
1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69).
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.
Nos cinco postes anteriores já publicados(*), ele fala-nos, sucintamente, de:
(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.
4.3. - Corista de Filosofia
A minha transição do Noviciado para o Coristado foi aos 17 anosanos [em Leiria, no seminário de São Francisco].
Na minha qualidade de professo de votos simples, tinha uma cela mais moderna, com uma varanda colectiva, era assíduo ao coro, três vezes por dia, participava nas festas litúrgicas e tinha a obrigação do estudo.
Embora continuasse a acompanhar os padres em algumas funções religiosas, já era permitido ir a Fátima, a pé, nos dias treze, onde por vezes me encontrava com a família e conterrâneos.
O tempo de lazer também se alterou: às quintas feiras deslocava-me ao campo de futebol, ou a uma quinta próxima e jogava futebol, ou tomava banho no rio.
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Quanto a férias grandes, no primeiro ano fui 15 dias para o santuário dos Remédios, em Peniche. Era proibido tomar banho individualmente no mar e não podíamos tirar o hábito na povoação, nem falar com pessoas estranhas.
Como alguns não resistissem à tentação de falar com pessoas estranhas e tomar banho às escondidas, fomos daí a pouco proibidos de continuar.
Destes três anos, recordo, sobretudo, o segundo e o terceiro. No segundo fomos todos castigados a passar as férias grandes no Colégio Angélico, bem guardados por um ex-Prefeito, porque no primeiro ano em que fomos passar férias aos Remédios, Peniche, não cumprimos as determinações superiores, no que respeita ao contacto com estranhos. Alguns falaram, sobretudo com um grupo de enfermeiras católicas que ali perto passava férias.
Também era proibido tirar o hábito e alguns andavam sem hábito e com calças. Igualmente faltavam ao Coro' que, embora simplificado, não era dispensado.
Foi baseados nestes argumentos que os superiores, no ano seguinte, nos obrigaram a passar as férias grandes no Colégio Angélico [em Montariol, Braga ], o que foi interpretado como um castigo.
Com o Colégio deserto, dávamos longos passeios a pé, e cumpridas as obrigações do Coro jogávamos a bola e líamos.
Podíamos utilizar a biblioteca dos padres, mas tínhamos que registar o livro. Aconteceu que alguns deram com o armário dos livros proibidos, aberto, e leram freneticamente os livros que nunca tinham lido, mas só ouvido falar.
Durante uns dias, até darem por isso, foi um corropio para a biblioteca, buscar os romances de Camilo, Eça, Alexandre Dumas e outros .
Os Coristas começaram a faltar ao Coro e a deitarem-se muito tarde. De manhã, ou não apareciam, ou apareciam cheios de sono.
Eu também fui dos que aproveitei. Agarrei-me ao «Crime do Padre Amaro» e devorei-o numa noite. Seguiram-se outros do mesmo autor.
Cheio de remorsos, fui-me confessar a um padre velhinho, que me aconselhou a ir embora, face aos maus pensamentos que não me largavam. Porque estava agarrado aquilo, fui então a outro que me aconselhou a esperar até ver se os maus pensamentos abalavam.
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Entretanto; alguém deu o alarme e os que registaram os livros, conforme as ordens que tinham recebido, foram severamente castigados e proibidos de gozar férias no ano seguinte.
Eu não cheguei a cumprir o castigo, porque entretanto adoeci. Estive oito meses de cama, sempre na minha cela. com uma pneumonia e depois com uma osteamilite , sem poder deslocar-me à portaria, nem poder receber visita da família.
Apenas o Director Espiritual me visitava a miúdo, para me tentar convencer que era uma provação passageira de Deus, para me purificar. Além dele, só podiam entrar na minha cela o irmão enfermeiro e esporadicamente um médico, amigo do Seminário.
Os colegas apenas espreitavam à porta, pois era expressamente proibido entrar nas celas alheias. O meu colega de lado, a quem por vezes incomodava para ir chamar o irmão enfermeiro, se demorasse mais algum tempo, ouvia o ralhete do Mestre:
- Vossa Caridade não sabe que é proibido entrar nas celas uns dos outros?
