1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:
Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.
Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.
Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.
Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.
Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.
Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.
Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.
Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.
Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.
A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)







Sem comentários:
Enviar um comentário