1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2025:Queridos amigos,
Tenho para mim que estas cartas entre pais e filhos, e as memórias que deixaram, possuem um natural encanto e abrem uma nova janela à investigação. Julguei à partida que se tratava de uma incursão original, acabo agora de saber, por email recebido do Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes que há investidas precedentes, a saber: «Nós, os filhos da Guerra» referente a memórias de Frederico Valarinho, Âncora Editora, e «Sobretudo a Agonia – Angola, Memórias de uma Guerra Íntima» da autoria de Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento. O livro Querido Pai, ainda vai dar pano para mangas, depois atiro-me a estas duas obras aqui referidas. Se porventura o leitor conhecer mais iniciativas desta índole, peço-lhe a amabilidade de me indicar o título e a editora.
Abraço do
Mário
Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 2
Mário Beja Santos
Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.
Damos seguimento às conversas já havidas com Albano Mendes de Matos e José Afonso da Silva Neto, entra agora na nossa sala de conversa Hernâni Pereira da Silva Anjos, foi oficial do Quadro Permanente, a filha mais nova, Alexandra, refere o pai como pessoa com grandes interesses culturais e intervenções literárias. Fala do casamento dos pais que se tinham conhecido na Índia, era então capitão, já tinha feito uma comissão em Macau. A filha não consegue encontrar a razão pela qual o pai ficou sete anos na Índia.
Hernâni é promovido a major e mobilizado para Angola, parte com a família em 1964. Quatro meses após o regresso a Angola é mobilizado para a quarta comissão, em Moçambique, a família já não o acompanha. Ao longo da comissão vai escrevendo à filha tratando-a sempre por “minha muito adorada filhinha”, diz coisas como estas: “Tu ainda te lembras de mim? Sabes como eu me chamo? Lembras-te das brincadeiras que eu tinha contigo? Sabes tu, minha filhinha, que eu ando com os vossos retratinhos no bolso e todos os dias os vejo várias vezes?” Hernâni adoece e é internado, o hospital militar deteta, na sequência de problemas de coração será evacuado para Lourenço Marques e depois para Lisboa. Quando chega, Alexandra é avisada na escola “Pego na pasta e já fui, de bata vestida. Cheguei e estava lá aquele homem, para mim era um estranho. É tudo relativo para uma criança, um ano é uma eternidade, quanto mais dois.”
Segundo a filha, o pai chegou a ser violento com a mulher, houve divórcio, o pai morreu depois de uma operação ao coração. Após a morte da mãe, Alexandra ficou com uma pequena caixa de madeira onde estão guardadas as cartas que os pais trocaram entre si. Alexandra não teve coragem para as ler.
Temos agora a história de Mário Umberto Faria pela narrativa de seu filho Paulo, escritor e tradutor. "Sempre Excelentes e Valorosos" são as palavras que definem a divisa do Batalhão de Caçadores 1939, constituído por 632 homens incluindo três médicos milicianos e um capelão. Um dos médicos é Mário Faria, o destino é Moçambique. Mário parte com 29 anos e deixa a família em Lisboa, três filhos pequenos e a mulher grávida.
A Companhia de Caçadores 1798, a que pertence Mário, parte para Muôco, Mário permanecerá em Moçambique 796 dias. Observa Paulo:
“O meu pai escrevia muito à minha mãe. E a minha mãe escrevia muito ao meu pai. Escreviam muito, talvez duas mil cartas e aerogramas. Pelo que a minha mãe me contou, ficou tudo guardado num saco, um saco enorme que estava na dispensa da casa onde nós morávamos. E, numa dada altura, mudámos para este prédio, onde hoje ainda moro. Nessa mudança, pelo que a minha mãe me contou, estavam a arrumar a casa e a certa altura a minha mãe apercebe-se de que o meu pai sai. Ele sai e ela tem um pressentimento e vai à dispensa ver o saco. O saco já não estava lá. O meu pai, sem dizer nada pôs o saco no lixo. O meu pai já devia ter decidido, na cabeça dele, que queria virar aquela página, não queria que ninguém visse aquilo.”
Segundo Paulo, o pai escrevia para todos sem distinção dos filhos, escrevia com muita frequência, e vai identificando sempre o lugar onde está e data a correspondência. Enumera os presentes que compra para os filhos, deles vai recendo notícias. Faz desenhos na correspondência. E o pai regressa, e Paulo rememora. Existe a história da unidade e Paulo conversou com os homens da Companhia a que o pai pertenceu.
Mário nunca falou a sós com o filho sobre a guerra. Voltando ao assunto da destruição das cartas, Paulo observa: “Ele deve ter contado coisas que o impressionaram muito, o suicídio do tal soldado, provavelmente ter-lhe-á contado a história da consulta que fez e dos seus remorsos… E, portanto, ele não queria que alguém fosse depois ler aquilo, queria contar a história à sua maneira, com distanciamento e com calma. Era uma pessoa que se controlava, um homem de ferro, só o vi comovido no funeral da mãe, foi a única altura.”
Paulo ficou com as agendas do pai, e assim pode ler que Mário vacinou centenas de nativos contra a varíola, anotava quantas unidades de vacina ele recebia na Companhia, e quando se deslocava aos aldeamentos para as administrar. Foi nessas agendas que Paulo soube do soldado que se suicidou. Mário escreveu na agenda, na circunstância: “Dia mais negro da comissão até agora. Sinto-me o mais infeliz dos homens por me ver metido nesta porcaria. Poderei vir a esquecer o dia de hoje?”. Mário nunca foi aos almoços de confraternização com os militares da sua Companhia ou do Batalhão. Paulo começou a ir após a morte do pai. Aquele médico, como muitos outros, estava numa posição sempre difícil, havia muita gente a querer que ele os livrasse de irem para o mato.
Quando a conversa termina, Paulo arruma as fotografias dispersas, reúne as agendas e os papéis que mostrara e diz às autoras: “A guerra, no fundo, foi uma maneira de chegar ao meu pai. Digamos assim, foi uma espécie de atalho. Quando o meu pai morreu, percebi que tinha de escrever sobre ele.”
Iremos seguidamente falar de Abílio Santiago Cardoso, oficial de artilharia, com três comissões e de Amável Velez Serra que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade, concluiu a escola do Exército.
Ana Vargas e Joana Pontes
A família de Albano de Matos. A neta Inês, a mulher Judite e a filha Rita, assunto que se abordou no texto anterior, fotografia do jornal Expresso, com a devida vénia(continua)
_____________
Notas do editor
Vd. post de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 3 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)



Sem comentários:
Enviar um comentário