Com temperaturas altas e sem poder dessedentar-me por imposição médica, dava largas à imaginação, sonhando com missões e missionários. Vivia angustiado, sobretudo pelo perigo de não poder continuar ou perder o ano. Contudo, acreditava que, se fora escolhido por Deus, ele me havia de curar, sem deixar sequelas.
Agarrado como estava ao sonho de ser missionário, para mim esse era o maior drama. Afinal consegui passar o ano, embora de muletas, sendo operado à perna esquerda, já no ano de Teologia, em 1956.
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4.3. Os três anos de Filosofia foram passados já num convento de linhas arquitectónicas mais modernas e panopticamente menos rigoroso.
Tratava-se de inculcação dos saberes da Filosofia tradicional católica, como fundamento dos estudos de Teologia, a ciência por excelência: Philosophia ancila Theologiae [a Filosofia serva da Teologia, LG ].
Embora as chamadas Ordenações Peculiares continuassem em vigor e se cumprisse as normas de disciplinação e as disciplinas, notou-se uma maior flexibilização.
O corpo docente, do qual alguns dos quais tiraram a Filosofia nas universidades católicas estrangeiras, estava mais aberto ao exterior. Embora conservando a matriz doutrinária ortodoxa, estavam mais preocupados em esgrimir argumentos contra as posições tomistas e inculcar as especificidades escotistas. Os mais novos faziam gala das suas intervenções no meio intelectual e os mais velhos remoíam sebentas repetitivas.
O sistema panóptico, reforçado no Noviciado, começou a dar mostras de algum abrandamento na Filosofia. Já éramos clérigos professos e de votos simples, feitos por 3 anos. Este facto dava-nos algum status, diante dos irmãos leigos e donatos.
A situação geográfica do convento também favorecia mais os contactos com o exterior. Os pregadores e missionários faziam da casa ponto de passagem obrigatória para o santuário de Fátima.
Esta relativa abertura não nos impedia de viver alheados da situação sócio-política nacional ou internacional.
Sem acesso aos meios de comunicação, uma das grandes lutas a nível interno era contra a proibição de usar calças, por debaixo do hábito. Os mais «modernos» achavam um costume medieval, desadequado. Argumentavam que a tradução em espanhol da Regra falava em 'panetones' e não tinha tradução directa em português. Por isso, alguns interpretavam como calças e os mais observantes como cuecas ou ceroulas. O mesmo acontecia com a túnica que os mais modernos substituíam por camisa.
Esta luta transbordava nas conversas e nas aulas. Acendia-se, quando algum corista mais atrevido era apanhado pelo Mestre com um par de calças arregaçadas debaixo do hábito, ou quando passavam pelo Coristado missionários em férias ou pregadores, que, geralmente, eram menos observantes e mais liberais no trajar.
Embora os Mestres evitassem o contacto dos Coristas com eles, era inevitável, o que me fazia questionar porque para uns havia uma Regra e para outros outra. Resposta não a encontrava, mas estas e outras interrogações não abalavam a confiança na instituição. O 'habitus' estava bem arreigado.
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4.4. Corista de Teologia e Padre
Acometido pela doença, aos 20 anos, novamente o estatuto de devedor de benefícios me acompanhou.
Primeiro aos superiores, por me terem tratado durante a longa doença, aos professores por me deixarem fazer exame em Setembro e novamente aos superiores, quando sofri a intervenção cirúrgica ao fémur, já em Lisboa.
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Apenas no 2º no de Teologia a minha vida de corista seguiu o seu ritmo de estudo normal, quando recebi a Prima Tonsura (8).
No primeiro ano de Teologia, quase não saí do Seminário, porque andava amparado em muletas. Por isso, ocupava todo o tempo no estudo e nas aulas.
Olhando à distância, recordo algumas impressões deixadas por professores e Mestres de Coristas.
Havia o professor de História da Igreja que, sob uma máscara de dignidade, debitava sempre as mesmas anedotas sobre os jesuítas, para Corista rir. Era o professor de Direito Canónico, que, no seu palmo e meio, não conseguia encarar os alunos de frente. Era o professor de Moral que mandava fechar as janelas e persianas e às escuras, apressadamente, explicava os pecados contra o Matrimónio e as respectivas sanções canónicas.
