E acrescentou em nota de rodapé: "Venderam-me esta, e achei graça!".
Tratava-se da versão, em português do Brasil, do "Poème à mon frère blanc". Fui à procura da versão francesa (**), que traduzi e adaptei para português de Portugal. Aqui vai:
Poema para o meu irmão branco
Meu querido irmão branco...
Quando eu nasci, era negro,
Quando eu cresci, era negro,
Quando eu me exponho ao sol, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu estou com medo, sou negro,
Quando eu estou doente, sou negro,
Quando eu morrer, serei negro.
Quanto a ti, homem branco...
Quando tu nasceste, eras cor de rosa,
Quando tu cresceste, eras branco,
Quando te expões ao sol, ficas vermelho,
Quando estás com frio, ficas roxo,
Quando estás com medo, ficas verde,
Quando estás doente, ficas esverdeado,
Quando tu morreres, serás cinza.
Depois de tudo isto, Homem Branco,
E, já que tu és tão inteligente,
Diz-me por que é que me chamas
... Homem de cor?
Léopold Sédar Senghor (1906-2001)
(atribuição errónea, mas simbólica) (**)
2. Comentário do editor LG (com a colaboração da menina Vibe, a nova ferramenta de IA da francesa Mistral AI):
Há pequenos textos, como este poema, que são como "granadas de mão": parecem brinquedos, inocentes, inócuos, engraçados, mas explodem na mão de quem os lê.
Este é um deles. Circula amplamente na Net, até em sítios institucionais, como sendo da autoria de Léopold Sédar Senghor.
Recorde-se quem foi o senhor: o primeiro presidente do Senegal, e grande poeta, de língua francesa, cujo apelido evoca, e se calhar não é por acaso, uma ancestralidade lusitana (Senghor = Senhor) (o que alguns autores, de resto, contestam).
Se qualquer modo, a autoria do poema é incerta ou duvidosa... O que, por si só, já é irónico. Afinal, não há melhor forma de "desmontar o racismo" do que com um texto como este que, por ser anónimo, pertence a todos, em geral, e a não pertence a ninguém, em particular... Como se a voz do outro, historicamente oprimido, fosse, ela própria, uma criação coletiva!...
Este poema não é, propriamente, no meu entender, uma diatribe, um panfleto, contra o racismo. Tem subtileza, tem inteligência emocional, tem humor...
Vejo-o sobretudo como uma espécie de carta aberta, de ironia fina, dirigida por uma "pessoa de cor" (um "negro") a um seu semelhante, "de cor branca", a quem trata por "querido irmão".
Imagino-o entregue, fechado, em envelope cor de rosa, quiçá lacrado, por uma mão, negra, vestida de veludo branco, a um "tuga", no Café Bento, a famosa 5ª Rep, em Bissau. Ou talvez antes, em Luanda ou em Lourenço Marques (onde se diz que o racismo era "menos português suave").
Num tom de falsa ingenuidade, o autor repete, uma e outra vez, a lista de situações em que o "homem negro" é sempre negro, enquanto o "homem branco" muda de cor, conforme os quatro humores, a saúde, a idade, o clima, as situações.
A pergunta final ("Por que é que me chamas...homem de cor?") é uma estocada, um golpe de ironia: afinal, quem tem uma identidade cromática instável é o "branco", não o "negro". E no entanto, é este último que é rotulado, classificado, categorizado, reduzido a um adjetivo.
Este poema fica bem na série "Humor de caserna" (***).
Na guerra colonial, como em qualquer contexto de violência, o racismo era (e é) muitas vezes normalizado sob a forma de piadas, estereótipos, rótulos, praxes, "brincadeiras de mau gosto"... Este poema usa a mesma estrutura do discurso colonizador (a repetição, a classificação, a categorização, o supremacismo, mesmo subtil), para o desmontar por dentro.
É o humor como arma crítica: uma crítica disfarçada de conversa amigável e tratamento afetuoso ("meu querido irmão branco"), e que só no fim se revela como "granada de mão", com a "cavilha de segurança" à vista, pronta a saltar, e quando já é tarde para recuar.
Na caserna, nas tabancas, ou nas esplanadas de Bissau, ouvia-se de tudo: "barrote queimado", "nharro", "preto", "baldé", "turra", "mulato", "escurinho", "tuga", "portuga", "branco", "verdiano"... Mas, afinal, quem é que, no fundo, tinha cor? E quem é que, no fundo, era transparente, ou seja, "invisível na sua humanidade"?
Por fim, a ironia da autoria (ou o mito do "Senghor / Senhor"): que este poema seja atribuído a Senghor também não é de todo inocente. Senghor = Senhor: um africano com um nome que soa a herança portuguesa, um intelectual que foi um dos pais do movimento da negritude (que celebrava a identidade negra), e que, ironicamente, se vê associado a um texto que desconstói a própria ideia de raça como falso conceito científico, desenvolvido no século XIX e primeira metade do século XX.
Tudo indica que o poema é de autor desconhecido. Trata-se de um "meme" literário que ganhou força justamente por não ter dono. Como se o racismo fosse tão óbvio que até a sua crítica fosse obra de todos.
Dá para refletir, camaradas, brancos, negros, crioulos, amarelos... Para refletir, e até rir e chorar... Se o "homem branco" muda de cor conforme o estado de espírito, o ciclo de vida, a condição de saúde, etc., por que razão então é o "homem negro" é que é "de cor"?
Será que a única cor que não muda é a da hipocrisia? E se, no fundo, o verdadeiro "homem de cor" fosse aquele que se recusa a ver as cores dos outros?
Curiosamente, o "preto" é a única "cor" que, dizem, não existe na paleta do arco-íris.
(Revisão / fixação de texto, negritos, título, links: LG)
__________________
Notas do editor LG:
Poème à mon frère blanc
Cher frère blanc,
Quand je suis né, j’étais noir,
Quand j’ai grandi, j’étais noir,
Quand je suis au soleil, je suis noir,
Quand je suis malade, je suis noir,
Quand je mourrai, je serai noir.
Tandis que toi, homme blanc,
Quand tu es né, tu étais rose,
Quand tu as grandi, tu étais blanc,
Quand tu vas au soleil, tu es rouge,
Quand tu as froid, tu es bleu,
Quand tu as peur, tu es vert,
Quand tu es malade, tu es jaune,
Quand tu mourras, tu seras gris.
Alors, homme blanc,
Si tu es si intelligent,
Dis-moi pourquoi tu m’appelles
« homme de couleur » ?
(***) Último poste da série > 24 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)
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