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segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

12 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Sei que a GMC afocinhou. O coice, tremendo, foi atrás. O Marques ficou com a perna partida e logo em estado de coma. Houve vários feridos graves entre os nossos soldados guineenses.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Excesso de confiança ( ou arrogância?) do comando do BART 2917 (leia-se: maj inf Anjos de Carvalho): a malta ia todos os dias buscar o almoço a Bambadinca sem picar a estrada... Nesse dia, já um Unimog 411 tinha acionado as 11h a primeira mina com um morto ( o Soares, o condutor) e vários feridos graves.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Aliás, essa é que a vantagem da guerra de guerrilha... Deixas o "tuga" pensar que está a fazer umas "férias tropicais"... A malta baixa a guarda e, sem dar por isso, está a bater á porta do São Pedro a pedir licença eterna sem vencimento... Coitado do Soares que nem chegou a conhecer a filha...

paulo josé santiago disse...

Luís
Imagino,no meio do drama,tiveste bastante sorte.Se a mina rebentasse sob o rodado da frente,no lado direito...porque raio a cabine era fechada? O normal nas GMC,antes do Quirafo havia duas no Saltinho,era terem o teto da cabine serrado e não terem portas.
A GMC que foi "tumulo" no Quirafo,foi substituida por uma Berliet que chegou ao quartel com a cobertura,em lona,da cabine,com portas,e com os bancos com as costas para o exterior.Foi complicado convencer o Lourenço a retirar a lona,as portas,e colocar os bancos,costas com costas no centro da viatura...receava o parecer do comandante do BAT.
Falas do Soares que não chegou a conhecer a filha. O PelCaçNat 53,teve um 2º Sarg,Calado que morreu num estúpido acidente com o canhão s/r 82B10.Foi em Maio/70,eu só iria chegar em Out. Uns craques de Bissau foram de visita ao Saltinho e foram curiosos para junto do B10.Havia uma ordem a dizer para a arma ter a culatra aberta,não estava...alguém accionou o armador,alguém accionou o gatilho...o Calado que estava na rectaguarda,levou em cheio com os gases.Ainda foi para o hospital,mas nada a fazer. Tinha lhe nascido uma filha no dia anterior . Horas antes do acidente,fora a uma tabanca comprar umas galinhas para à noite comemorar o nascimento da bébé.Já estava a comandar o 53,recebi uma carta dramática da viúva que muito me chocou.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Paulo, a "minha sorte" (e o trágico azar do Marques e do resto da malta que ia atrás, no banco corrido (?), é que a GMC acionou a mina ao fazer a marcha-atrás e sair fora da estrada, à saída de Nhabijões. Os picadores não a toparam. Foi com o rodado duplo traseiro, do meu lado (direita).

Se tiversse na sido frente, eu não estaria a falar contigo aqui hoje... A GMC era de cabine fechada, um atêntico caixão de ferro... Tinha ficado a massa encefálica esborrachada contra o teto da cabine.

Mas o chassi era aberto, felizmente. Mesmo assimn houve diveros feridos graves,. o pior oo fur Marques.

Sei que mesmo assim bati violentamente com a cabeça no tejadilho. E a minha G3 ficou inoperacional.

Atrás iam duas secções mais o fur mil Marques (que ficou todo partido, mas sobreviveu, é hoje DFA). Esta foi a 2ª mina do dia. O Soares era nosso condutor (da CCAÇ 12), estava destacado no reordenamento de Nhabijões, tal como outros miligtares da CCAÇ 12. Estava a dois meses de ir conhecer a filhota...

Sim, conheci bem o srgt Calado e essa história trágica.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O Calado primeiro estreve em Bambadinca, fizemos operações com o teu Pel Caç Nat 53 antes de tu chegares, já em outubro de 70 (pelo que me dizes). Convivi com ele. Era alentejano castiço: dizia-nos que só parava em dois sítios, numa taberna para beber um copo, e numa livraria para folhear ou comprar um livro.

Eu embarquei, no T/T Uige, de regresso a casa, em 17 de março de 1971, fez agora 55 anos. Mais de meio século!

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Paulo, já que levanta a questão da sorte e do azar na guerra... Em menos de 2 meses, senti que podia ter bem lerpado naquela estúpida guerra: na Op Abencerragem Candente (emboscada a caminho da Ponta do Inglês, em 26/11/1970, em que as NT tiveram 6 mortos e 9 feridos graves), e depois na mina A/C em Nhabijões. em 13/1/1971.

O 4º Gr Com da CCAÇ 12 estava de piquete erm Bambadinca, foi a correr para Nhabijões... Depois de tudo "arrumado" (evacuados o morto, o Soares, e os vários feridos da 1º mina, incluindo dois graduados), picada toda a zona envolvente, subimos para as viaturas (1 GMC e um Unimog 404, onde ia o alferes Rodrigues, já falecido), com intenção de regressar a Bambadinca para tomar um banho e almoçar...

Pum!, outra puta de mina!...

Paulo Santiago disse...

Luís,são muitos anos,enganei-me no nome do 2º Sarg.há pouco tive um clic,era o Sarg.Parente. Havia um 2º Sarg Calado,este conheci-o,pertencia à 2701.

Paulo Santiago disse...

De repente lembrei-me de outra tragédia.Aconteceu com um condutor da CCAÇ 12, Nov ou Dez/71. Era africano,não me lembro da etnia e bebia uns copos.Conduzia um 411 e numa coluna,perto do Xitole,despistou-se tombou a viatura,agarrou na G3 e deu um tiro na cabeça.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Parente, pois, claro!...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Devo ter uma ou mais referências no blogue ao Parente e á sua morte trágica no Saltinho.

Anónimo disse...

Humberto Reis (by email)
segunda-feira, 30 de março de 2026 21:39

Paulo Santiago, o sargento não era o Parente?