Foto nº 1
- "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009);
- "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
- "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Capa do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust. O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.
O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".
Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):
As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.
A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.
A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e intenso.
A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais. De qualquer modo, o círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus riscos, e o contacto com a população local era limitado. A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).
Sendo comandante do Pel Rec Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha, a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...
Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo) chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais (que também viviam sob alguma tensão).
Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens e recém,casadas... O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu".
Estas históris são fragmentos de humanidade no meio do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.
(*) Último poste da série > 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27887: Esposas de militares no mato (5): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte I
(**) Vd. poste de 14 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16201: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte III: Canchungo e o amor em tempo de guerra






14 comentários:
Há (ou havia) um médico, de clínica geral, em Ponte da Barca, dr. Mário Vianna Pereira... Pode não ser o mesmo, mas a sê-lo deve ter mais de 85 anos...Possivelmente veio substituir o dr. Pio de Abreu, mas ainda era do tempo do Mário Bravo.
Quem seria o outro médico, Albino Silva ?
João Landim Norte.
Que linda rampa para dar um mergulho! E as consequências?
Esta rampa nada tem a ver com a do "acidente" que fez 46 mortos no rio Corumbal. Se repararem bem, o piso da rampa não é liso, para facilitar a entrada e a saída das viaturas e a jangada era forte e segura. A fotografia mostra também uma lancha da Marinha no meio do Rio Mansoa a fazer a proteção.
Nunca mergulhar no desconhecido!!
É mais que meio caminho andado para uma desagradável situação. E na guerra havia que ter olhos para o que se via e para o imponderável.
Abraço
Eduardo Estrela
Ó Eduardo!
Quem mergulhou na preia-mar foi o homem do morteiro 60, o soldado Silva côco. A consequência foi a testa ficar a sangrar e seguir para o destacamento que ficava cerca de 5 Km na direção de Bula para tratamento. Um bom rapaz, bem constituido, mas com pouca cabeça.
Boa Páscoa para todos e o Chefe que se cuide, porque tem mais em que pensar.
Um abraço V.C.
Nunca fui para esses lados, Cacheu. Mas o João Landim era passagem obrigatória. Era como a ponte do Rio Undunduma para quem desembarcava no Xime, porta de entrada no vasto Leste.
Nunca fui para esses lados, Cacheu. Mas o João Landim era passagem obrigatória. Era como a ponte do Rio Undunduma para quem desembarcava no Xime, porta de entrada no vasto Leste.
Camaradas, com filhos e netas, na Quinta de Candoz, sobra pouco tempo para o blogue... E hoje até a meia noite é só fogo de artifício por estas freguesias em redor. Uma meia dúzia. E todas têm cagança no seu fogo de Páscoa... Nunca vi gente tão doida por foguetório. São muitas dezenas de milhares de euros em fogo est noite. Boa Páscoa. Pelo quarto ano consecutivo, desde a morte da Nita, não abrimos a casa á visita do compasso pascal. É um luto patológico. A Páscoa aqui é sempre a segunda feira. Ab, Luís.
Camaradas, com filhos e netas, na Quinta de Candoz, sobra pouco tempo para o blogue... E hoje até a meia noite é só fogo de artifício por estas freguesias em redor. Uma meia dúzia. E todas têm cagança no seu fogo de Páscoa... Nunca vi gente tão doida por foguetório. São muitas dezenas de milhares de euros em fogo est noite. Boa Páscoa. Pelo quarto ano consecutivo, desde a morte da Nita, não abrimos a casa á visita do compasso pascal. É um luto patológico. A Páscoa aqui é sempre a segunda feira. Ab, Luís.
O Rio Mansoa em João Landim não é uma brincadeira. A amplitude de Maré em João Landim deve ser entre 5 e 6 metros e isso reflete-se num caudal muito elevado entre a 3ª e 5ª hora da maré de Lua que poderá atingir um deslocamento volumétrico de 1,5 m3/s. Nas marés de Lua a água cobria quase toda a rampa
Interessante a foto nº6.
Eu sempre usei botas de couro na Guiné, porque as achava mais seguras e confortáveis. Para mim eram uma luva para os pés e nunca percebi, porque a maioria usava botas de lona.
Isso que afirmas é verdade Vítor!
As de couro eram mais seguras e confortáveis. Mas ....eu usava de lona na época das chuvas e de couro na época seca. Lona para as chuvas, onde normalmente a actividade operacional era menor e couro para defesa dos " pezes " porque actividade guerreira era maior.
Abraço
Eduardo Estrela
Falando de botas,de lona apenas no quartel. De couro,tipo exército,tive dois pares,mas as melhores que tive foi um par,tipo fuzileiro, que o Comandante Rita da Orion me ofereceu. Quando em Bissau,aguardava regresso,comissão terminada,uma patrulha da PM implicou.à saída do QG,por aquele calçado não estar de acordo com o atavio .
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