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terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970





Guiné > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Saltinho > Destacamento de Contabane (reordenamento junto ao quartel do Saltinho, mais tarde, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo de Contabane > Pel Caç Nat 53 (1970/72) > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10, russo, que esteve na origem do acidente, no Saltinho, que provocaria a morte do 2.º srgt Parente (apanhado pelo "cone de fogo" do canhão s/r disparado inadvertidamente por alguém)... A tragédia deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701, que rendeu a a CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70).


Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. O 2.º srgt António Duarte Parente não pertencia a nenhuma daquelas companhias, aq CCAÇ 2406 e a CCAÇ 2701, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo alf mil António Mota que o Paulo Santiago foi substituir em outubro de 1970. 

O canhão s/r, apreendido ao PAIGC, foi mais tarde transferido do Saltinho para o reordenamento de Contabane (hoje, Sinchã Sambel).  Mas antes disso, nos primeiros dias de novembro de 1970 foi um heli ao Saltinho buscar, por ordem do Com-Chefe, o canhão s/r 82, B10, para equipar as NT no decurso da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, 22 de novembro de 1970). Voltaram a entregá-lo em dezembro. 

Gravemente ferido, em resultado desse acidente, o Parente foi evacuado para o HM 241,m Bissau, e a seguir para o Hospital Militar da Estrela. Morreu um nmês depois. Está sepultado na Covilhá,

2. Comentários:

(i) Jorge Narciso (*) (**)

(...) António: não tem este o fim de comentar o teu poste (eu até nem fui nem vim de barco, pois era da FAP), antes e verificando que terás estado no Saltinho por 69/70, procurar uma eventual ajuda tua para precisar na memória um facto lamentável, que muito me marcou e do qual não fiquei com registo preciso.

Eu fui mecânico da linha da frente dos helicópteros (exactamente entre  abril de 1969 e dezembro de 1970) e muitas vezes fui ao Saltinho (cruzámo-nos concerteza), nomeadamente na época das chuvas, para proceder a abastecimento de víveres.

Aliás, ali "festejei" os meus 20 anos, facto que, denunciado pelo piloto, "nos obrigou" a só dali sair depois dum copo (penso que de espumoso).

Com essas diversas viagens estabeleceram-se alguns laços de amizade, nomeadamente com um sargento (de quem não me recordo o nome) que é, esse sim, o motivo deste comentário.

Sei que numa determinada altura foi substituída a guarnição do Saltinho (fim de comissão ?), mas que o citado sargento, por ser de rendição individual, ali permaneceu com a nova guarnição. [ Substituição da CCAÇ 2406 pela CCAÇ 2701, em maio de 1970].

Um dia (que também não consigo precisar) parti numa evacuação para o Saltinho (que, diga-se, não era habitual) e qual não foi a minha surpresa (e choque) quando verifico que ela se destinava exactamente ao citado sargento.

Explicaram-nos, rapidamente, ter sido ele atingido pela gravilha projectada pelo escape do canhão sem recuo, montado num dos muros do aquartelamento, que tinha sido extemporaneamente disparado por terceiro, num tiro de experiência e demonstração.

Foi, talvez, a evacuação mais penosa das incontáveis que realizei na Guiné. Desde logo pelo seu gravíssimo estado físico (completamente crivado), pelo emocional, com a sua lúcida compreensão desse mesmo estado, finalmente porque era alguém com quem mantinha uma relação, diria de quase amizade, o que exponencia largamente o nossas próprias emoções.

Desembarcado, com as palavras de encorajamento possíveis, procurei num dos dias seguintes visitá-lo, tendo-me sido informado que tinha sido imediatamente evacuado para Lisboa.

Tendo mantido o interesse , soube muito mais tarde que não tinha resistido aos ferimentos, vindo a falecer.

Recordas ou de alguma forma tiveste algum contacto testemunhal com este caso ? (...)

(ii) Paulo Santiago (**)

Jorge: Vou tentar contar o episódio de que falas (*) , que aconteceu já depois da saída, do Saltinho, da CCAÇ 2406, a que pertenceu o António Dias [. O CCAÇ 2406, Os Tigres do Saltinho, 1978/70, pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca).

A tragédia, confirmei agora a data com um camarada, deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701. O 2º  srgt Parente, o militar de que falas, não pertencia a nenhuma daquelas companhias, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo Alf Mil António Mota que eu fui substituir em Outubro de 1970.

O trágico acidente resultou de um disparo ocasional do canhão S/R 82, B10, naquele dia instalado no Saltinho, mais tarde foi comigo para o Reordenamento de Contabane.

