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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28340: Em bom português nos entendemos (34): Camaradas. aqui sejamos..."betacistas", troquemos os "Vês" pelos "Bês" à (b)(v)ontade...



















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Betacismo...Ouvi há dias o palavrão / palabrão da boca de um especialista da língua portuguesa, o popular Marco Neves/Nebes (por sinal meu vizinho, nasceu em Peniche, e autor e apresentador do programa da RTP1, "Esta Língua Que Nos Une"), num vídeo/bídeo sobre "Os bês e os vês do Norte", que passou na sua página do Facebook (Marco Neves, 24 de novembro de 2024).

Confesso que não conhecia o termo...É "jargão académico"... Daí ter recorrido também às meninas da IA...

O betacismo é, muito simplesmente, quando o som que normalmente associamos ao V(ê) passa a ser pronunciado como B(ê). Ou então  quando a distinção entre os dois sons se dilui ou se perde.

Por exemplo, em vez de: vaca → /vaca/, a  pessoa pode dizer algo mais próximo de: baca → /baca/.

Afinal, para quê e porquê dois sons diferentes na mesma língua ?   E por que é que isto dá tanta discussão em Portugal? E até "guerras do carago",  entre sulistas e nort...enhos ? 

Porque não é simplesmente uma questão de "falar mal". É uma característica histórica e regional de certas variedades do português (e não apenas do português, mas também de outras línguas, a começar pelas latinas).

Sem entrar em explicações professorais, muito eruditas e maçudas, o termo deriva do nome da letra beta (o "B" do alfabeto grego), indicando o processo em que diferentes sons passam a ser pronunciados com o som bilabial aproximado de beta.

O betacismo remonta ao próprio latim vulgar (, de "vulgus", povo) da época do Império Romano. No latim clássico havia a distinção, mas na fala popular o som da semivogal correspondente ao U (que soava como um W inglês) e o B intervocálico fundiram-se num som intermediário.

Com a evolução do latim para as línguas modernas (como o espanhol, o galaico-portugues), muitas regiões mantiveram essa pronúncia fundida onde não se fecham totalmente os lábios para distinguir o V do B.

Em Portugal, o fenómeno é muito característico dos dialetos do norte do país e do galego, onde os falantes continuam a preservar esta fase fonética antiga da mesma forma que ocorre noutras línguas latinas.

No português europeu, a pronúncia-padrão distingue claramente: 

  • B(ê) → uma consoante produzida fechando os lábios: bala, beber, cabo; 
  • V(ê) → uma consoante produzida com os dentes de cima contra o lábio inferior: vala, viver, cavalo, vinho.

Ou seja: bala ≠ vala |  bela ≠ vela |  basta ≠ vasta.

Mas há regiões do país e variedades do português, incluindo tradicionalmente algumas áreas do Norte,  onde essa oposição pode ser neutralizada, fazendo B e V soarem iguais ou muito semelhantes.

 Mas, atenção, não há uma fronteira do betacismo, muito menos a  fronteira "Norte/Sul".

De facto, há uma história dialetal bastante mais interessante por trás disso, como explica o prof Marco Neves, no vídeo supracitado. A realização de B/V varia regionalmente e socialmente, e os mapas linguísticos portugueses mostram que a fronteira não coincide simplesmente com uma linha com "nortenhos",  de um lado, e "sulistas" do outro".

Além disso, betacismo pode significar coisas ligeiramente diferentes conforme estamos a falar de história da língua, de fonética ou da descrição de um dialeto.

 A piada é que, para quem faz a distinção, ouvir: "Bou à bila lebar a baca ao beterinário para tomar a bacina", pode ser uma pequena agressão linguística e sobretudo levar à incomunicação, total ou parcial. 

