1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:Queridos amigos,
Começo por dar uma explicação. Era bem possível fazer uma recensão num só texto da obra de José Alvarez. Irei fazê-lo posteriormente por outros canais. Tenho procurado no blogue incitar para a leitura das obras, seja qual for o seu nível de qualidade. Acontece que estamos perante o primeiro romance histórico de Amílcar Cabral, trata-se de um romance entremeado de muitíssimos factos já aqui versados, José Alvarez procede à ficção na construção de diálogos entre Amílcar Cabral e a sua primeira mulher e nas reuniões políticas, sobretudo ao nível do PAIGC, mas também conversas com diplomatas, jornalistas e outros. Entendi que prestaria melhor serviço aos confrades destacando aspetos relevantes da trama histórica, deixando-lhes a surpresa de lerem o enredo ficcional construído por José Alvarez. Cabral nessa fase, entre 1962 e 1964, é não só a figura preponderante e inultrapassável dentro do PAIGC, é ideólogo, estratega, diplomata, germina da sua ação ser o construtor da nação guineense, tal como aconteceu. Acho que valeu a pena dar-vos nota do que achei por bem na extensão destas recensões.
Um abraço do
Mário
O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 4
Mário Beja Santos
O romance histórico de José Alvarez remete-nos agora para a instalação de direção do PAIGC em Conacri, estamos em 1961, também Maria Helena chega à capital da Guiné-Conacri com a filha mais velha. Em casa de Hugo Azancot Meneses há uma reunião de amigos, estão presentes Viriato da Cruz e Mário Pinto Andrade, entre outros, temas como os outros partidos nacionalistas vêm à baila, Amílcar andava inquieto com as atividades do Movimento de Libertação da Guiné, maioritariamente constituído por Manjacos residentes no Senegal, tinham em julho cortado linhas telefónicas perto de S. Domingos, atacado o aquartelamento desta povoação, também Susana e Varela, procedido a vandalizações e roubos. O armamento chegava ao PAIGC a conta-gotas, Sékou Touré pouco facilitava, havia obsessão de que viessem armas para golpes de Estado internos. É nessa altura que se encontra o expediente de, a partir de Marrocos, vir armamento em caixotes com indicação de medicamentos.
Amílcar procede a um périplo internacional, primeiro Casablanca, aí vai decorrer a I Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas - CONCP, isto em abril, já em Conacri encontrara-se com um agente dos serviços secretos checos; em setembro, Amílcar volta a escrever ao Presidente da Assembleia Geral da ONU, toca sempre na tecla da liquidação pacífica do colonialismo português; Maria Helena é professora liceal em Conacri. A CONCP tem o seu secretariado em Rabat. A Conacri, chegam cada vez mais guineenses para se juntar em prol de lutar pela Independência, é criado O Lar dos Combatentes. Maria Helena vai adoecendo, Amílcar sugere que ela e a filha vão para Rabat, é uma conversa que decorre sob grande tensão.
Vamos agora conhecer a faceta do estratega militar, reunião de quadros em Conacri, repartição de responsabilidades envolvendo quem tinha frequentado a academia de Nanquim, caso de Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Chico Té, Manuel Saturnino Costa, Constantino Teixeira, Vitorino Costa, entre outros. Já estavam mais de 25 quadros em formação na Checoslováquia e 5 na URSS. Maria Helena e a filha partem para Rabat, Rafael Barbosa e outros são presos em Bissau.
Amílcar falou na Comissão da ONU sobre os territórios ocupados por Portugal, nas reuniões vem sempre a referência à falta de armamento e começam as insinuações de que os cabo-verdianos preferem Conacri para fugir à luta armada. De 1962 para 1963 acontecem modificações políticas de tomo na Argélia, chegam políticos portugueses a Rabat, como Piteira Santos e Adolfo Ayala. Nasce a segunda filha de Maria Helena e Amílcar, a filha mais velha vai estudar para Moscovo.
Em 1963, a FLING – Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné estabeleceu contacto com o Governo português, procurava-se uma solução pacífica para o futuro da Guiné. Benjamim Pinto Bull será recebido por Salazar, transmite-lhe uma proposta de autonomia gradual que culminaria com a eventual independência, de forma a permitir a formação de quadros e a crescente ocupação dos lugares-chave da administração por naturais da Guiné. É nisto que se sucede um grave incidente com o desembarque das caixas com armamento disfarçado de medicamentos, uma das caixas desfaz-se em pleno porto, Sékou Touré não está para os ajustes, manda prender a direção do PAIGC, Amílcar andava pelo estrangeiro, competir-lhe-á sanar o incidente.
