Cópia da capa e índice do documento "Guia do Alfabetizador", editado pelo MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola, s/l, 1968, 68 pp. Fonte: Cortesia de Jaime Silva (2026)
Tabanca de Porto Dinheiro / Lourinhã:
4 de agosto de 2012 > Jaime Silva
Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal do Facebook).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador
por Jaime Silva
Não esqueci que, no decorrer de mais uma operação no Leste, a Norte do Rio Cassai, o meu pelotão foi surpreendido com progressão de um grupo de guerrilheiros do MPLA. Em consequência do confronto entre os dois grupos ficaram tombados alguns corpos (o trivial, durante a guerra!...).
Encontrámos um deles com uma mochila contendo, para além de mantimentos e munições, um manual de economia em língua francesa e dois manuais escolares: a Cartilha do Alfabetizador e o Livro do aluno.
Fiquei surpreendido! Desconhecia este trabalho educativo dos guerrilheiros! Eles ensinavam por uma cartilha que era muito parecida, na metodologia de ensino, com a Cartilha de João de Deus – o meu livro de 1.ª classe! Aí aprendi as primeiras letras, na escola da minha aldeia!
Surpreendido também com os conteúdos, que eram deste género: a 1.ª lição do livro do aluno iniciava com a frase “Angola é a nossa terra”; a 2.ª lição tinha três frases com objetivo de consciencialização política do povo e das razões por que lutavam:
“O colonialismo é inimigo do povo. O colonialismo português domina a nossa terra. O povo unido luta contra o colonialismo”.
Também, essa Cartilha do Alfabetizador, nas páginas 5/6, tinha uma carta dirigida ao “Camarada Alfabetizador. No seu início dizia:
“Camarada Alfabetizador,
Tu sabes ler e escrever
Nós, no nosso país, em cada cem pessoas, noventa e nove não o sabem.
(…) Ajudando os outros companheiros a ler e a escrever tu estás a cumprir uma tarefa de patriota e de revolucionário.”
Lembro, não posso esquecer que, naquele dia, reforcei ainda mais, a minha convicção de que travávamos uma guerra injusta e sem sentido.
Encontrámos um deles com uma mochila contendo, para além de mantimentos e munições, um manual de economia em língua francesa e dois manuais escolares: a Cartilha do Alfabetizador e o Livro do aluno.
Fiquei surpreendido! Desconhecia este trabalho educativo dos guerrilheiros! Eles ensinavam por uma cartilha que era muito parecida, na metodologia de ensino, com a Cartilha de João de Deus – o meu livro de 1.ª classe! Aí aprendi as primeiras letras, na escola da minha aldeia!
Surpreendido também com os conteúdos, que eram deste género: a 1.ª lição do livro do aluno iniciava com a frase “Angola é a nossa terra”; a 2.ª lição tinha três frases com objetivo de consciencialização política do povo e das razões por que lutavam:
“O colonialismo é inimigo do povo. O colonialismo português domina a nossa terra. O povo unido luta contra o colonialismo”.
Também, essa Cartilha do Alfabetizador, nas páginas 5/6, tinha uma carta dirigida ao “Camarada Alfabetizador. No seu início dizia:
“Camarada Alfabetizador,
Tu sabes ler e escrever
Nós, no nosso país, em cada cem pessoas, noventa e nove não o sabem.
(…) Ajudando os outros companheiros a ler e a escrever tu estás a cumprir uma tarefa de patriota e de revolucionário.”
Lembro, não posso esquecer que, naquele dia, reforcei ainda mais, a minha convicção de que travávamos uma guerra injusta e sem sentido.
Fonte: excerto de Jaime Bonifácio Marques da Silva, "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp. 92/93
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
______________
Nota do editor LG:
Último poste da série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27591: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra



Sem comentários:
Enviar um comentário