Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026) > 5 de dezembro de 2025
1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"...
Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley...
Foi lá que o nosso Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história. É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.
Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.
Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.
Era a famosa Singer Plano Inclinado!
A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:
− Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!
Rui Felício
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
2. Comentário do editor LG
Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens), deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.
Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas, é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo foi a capacidade do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial, da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.
Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!... (Noutras terra, como a minha, seria o baile dos Bombeiros.)
O texto funciona como uma espécie de "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).
Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal, demonstra uma cumplicidade geracional muito forte.
A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco
por Rui Felício (1944-2026)
Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.
Era a famosa Singer Plano Inclinado!
A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:
− Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!
Rui Felício
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
2. Comentário do editor LG
Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens), deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.
Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas, é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo foi a capacidade do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial, da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.
Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!... (Noutras terra, como a minha, seria o baile dos Bombeiros.)
É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.
O texto funciona como uma espécie de "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).
Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal, demonstra uma cumplicidade geracional muito forte.
A "Singer Plano Inclinado" é, pois, um portento de humor pícaro: é uma observação brejeira, malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.
E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista) tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou, de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)
E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista) tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou, de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:


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