Ninguém tem uma explicação cabal para o sucedido. Havia ordens expressas para a arma estar sempre com a culatra aberta, e sem granada introduzida, parece que naquele dia havia uma granada introduzida,e a culatra estava fechada.

Como aconteceu? Junto da arma encontravam-se vários militares, cap Clemente, alf mil Julião, srgt Demba, da milícia, 2º srgt  Parente e ainda mais dois ou três militares. A arma para disparar, granada na câmara e culatra fechada, accionava-se o armador, premia-se o gatilho,acontecia o disparo. Diziam que alguém tocara com o joelho no armador e dera-se o disparo...

O 2º srgt  Parente estava logo atrás do canhão S/R, foi parar a vários metros de distância, e tu, Jorge Narciso, sabes como ele ía. Ficaram também feridos o cap Clemente, queimaduras numa mão e virilha, e o Demba, queimaduras numa perna. Foram também evacuados para o HM 241.

Como dizes,o Parente morreu passado um mês. Já como comandante do Pel Caç Nat 53,recebi uma carta da viúva, pedindo-me ajuda na resolução de um qualquer problema que agora não recordo.

Foi um dia trágico no Saltinho.Isto é, muito dramático, o Parente tinha recebido naquele dia um telegrama, via rádio, informando-o que fora pai de uma miúda...e andara na tabanca a comprar uns frangos para fazer um jantar comemorativo do nascimento...

O alf mil Fernando Mota, da CCAÇ 2701, recebeu uma carta com a notícia que o irmão fora morto com um tiro da Gurda Fiscal. O srgt  Demba da milícia foi morrer no Quirafo em 17 de abril de 1972 .. Será que o Parente ainda viu a filha antes de morrer?

Apesar de não o ter conhecido, é-me penoso falar desta tragédia. (...)
 
(iii) Paulo Santiago (***)

(...) Quanto às munições para o canhão s/r, havia uma quantidade razoável. O Julião, alf mil, CCAC 2701 (Saltinho, 1970/72), num patrulhamento,deu com um pequeno paiol com granadas para o 82B10.Na foto vêem-se algumas embalagens com granadas.


(iv) Luís Graça (***):

Recordo-me bem do Duarte Parente, do tempo de Baambadinca..  Era um dos poucos sargentos, do exército, que era operacional... na região de Bafatá. Tirando os sargentos das forças especiais (páras, fuzos, e talvez comandos), os sargentos do Exército ficavam na secretaria, ou outras funções de apoio... Não se exagera dizendo que a guerra era para os graduados milicianos e as praças do contingente geral... Os do QP, oficiais e sargentos, em geral, protegiam-se melhor...

Eu pensva que o Duarte Parente fosse alentejano, afinal era beirão. Era um gajo com piada, com quem se criava facilmente empatia. Infelizmente, deixou viúva e filha órfão, coisa que eu não sabia... Um das das "bocas" dele que ouvi no nosso bar, em Bambadinca, nunca mais a esquecerei:

- Quando eu vou na rua, só paro em dois lugares: numa taberna ou bar ou numa livraria...

Seguiu depois para o Saltinho onde conheceu o caminho do calvário que o levou à morte, um mês depois já em Lisboa, no HMP. (****)

Não temos, também, infelizmente, nenhuma foto dele. (*****)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________


Notas do editor LG:





(*****) Últrimo poste da série > 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)

2 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Paulo, em maio de 1970, ainda não estavas lá...Na Spinolândia... O que soubeste sobre o "acidente" que vitimou o 2º srgt Parente, do Pel Caç Nat 53, foi de ouvido. Contaram-te uns meses depois...Mas deve ter havido um auto de notícia...E a haver culpa ou negligência, as conclusões nunca se chegaram a saber... Mas é provável que o caso tenha chegado à secçãpo de justiça, do QG/CTIG, portanto, às mãos dos "juristas militares"(que eram alferes milicianos, com fraco poder formal)...

A justiça da tropa também era lenta...E depois não havia garantias de uma investigação isenta, independente... Para mais em contexto de guerra...Temos falado pouco ou quase nada da "justiça militar"... Temos a idade que também aqui "a culpa morria solteira"...

"Acidentes com arma de fogo" eram sempre uma chatice...Era preciso salvar as aparências, branquear ou escamotear as causas, não levantar grandes ondas, não pòr em causa o sistema, o moral da tropa, a imagem da instituição...

De qualquer modo, o Parente era um sargento do quadro... A viúva deve ter recebido uns tostões...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O que diz o livro da CECA sobre este caso: "Causa da morte: "acidente com arma de fogo" (sic). Observações: "atingido pelo sopro de canhão sem recuo"...