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Milo da Nestlé, Portugal (com a devida vénia...) (E passe a publicidade!) |
"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...)
Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.
O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas, de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália, o Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.
Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...
Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte, o pão de milho, misturado com o centeio; mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico); e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé, que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.
(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde
O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto, para todos. Era símbolo de uma certa modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta, urbana, que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.
Quando o oficial (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente, de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de "Milo", ao chegar do mato, está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil.
Para o soldado básico (geralmente de origem rural, analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e simplesmente não existia no seu limitado léxico rural ou suburbano. Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio, cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.
Estamos a imaginar a cena do pobre soldado a andar, no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho e depois pô-la "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o oficial o que queria era um copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...
(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar
Nos quartéis do mato, nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.
Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".
O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial, saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato; e (ii) o "ordenança", empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.
(iii) Mitologia & publicidade
O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca Milo ®, deriva, ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico).
A ironia histórica da origem do nome do produto contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica, dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite, ou o seu energético Milo ® pela manhã.
O "pó" tónico e vitamínico que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!
É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)
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Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)

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