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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Guin+e 61/74 -. P27683: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283):; Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de Janeiro de 1971: Alá não passou por aqui

 




 Fotos: Candoz. LG (2026)


Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de janeiro de 1971: Alá não passou por aqui,

por Luís Graça



Vinte e quatro anos:
ocorreu-te, de repente, que hoje fazias anos,
e que por mera curiosidade
era o teu segundo aniversário nestas terras da Guiné,
e, por sinal, o teu terceiro na tropa,
coincidindo com o terceiro da era do marcelismo,
a tão deseja "primavera política" de Lisboa,
uma treta que durou a vida de uma borboleta.

Vinte e quatro anos, vividos mal,
vinte e um meses de tropa-macaca,
entre o Geba e o Corubal,
vida de cão rafeiro, pisa-capim, vira-minas,
de macaco-cão, saltando do chão e do baga-baga
para a copa da árvore dos teus desenganos.

Tempo de miserabilismo,
tempo do salve-se quem puder,
tempo de calculismo e de cinismo.
"Desenfiado", é a secreta palavra de ordem,
que circula pelos três corpos da Nação,
nobreza, clero e povo em armas.

É uma farsa grotesca
esta guerra que ninguém quer ganhar,
a não ser o tempo que corre contra ti.
Aqui vive-se sem calendário,
com pouca ética e dignidade,
não se apurando perdas e danos,
não se distinguindo dias da semana,
os sábados, os feriados, os dias do Senhor,
as chuvas e o calor,
as formigas e as abelhas,
os bons, os maus e os safados,
a fome e a sede.

Se há resistência, ela é invisível e muda,
e o tempo que conta
é o que falta para a peluda.
És um cão, um cão danado, apanhado na rede.
O tempo é pura aritmética,
soma de momentos,
de dias riscados na parede, suja, mimética,
da tua caserna.
Se um ano aqui é uma eternidade,
dois é o inferno.
O teu corpo fede,
tresanda a tarrafe, a suor
cheira a morte, cheira a merda,
a luto, a perda,
a da tua juventude, a dos teus ideais.

És um pobre fantasma de Quinhentos,
que perdeu o norte
e os demais pontos cardeais,
a idade,
a inocência,
a quietude,
a paciência, 
a autoestima,
a praça-forte,
o astrolábio,
as Índias,
a caravela,
a nau Catrineta,
a pimenta e a canela,
o manual da arte de cavalgar a toda sela,
a rota,
a proa,
a pose,
a árvore genealógica,
as coordenadas de Lisboa,
mais um incunábulo dos Lusíadas,
a Peregrinação, do Fernão Mentes Minto,
a história trágico-marítima dos teus antepassados Maçaricos,
o ritmo,
a rima,
o ADN,
o pedigree,
os esgares de morte do Nuno Tristão
trespassado pelas setas dos "turras",
a cruz,
o cruzeiro,
o estandarte,
a espada,
a valentia do "capitão-diabo", o Teixeira Pinto,
e até o jeito de matar do Afonso de Albuquerque,
para além da arte e da ciência de marear,
no macaréu do Geba,
às portas das bolanhas do Corubal.

Mais prosaicamente, na Guiné
o dia dos teus anos é uma rodada
de uísque ou de cerveja
pr’os teus camaradas no bar de sargentos.
No fundo, o teu dia é um pretexto
para a autocomiseração,
para passares a mão pelo teu pelo,
ou para um voo até às galáxias da metafísica,
que é sempre melhor, chiça!,
que ouvir o silvo de uma granada, em teu redor,
que é coisa bem mais real e mortífera,
é a quilha do barco da morte.

Com sorte,
talvez o amável Zé da Ila,
de nós todos o menos reguila,
pegue na viola (1) e te cante a Pedra Filosofal (2)…

Talvez a malta toda junta,
às tantas da noite, africana, pestífera, mortal,
te cante, e suficientemente alto,
com vozes guturais e desafinadas,
para que Eles, os gajos, te oiçam, mesmo ali ao lado,
no bar dos oficiais…
Eles, Deus e o Diabo.

Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e sempre que um homem sonha,
a vida pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança…


Seguramente
um dia como os outros, sem mais nada,
seguramente mais um dia de solidão,
com ou sem o poema do Gedeão
e a música do Manuel Freire,
a tua canção favorita,
a tua balada querida
e que tu sabes que irrita os teus Cães Grandes

Ninguém te vai dar os parabéns,
só por fazeres anos:
ainda não ganhaste nada,
uma cruz de guerra,
nem sequer o direito a outra vida.
De resto, estás sempre só,
mesmo quando segues,
em bicha de pirilau,
coberto de suor e pó,
com o teu pelotão,
às ordens de Bissau,
para montar segurança à Tecnil
que está a construir
a nova estrada de Bambadinca-Xime (3).

Enfim, mais um dia da tua condição, triste e vil, 
de poeta travestido de soldado
de uma guerra a que sempre chamaste crime,
porque não era a tua, se fosse preciso entrar numa
para defender a tua liberdade e a dos teus,
ou a da tua Pátria seriamente em perigo,
mas da qual és actor, cúmplice,
quiçá testemunha sublime,
guerra que tem dor e tem horror,
mas de que os teus camaradas não falam por pudor.