Em 23 de janeiro de 1963, um grupo de guerrilheiros comandado por Arafam Mané ataca o quartel de Tite, estava dado o sinal de que o PAIGC desencadeara as hostilidades, são emitidas notícias nas emissoras de Conacri, Dakar e Brazzaville, dois meses depois, na região de Catió, combatentes do PAIGC apoderaram-se de duas barcaças a motor, Arouca e Mirandela, pertencentes à Casa Gouveia e à Sociedade Policial Ultramarina. Amílcar desloca-se a Moscovo, os soviéticos pretendem conhecer o seu programa, fazem perguntas sobre Cabo Verde, as promessas de apoio ficam por enquanto no ar. Dá-se uma reunião de quadros em Dakar, a união de Guiné a Cabo Verde é um dos principais temas de discussão, Amílcar propõe que era absolutamente necessário avançar com a insubordinação de Cabo Verde, mas é reticente quanto a um quadro de violência, sugere a infiltração, cabe a Pedro Pires o recrutamento e preparação política dos combatentes, mas curiosamente pondera-se a escolha de um local de desembarque, confia-se muito na ajuda cubana.
Salazar, afinal, não dá qualquer prova de querer dialogar com a FLING; nas reuniões de quadros, Cabral é confrontado com sérias tensões entre os quadros militares e políticos nas diferentes frentes, é nessa altura que se pondera a criação da Lei da Justiça Militar, é mais do que tempo para preparar uma reunião em território da Guiné para apreciar o relacionamento entre as chefias militares e as políticas, que virá a ocorrer em Cassacá, exatamente no tempo em que decorre na ilha do Como a Operação Tridente. Surge o hino do PAIGC, os versos são de Cabral.
E estamos chegados à reunião de Cassacá que culminará em congresso. Meio ano depois daquele ataque a Tite, a presença do PAIGC era uma realidade, particularmente no sul. O general Venâncio Deslandes tinha observado ainda em 1963 que cerca de uma quinta parte do território mantinha-se em sublevação, e as populações na sua quase totalidade deslocadas. O Governador e Comandante-chefe, Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, tinham opiniões divergentes quanto ao andamento de obstar a progressão da guerrilha, em Lisboa decidira-se reforçar os efetivos militares na Guiné de cinco para dez mil homens. Louro de Sousa delineou uma enorme operação militar, a Tridente, para recuperar a ilha do Como, operação de grande envergadura, um efetivo militar de cerca de setecentos homens, com o apoio da Força Aérea e da Marinha, operação duríssima, os guerrilheiros do PAIGC transferem-se taticamente para outro território, o comandante em terra, Fernando Cavaleiro, percorre a ilha a pé.
Em território continental, em Cassacá, começa a reunião a 13 de fevereiro. Amílcar anuncia várias medidas na mobilização e organização de forças na luta armada, são criadas as FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, bem como a formação de quadros militares especiais. Inevitavelmente, teria que ser discutida a deterioração da população devido a comportamentos prevaricadores de quadros militares, foram identificados e desarmados os prevaricadores, mais tarde julgados e alguns deles executados. Dois meses após o final da operação Tridente, ainda existe numa ponta da ilha do Como um destacamento de tropa portuguesa, em Cachil, mas o PAIGC voltou a manifestar-se, flagelando regularmente essa Unidade.
Também atendendo ao desentendimento entre o Governador e o Comandante-chefe, o Governo português toma a decisão de juntar os dois cargos de uma única pessoa, é escolhido o Brigadeiro Arnaldo Schultz, chega à Guiné em maio de 1964, e com a promessa que faz publicamente de acabar em meses com a guerrilha.
Amílcar Cabral numa das suas intervenções no Congresso de Cassacá, 13 a 17 de fevereiro de 1964
O Bureau Político do PAIGC eleito no Congresso de Cassacá. Da esquerda para a direita: Nino Vieira, Chico Té, Rui Djassi, Aristides Pereira, Chucho ou Constantino Teixeira, Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Luís Cabral e Osvaldo Vieira.(continua)
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Notas do editor:
Vd. post de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)




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