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quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27792: Historiografia da presença portuguesa em África (519): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1963, 1.º semestre (77) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Os volumes anuais do Boletim Oficial da Guiné transformaram-se em calhamaços com mais de 1000 páginas, a reformulação da legislação ultramarina prossegue em bom ritmo, ao lado da rotina das nomeações e exonerações, acórdãos e outras medidas canónicas, temos agora indícios de que algo está a mudar na Guiné, logo os reforços de verbas para os três ramos das forças armadas, não se fala dos acontecimentos de Tite, em 20 de janeiro, mas louva-se o cipaio que conteve guerrilheiros que pretendiam assaltar o posto administrativo de Sedengal, no final de janeiro. Do que vai fazer ao longo do ano o Brigadeiro Louro de Sousa, importa consultar a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África, edição do Estado Maior do Exército, 6.º volume, Tomo II, Guiné, Livro 1.º, a partir da página 75; não possuo documentação que me esclareça quanto à essência do confronto entre o Governador e o Comandante-chefe, e que levou à sua demissão em abril do ano seguinte, entrará em funções Arnaldo Schulz. Um aspeto curioso que vem aqui nesta documentação é a demissão do regedor do Xime, em abril de 1963 por fazer a vida negra aos nativos da Ponta Luís Dias, esta situada num ponto que se revelará nevrálgico já nesse ano, visto que enquanto o PAIGC começara a desarticular a região sul, com Nino Vieira à frente, outro dirigente, Domingos Ramos, atravessou o Corubal e começou a instalar posições entre o Xime e o Xitole, posições de guerrilha e de população, bolanhas férteis, foram posições quase inamovíveis de 1963 a 1974, Hélio Felgas, Comandante do Agrupamento de Bafatá, porá em execução, 1969, a Operação Lança Afiada, movimentou centenas e centenas de homens, nada feito, retiradas as tropas, os guerrilheiros e as populações voltaram.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1963, 1.º semestre (77)


Mário Beja Santos

Tenho saudades daqueles Boletins Oficiais onde os Governadores se exprimiam publicamente quando aos atos da coordenação, saudades de Pedro Inácio de Gouveia, de Velez Caroço, Carvalho Viegas, Ricardo Vaz Monteiro e Sarmento Rodrigues. A partir daí são uns discursos de água salobra, publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, frases sobre o desenvolvimento e o progresso, a multirracialidade, as melhorias na saúde e na educação. Acresce, como já se disse anteriormente, a política ultramarina definida em Lisboa toma conta em grande parte do Boletim Oficial. A grande novidade, ainda que discretamente, é começar a perceber-se que chegou a subversão e aumentam as despesas militares.

O corpo legislativo está a conhecer modificações, apareceu um novo Código do Processo Civil; o II Plano de Fomento para o ano económico de 1963 prevê uma receita extraordinária para a Guiné, 31.000.000$00 para fomento agropecuário, celeiros, transportes fluviais, aeroportos, telecomunicações, instalações escolares, conservação de estradas; como também se anuncia o reforço de verbas de tabela de despesa ordinária do orçamento geral da província e, por tabela, outros reforços verbas como no orçamento privativo das forças aéreas e navais em vigor na província da Guiné; noticia-se, e faz parte da rotina, a permissão de aquisição ao produtor de arroz de pilão em vários centros comerciais e também em Bissau, estabelece-se o preço de compra e venda ao público.

No Boletim Oficial n.º 9, de 2 de março, surge uma medida cujas consequências carecem de investigação. Alguns estudiosos, sem citar a documentação, dizem que ao longo do ano se foi agravando a relação entre o Governador Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, Comandante-chefe, tinham ideias um tanto antagónicas quanto ao modo de combater a subversão e fixar as populações. Ora o que se vem dizer é o seguinte:
“Sendo necessário habilitar os Comandantes-chefes das Forças Armadas das províncias ultramarinas com serviços de informações que o reduzido quadro de pessoal dos gabinetes militares não permite estruturar, os ministros da Defesa Nacional e do Ultramar determinam que os serviços de centralização e coordenação de informações, embora mantendo a dependência hierárquica e administrativa dos governadores das províncias, funcionam em relação aos Comandantes-chefes das Forças Armadas como serviço de informações dos Comandantes-chefes.” Terá sido a partir daqui que começaram os contenciosos entre Governador e Comandante-chefe?

Tendo começado a luta armada e havendo que responder com comissões de permanência, foram fixados os vencimentos dos militares do Exército da Armada e da Força Aérea em serviço nas Forças Armadas das províncias ultramarinas. Surgem as milícias guineenses, mediante a restauração da antiga organização das milícias dos vizinhos dos regedores. Vão passar a constituir um corpo militar de 2.ª linha e é aprovado o Regulamento das Milícias das Regedorias.

Temos agora no Boletim Oficial n.º 14, de 6 de abril, uma Portaria que louva um cipaio da Administração da Circunscrição de S. Domingos pela sua ação e comportamento meritórios, valentia, espírito patriótico evidenciado na noite de 30 para 31 de janeiro quando o assalto ao Posto Administrativo de Sedengal.

No Boletim Oficial n.º 16, de 20 de abril, noticia-se a demissão do Regedor do Xime, Demba Seidi, vinha acusado de práticas de várias irregularidades cometidas no exercício das suas funções, exercendo violências e extorsões sobre os nativos da povoação de Ponta Luís Dias.

Foi criado em Bolama um albergue de mendicidade. No Boletim Oficial n.º 19, de 11 de maio, determina-se pelo Diploma Legislativo n.º 1794 que os passageiros que atravessem a fronteira terrestre sejam obrigados a identificar-se perante a PIDE, pagando taxas. Entretanto, foi regulado o funcionamento e estrutura do gabinete militar dos Comandantes-chefes das províncias ultramarinas. Temos novamente reforço de verbas para os três ramos das Forças Armadas. E foi aprovado o Regulamento Florestal da Guiné.

Capitão-de-Fragata Vasco António Martins Rodrigues, Governador da Guiné, 1963-1964
Celeiro Mancanha para milho
Felupe com os seus instrumentos de caça
Dança de rapazes balantas
Dançarino Papel

Estas quatro imagens foram retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1963

Notícia de subversão em Sedengal, circunscrição de S. Domingos, final de janeiro 1963

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 25 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27769: Historiografia da presença portuguesa em África (518): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1962 (76) (Mário Beja Santos)

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