se uma boa página de enquadramento histórico. A vida em Tete, o alojamento, a vida do colégio, as brincadeiras no dia-a-dia, uma nota de enquadramento do aparecimento nacionalista em Moçambique.
E dá-se o enraizamento afetivo, as boas horas na piscina com os amigos, ao seu olhar de criança escapou a sociedade militar em Tete, a música que se ouvia, a roupa engomada com ferro a carvão, a nova casa, diz o térreo, o comércio dos monhés (designação dada aos indianos) mais notas de enquadramento, o que o autor pode apurar da evolução da guerra do tempo em que viviam em Tete, o funcionamento dos serviços de saúde, o que se sabe e ainda não se sabe dos massacres de Wiriamu; o passeio à cidade da Beira, como os moçambicanos, principalmente os colonos portugueses, viviam a guerra, importa não esquecer que a maioria esmagadora dos portugueses em Moçambique estava concentrada no sul.
Extensa nota de enquadramento sobre os acontecimentos vividos em Moçambique em finais de 1973 e até março de 1974. Memória de como se viveu o 25 de abril de 1974, o comovente elogio feito aos seus pais. Termino com a referência à apresentação do livro pelo seu autor:
“Por falar em memórias, convirá que fique desde já definida uma das regras que me impus ao escrever esta obra: mal ou bem, errado ou não, tudo aquilo que consta nestas páginas foi retirado exclusivamente da minha memória. Claro que poderia ter pedido aos meus pais, adultos com uma capacidade de observação e um discernimento completamente diferentes daqueles que eu à época dispunha, que me lembrassem factos e pessoas e corrigissem detalhes que pudessem ter sido alterados pelo olhar e pela imaginação de uma criança entre os 6 e os 9 anos. Só que, se o fizesse, estaria a adulterar o que aqui pretendia fazer. Este é um livro sobre aquilo que uma criança viu e sentiu.”
Frederico Valarinho
_____________Nota do editor
Último post da série de 19 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28448: Notas de leitura (1972): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (2) (Mário Beja Santos)


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