Fiz o teste: até a IA, que é "inteligente" e poliglota, não entendeu metade da frase. Eis a tradução que ela fez a meu pedido:

(...) " Esta frase é uma forma muito popular e informal (com alguns erros propositados de pronúncia e calão) de dizer: "Vou à pressa levar a boca (provavelmente uma forma carinhosa de chamar o cão ou gato, ou referindo-se à 'boca' do animal) ao veterinário para tomar a vacina". (...).

Outra "menina", traduziu "baca" por "cadela"...

Como "veem / beem", camaradas, a IA não é menina  de se fiar inteiramente, tem que se lhe dado desconto, também delira as vezes...

2, E para quem não faz a distinção entre o Bê e o Vê, a resposta perfeitamente legítima é: "Mas qual é o problema, ó meu? Eu cá sei exatamente o que estou a dizer."

Em resumo:
  • Betacismo = B e V deixam de ser distinguidos na pronúncia (ou aproximam-se muito), de modo que palavras como "baca/vaca" podem soar iguais;
  • é um fenómeno dialetal/fonético, não simplesmente um erro de português;
  • em Portugal tem uma dimensão regional e social que ajuda a explicar por que razão o assunto desperta paixões (e discussões, às vezes acaloradas);
  • na tropa, na recruta, no sul, os instrutores (sulistas) gozavam com os recrutas (nortenhos, não se dizia, nem ainda hoje se diz, nortista, só no Brasil...) que trocavam os "vês" pelos "bês";
  • ora, ninguém gosta(va) de ser gozado por causa da língua que aprendeu com o leite materno, ou do sítio onde nasceu,  e muito menos de ser chamado por nomes ofensivos, depreciativas, gozões, seja "nortenho", "galego", "tripeiro" (referindo-se aos do Norte, incluindo o Porto), seja  "beiroco (os das Beiras), seja "mouro", "marroquino", "alfacinha",  "saloio", "marafado" (os de Lisboa, e do Sul);
  • felizmente que nesse tempo hão havia o termo "betacista" (adjetivo e nome).
Pesquisa: LG +  Facebook de Mário Neves + Wikipedia + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  26 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

5 comentários:

Anónimo disse...

Eu sou do norte carago!

Luar lindo noite bela
Desliza à vela um barquinho
enquanto à luz de uma vela
a mãe vela o seu filhinho

Artur Conceição

Eduardo Estrela disse...

E eu sou do sul porra!! O que de alguma forma me dá gozo é haver uns iluminados a defender o ridículo. A língua evolui à mercê do hábito e não é por isso que falamos algarvio, transmontano, alentejano e todas as outras regiões, mais as dos países que têm a nossa comun língua como veículo de comunicação. Os brasileiros utilizam palavras que deixámos de dizer vá lá saber-se porquê. É evidente que não é por isso que falam aquilo que uns eruditos apelidam de brasileiro. A nossa língua comum ultrapassa a idiotice de certos falantes.
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Que raio de português-padrao é esse? O que a elite do eixo Coimbra (universidade) - Lisboa (poder politico) impôs ao povo...

Anónimo disse...

Est mapa a dividir o sul e o norte, com o axim e bamos lá ber a azul, indica aproximadamente oque estamos aqui estamos a analizar.

Mas se aquele azul tivesse uns três ou quatro matizes, mais carregado no rio minho vindo a clarear até ao ao paralelo da foz do mondego, indicava-nos exactamente o grosso da diáspora e colonizações para África e Brasil,
E com uns pozinhos de Açores e Madeira e Algarve, mostrava aproximadamente como se povoou durante 500 anos do Minho a Timor.
Os portugueses mais célebres do povão brasileiro, foram seu Cabrau de Belmonte, Carmen Miranda de Marco de Canavezes e e um neto de um homem de Jovim, Gondomar), Tom Jobim, até aqui se fez questão de trocar o v pelo b.
À parte os bairrismos e regionalismos, e clubismos, por lá havia e há unanimidade no momento certo.

Antº Rosinha

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Que pena já nao se oubir agora xente na rádio e na a telebixão com xotaque galaico-portugues...