A partir do 2º ano de Teologia e já quase totalmente recuperado, substituía o passeio semanal pela catequese nas escolas primárias dos bairros sociais próximos.
Para mais facilmente captar a atenção das crianças, utilizava projector e diapositivos alusivos aos temas do catecismo a que eles chamavam cinema. Era um trabalho novo e, cheio entusiasmo como estava, entregava-me a ele com alma e coração.
O contacto com as crianças das escolas primárias era uma novidade. Às quintas e sábados, lá ia carregado de pagelas, distribuindo «santinhos» pelos bairros pobres.
A preparação para as ordens menores (9), ordens maiores (10) e votos solenes (11) era concomitante com o estudo aturado das Disciplinas Teológicas.
Empenhado nestas tarefas, vivia as notícias da terra que falavam do entusiasmo de todos os conterrâneos, na minha próxima Missa Nova.
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4.4. A última etapa da Teologia foi um gradativo caminhar para o sacerdócio (13).
Não obstante o Curso Teológico ser ministrado em Lisboa, estava completamente arredado da problemática política ou social.
O rádio só podia funcionar na sala dos padres, a que não tínhamos acesso e, mesmo ali, só depois do jantar e da ceia. Terminado o recreio, era fechada sem contemplações e só se podia abrir com licença expressa do superior 'totis quoties' (Ordenações Peculiares, 1943: 12).
Geograficamente bem situado, o Seminário era um interposto espiritual entre o poder terrestre e o celestial, para muitas famílias ricas do regime que ali iam procurar o passaporte para o anti-quotidiano.
Talvez por isso estive, quase completamente, alheado do momento quente das eleições de 1959 (**).
Lembro-me, apenas, que me mandaram e fui votar duas vezes: uma de manhã e outra de tarde na Junta de Freguesia, porque estava em causa o derrube de Salazar pelos «comunistas».
Igualmente me lembro de ter ido de hábito, como era do Regulamento, à Baixa Lisboeta, ver o cortejo, durante a visita da Rainha da Inglaterra a Portugal. Foi das poucas vezes em que não fomos acompanhados pelo Mestre.
Outra recordação que conservo viva, foi o castigo aplicado pelo Mestre de Coristas, algum tempo antes do retiro para a ordenação sacerdotal, no convento onde tinha feito o Noviciado.
Admoestado, por estar com um colega a falar nas escadas, em tempo de silêncio, retorqui-lhe que ele estava a espiar-nos debaixo das escadas. Ele não gostou e só fomos fazer o retiro obrigatório para a Ordenação, dois dias depois, o que nos nos obrigou a acabá-lo depois dos outros três colegas.
Felizmente, este percalço não atrasou à Ordenação, pois estava tudo a ser ultimado na minha terra para a Missa Nova (12).
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Notas do autor:
(7) Reza colectiva do Breviário, seis vezes por dia e que tinha a seguinte designação: Matinas, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas.
(8) Ordem menor que consistia em cortar uma madeixa de cabelo no alto da cabeça, vulgarmente chamada coroa: «Feito o exame do 1º ano de Teologia, devem os alunos requerer a Prima- Tonsura, as ordens menores durante o 2° ano e o Subdiaconado ao sair do 3º ano, se lho permitir a idade, por forma que possam receber o Presbiterado no fim do 4º ano, tanto quanto deles dependa. (Regulamento do Processo de Ordenação e programa do exame do Cânone 996).
(9) Assim chamadas por não implicarem a incardinação à Ordem, Congregação Religiosa ou Diocese.
(10) Assim chamadas pela excelência das funções, a que dão acesso. São o Subdiaconado, Diaconado e Presbiterado ou Sacerdócio.
Nenhum ordenando podia receber o Subdiaconado sem ter o chamado título canónico, que era um património suficiente para a sua sustentação. Esta suficiência era aferida pelo correspondente «ao ordenado dum professor de instrução primária, quando provido definitivamente» (Parágrafo 2o do Cânone 479 do cap. Ill das Constituições Sinodais da Diocese de Lamego, 1954).
(11) Os votos solenes era o juramento que os candidatos ao sacerdócio das Ordens e Congregações Religiosas faziam e através dos quais eram recebidos a título definitivo na instituição.
(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação. Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado.
(13) Vd. nota (10).
Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 120-124 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)



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