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domingo, 5 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II

Foto nº 1


Foto nº 1A 

Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.


Foto nº 2A


Foto nº 2

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. outubro  de 1973 > Na hora da despedida... Da esquerda para a direita:

(i) cap Lema (CAOP1 ?) (o CAOP 1 foi transferido para Mansoa em 1/2/1973) (e, com ele, o nosso camarada António Graça de Abreu); 

(ii) alf mil médico Mário Bravo ), cirurgião, reformado, nosso grão-tabanqueiro (vive no Porto);

 (iii) comandante do BCAÇ 4615/73,  que rendeu o BCAÇ 3863, ten cor inf Nuno Cordeiro Simões;

 (v) ten cor inf António Joaquim Correia, comandante do BCAÇ 3863 (que terminava a sua comissão);

(vi) alf mil médico Viana Pinheiro (deve ter vindo substituir o dr. Pio de Abreu);

(vii) alf mil Francisco Gamelas (comandante do Pel Rec Daimler 3089, 1971/73);

 (viii) major inf João José Pires (2º comandante do BCAÇ 3863); 

(ix) alf mil Correia Pinto ( de que batalhão?);

 e (x) Maria de Jesus, mulher do alf mil médico Albino Silva (que não aparece nesta fotografia).



Foto nº 3

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de Teixeira Pinto (hoje, Canchungo). Em primeiro plano, as instalações militares.


Foto nº 4

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > c. 1971/73 > Vista aérea de um reordenamento, não identificado, obtida em viagem até Bissau


Foto nº 5

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  (1971/73) >  Junho de  de 1973 >  Imagens da visita do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas Portuguesas (CEMGFA) , gen Costa Gomes, a Teixeira Pinto... Em segundo plano, o cinema local, do lado direito a "avenida principal" da vila.


Foto nº 6

Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CCS/BCAÇ 3863  / 35ª CCmds / Pel Rec Daimler 3089  (1971/73) > Março de 1972 >  "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu. Eu, nas costas de uma Daimler, tendo do meu lado esquerdo o então Furriel Comando Paquete e à minha direita o então Alferes Comando Alfredo Campos, comandante do Pelotão da 35ª a que ambos pertenciam.

"O  fur mil 'cmd' Paquete, da 35ª CCCmds, infelizmente já não está entre nós. Segundo informação do Ramiro de Jesus, também ele ex-fur mil comando da 35ª CCmds, natural de Aveiro (e, portanto, meu conterrâneo), o Paquete, depois do regresso à metrópole, morreu atropelado por um comboio em Vila Franca de Xira."

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O nosso camarada Francisco Gamelas foi dos que casou e levou a esposa, a Maria Helena (ou Lena), para o "mato", neste caso Teixeira Pinto, sede de circunscrição (equivalente a concelho), onde já havia algum cheirinho de civilização: por exemplo, um cinema, uma escola, um posto médico, ruas alcatroadas, algumas casas comerciais,  electridade (de gerador)...

De seu nome completo, Francisco António da Costa Vieira Gamelas.  nasceu em Aveiro, em 1949, formou-se em engenharia eletrotécnica, em 1969, esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863, do CAOP1  e da 35ª CCmds.
 
Depois de reformado da PT (onde foi quadro superior), tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: 
  • "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); 
  • "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
  •  "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Vive em Aveiro. Entrou para a Tabanca Grande em  19/5/2016. Tem cerca de 6 dezenas de referências no blogue.

 

Capa  do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust.  O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.

O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".

Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):

 As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.

A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.

A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e  intenso.

A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício  destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais.  De qualquer modo, o  círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus  riscos, e o contacto com a população local era limitado.  A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).

Sendo comandante do Pel Rec  Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha,  a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...

Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo)  chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais  (que também viviam sob alguma tensão). 

Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens  e recém,casadas...  O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:

"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu". 

Para ele e para a Maria Helena, valeu a pena pelo amor, pela família que criaram, pela intensidade da vida que viveram. 

Mas não sabemos como foi, noutros casos...As mulheres que passaram pela Guiné não escreveram (ou pelo menos não publicaram). A única exceção, que nos vem à cabeça, é a da Maria Dulcineia (Ni) (***) que esteve em Bissorã até junho de 1974 e apanhou, pelo menos, dois ataques do PAIGC com "foguetões 122mm".

Estas históris são fragmentos de humanidade no meio  do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.

Sobre a outra senhora, Maria de Jesus, que aparece na foto no. 2, não sabemos mais nada: 
seria esposa do alf mil médico Albino Silva...  (Não haverá aqui troca de nomes ?)