Je m’en passe, je m’en fous,
'Tou-me cagando!,
escrevias tu no teu diário de um tuga,
patético o diário e o tuga.
Como quem diz:
aqui não há lugar para a fuga,
nem sequer te podes dar ao luxo
de um mísero voo raso
sobre a cerca de arame farpado
ou sobre o ninho de metralhadoras
que varre a pista de aviação,
como um vulgar jagudi
que é uma pássaro feio mas é livre,
e tão ou mais importante do que tu
no seio da criação.
 
Voaste há dias, ai!,
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões (4),
à portas de Bambadinca, a"cova do lagarto",
mas estás vivo, ó tuga,
graças talvez à mezinha que te deu
um mauro, um marabu, em Sinchã Mamadjai (5)...
 
E há dois meses livraste de ser cortado ao meio 
por um roquetada
a caminho da Ponta do Inglês (6).
E que melhor prenda de anos,
meu grande safado,
poderias desejar hoje do que estar vivo,
aos vinte e um meses de Guiné ?


És um sortudo, ó português,
diz-te o internacionalista cubano,
pobre diabo, pau mandado como tu !
Sim, a sorte de  acordar, de manhãezinha,
com o dedo grande do pé a mexer,
responde  o Marquês, sem acento circunflexo,
que nesse dia treze de janeiro de setenta e um
que nem sequer era sexta-feira, agoirenta,
teve o azar, coitado,
sentado na parte traseira, da GMC, 
sorteado o lugar do morto, entre ti e ele,
de ir parar, em mau estado,
em estado de coma,
ao Hospital Militar Duzentos e Quarenta e Um.
Dois anos lá. 
DFA.
E ainda cá está.

Pobre tuga, pobre nharro, pobre turra:
na Guiné, longe do Vietname,
em plena guerra fria,
com russos e americanos a redesenhar
o mapa-múndi e o novo tratado de Tordesilhas,
há muito ano que vos chupam o tutano!

Aqui faz-se poesia, de barriga vazia,
o corpo exangue,
só com o cavername,
a pele e o osso,
a morte na alma.
Sem arroz nem mafé, ó balanta da Guiné!

Resta-te a consolação da escrita e da leitura,
além do teu uísque com água de Perrier.
Eis o poema, que escreveste,
com ternura de raiva e raiva de ternura,
como prenda do teu 24º aniversário:


O Tempo que Faz em Imbecilburgo


Senhores e senhoras,
respeitável público do Circo de Imbecilburgo:
esse homem não é um homem, é um palhaço,
é um soldado, fardado, de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência cumpre ordens,
às vezes com coragem,
outras com lúcido medo,
é isso que lhe dói, neste cenário.
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme
com o Regulamento de Disciplinar Militar:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem sequer menhum poeta panfletário,
nem nenhum herói da resistência,
nem muito menos do 10 de junho:
saiu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus 'nharros',
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas dos senhores de Bambadinca,
que dormem na cama, 
em lençóis brancos lavados, no rio,  por mulheres pretas,
fazendo contas à sua vidinha
que também anda pela rua da amargura.


Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro, contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como reles miliciano.

Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que import-export
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo (se o houver).

Tu até podias acreditar numa 'Guiné Melhor',
no teu 'Her' Spínola, 
no teu prussiano soldadinho de chumbo,
nos teus 'nharros', 
esses patriotas guinéus que lutam a teu lado,
ou, do outro lado, no Cabral, o sedutor, 
que até chegou a ser teu herói, revolucionário,
romântico ma non troppo,
ou no 'Nino', teu turra de estimação,
vestido à cobói  e armado de RPG
no delirante imaginário dos tugas.
Podias mesmo acreditar na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado, glorioso, perdido,
sabendo-se que o dinheiro
e as armas compram tudo
exceto o direito à eternidade,
e muito menos à liberdade.


Se te portares bem, meu sacana,
aos vinte e um meses de Guiné,
na reta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição individual,
lá p'ra o próximo março,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,
- ah!, que ironia! -
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o escriba-mor
da história oficiosa... da tua companhia


 
Post scriptum:

Alá
não passou por aqui,
disse-te uma vez um homem-grande
da tabanca de Saré Ganá (7)

Luís Graça (2006). Revisto em 29/1/2026.
__________

Notas do autor:

(1) Furriel Sousa, da CCAÇ 12, madeirense, carinhosamente conhecido pela alcunha do Zé da Ila (Ilha da Madeira): Vd post de 8 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P945: 'Gente feliz com lágrimas': o Zé da Ilha, o furriel Sousa, madeirense, da CCAÇ 12

(2) Pedra Filosolal, letra de António Derdeão e música de Manuelo Freire

 (3) Empresa que em finais de 1970/princípios de 1971 estava a construir a nova estrada alcatroada Bambadinca-Xime. A CCAÇ 12 faria regularmente a segurança destes trabalhos, já no final da sua comissão.

(4) 13 de janeiro de 1971

(5) Zona Leste, região de Bafatá, Bambadinca, regulado de Badora

(6 Op Abencerragem Candente, 26 de novembro de 1970

(7) Zona leste, região de Bafatá, Geba, regulado de Joladu 


_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série >~16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!

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