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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

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