E nós continuamos em próximo poste.

(Continua)  

14 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Há (ou havia) um médico, de clínica geral, em Ponte da Barca, dr. Mário Vianna Pereira... Pode não ser o mesmo, mas a sê-lo deve ter mais de 85 anos...Possivelmente veio substituir o dr. Pio de Abreu, mas ainda era do tempo do Mário Bravo.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Quem seria o outro médico, Albino Silva ?

Victor Costa disse...

João Landim Norte.
Que linda rampa para dar um mergulho! E as consequências?

Victor Costa disse...

Esta rampa nada tem a ver com a do "acidente" que fez 46 mortos no rio Corumbal. Se repararem bem, o piso da rampa não é liso, para facilitar a entrada e a saída das viaturas e a jangada era forte e segura. A fotografia mostra também uma lancha da Marinha no meio do Rio Mansoa a fazer a proteção.

Eduardo Estrela disse...

Nunca mergulhar no desconhecido!!
É mais que meio caminho andado para uma desagradável situação. E na guerra havia que ter olhos para o que se via e para o imponderável.
Abraço
Eduardo Estrela

Victor Costa disse...

Ó Eduardo!
Quem mergulhou na preia-mar foi o homem do morteiro 60, o soldado Silva côco. A consequência foi a testa ficar a sangrar e seguir para o destacamento que ficava cerca de 5 Km na direção de Bula para tratamento. Um bom rapaz, bem constituido, mas com pouca cabeça.
Boa Páscoa para todos e o Chefe que se cuide, porque tem mais em que pensar.
Um abraço V.C.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Nunca fui para esses lados, Cacheu. Mas o João Landim era passagem obrigatória. Era como a ponte do Rio Undunduma para quem desembarcava no Xime, porta de entrada no vasto Leste.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Nunca fui para esses lados, Cacheu. Mas o João Landim era passagem obrigatória. Era como a ponte do Rio Undunduma para quem desembarcava no Xime, porta de entrada no vasto Leste.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Camaradas, com filhos e netas, na Quinta de Candoz, sobra pouco tempo para o blogue... E hoje até a meia noite é só fogo de artifício por estas freguesias em redor. Uma meia dúzia. E todas têm cagança no seu fogo de Páscoa... Nunca vi gente tão doida por foguetório. São muitas dezenas de milhares de euros em fogo est noite. Boa Páscoa. Pelo quarto ano consecutivo, desde a morte da Nita, não abrimos a casa á visita do compasso pascal. É um luto patológico. A Páscoa aqui é sempre a segunda feira. Ab, Luís.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Camaradas, com filhos e netas, na Quinta de Candoz, sobra pouco tempo para o blogue... E hoje até a meia noite é só fogo de artifício por estas freguesias em redor. Uma meia dúzia. E todas têm cagança no seu fogo de Páscoa... Nunca vi gente tão doida por foguetório. São muitas dezenas de milhares de euros em fogo est noite. Boa Páscoa. Pelo quarto ano consecutivo, desde a morte da Nita, não abrimos a casa á visita do compasso pascal. É um luto patológico. A Páscoa aqui é sempre a segunda feira. Ab, Luís.

Victor Costa disse...

O Rio Mansoa em João Landim não é uma brincadeira. A amplitude de Maré em João Landim deve ser entre 5 e 6 metros e isso reflete-se num caudal muito elevado entre a 3ª e 5ª hora da maré de Lua que poderá atingir um deslocamento volumétrico de 1,5 m3/s. Nas marés de Lua a água cobria quase toda a rampa

Victor Costa disse...

Interessante a foto nº6.
Eu sempre usei botas de couro na Guiné, porque as achava mais seguras e confortáveis. Para mim eram uma luva para os pés e nunca percebi, porque a maioria usava botas de lona.

Eduardo Estrela disse...

Isso que afirmas é verdade Vítor!
As de couro eram mais seguras e confortáveis. Mas ....eu usava de lona na época das chuvas e de couro na época seca. Lona para as chuvas, onde normalmente a actividade operacional era menor e couro para defesa dos " pezes " porque actividade guerreira era maior.
Abraço
Eduardo Estrela

paulo santiago disse...

Falando de botas,de lona apenas no quartel. De couro,tipo exército,tive dois pares,mas as melhores que tive foi um par,tipo fuzileiro, que o Comandante Rita da Orion me ofereceu. Quando em Bissau,aguardava regresso,comissão terminada,uma patrulha da PM implicou.à saída do QG,por aquele calçado não estar de acordo com o atavio .