Foto (e legenda): © Pedro Almeida Cabral (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Gosto, de tempos a tempos, de revisitar a 'cabralolândia", o universo picaresco das estórias cabralianas, nascidas da genial veia humorística do Jorge Cabral, o mais lídimo representante da corrente literário-filosófico da guerra do absurdo (possivelmente só a par do nosso saudoso Raul Solnado)...
Infelizmente, em vida, ele só conseguiu publicar o I Volume, lançado em plena pandemia: teve de ser no Jardim Constantino, ao ar livre, e não num bar de alterne, como chegámos a sugerir-lhe, na zona ribeirinha da suja, porca, lumpen Lisboa dos anos 60/70, que já não existia mais em 2021.
Caros amigos e camaradas "spinolistas", não seentendam esta "estória" como sinal de menos respeito pelo nosso antigo Com-Chefe, nascido na Madeira em 1910, de ascendência italiana, e entretanto subido, em 1996, como marechal, ao Olimpo dos Deuses e dos Heróis...
Mas perguntam os leitores mais recentes: mas quem é esse "alfero Cabral" ?
O episódio que a seguir se descreve, passa-se em dezembro de 1970, em plena Spinolândia, uma terra que em boa verdade nunca existiu, a não ser no nosso imaginário palúdico, mas que desempenhou um papel importante na história das "alterações climáticas"...
Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.
(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).
Eis-me assim, garboso comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.
(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim, um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei,)
Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?
(Escola? Qual Escola?!... Pensa rápido, Jorge! Inventa!)
Nem respondeu este major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)
Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:
Tendo-me dirigido à arrecadação, não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o Caco caiu.
Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.
(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite!)
Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:
Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:
Deve porém ter ficado bem impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de uísque, prenda mensal do capitão João Bacar Djaló.
© Jorge Cabral (2006).
Nota do editor LG:
Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.
7 comentários:
Disciplina, temperamento e humor, era assim o nosso CABO DE GUERRA. Usaram-no para terem sucesso no golpe do 25 de Abril e depois trairam-no. cinco alunos do mesmo curso da Academia mas todos eles diferentes. Melo Antunes o teórico, Loureiro dos Santos o mestre, ALpoim Calvão e Jaime Neves os mestres da guerra e Ramalho Eanes o equilibrado. Alvaro Cunhal contou as suas forças e exitou. Se não fosse a intervenção de Ramalho Eanes e Jaime Neves, tinhamos Guerra Civil e a Guiné serviu-me para escolher o meu lado da barricada.
Passaram 50 anos e o Povo continua a não aprender com os erros do passado.
A traição não foi só ao nosso CABO de GUERRA. Almeida Bruno foi outro dos traidos pelo MFA
Luís,
Ora, aí está o Jorge mais o seu cachimbo (herdado do Sherlock Holmes), em todo o seu ESPLENDOR, em plena Praça Vermelha!!!
Abraço
Está visto, Victor, que não tens sentido de humor...(E, olha, que faz bem *a saúde...). Chegaste tarde à Guiné, já o filme estava no fim... É pena não teres conhecido o "alfero Cabral" e ele a explicar-te, em Fá (onde foi "senhorio" do João Bacar Jaló, capitão graduado 'comando', que esteve lá alojado, na fase de instrução da 1º Companhia de Comandos Africanos), que terras havia muitas, a Gronelândia, a Disneilândia, a Spinolândia... Mas a Cabralolândia só havia uma, porque "Cabral só havia um..., o alfero Cabral e mais nenhum"... A verdade é que o PAIGC tinha-lhe "muito respeitinho" e nunca atacou nem Fá nem Missirá no seu tempo de comandante do Pel Caç Nat 63... (O Spínola aparava-lhe os "golpes", porque ele também era "pilão"...).
"Pilão" é antigo aluno dos Pupilos,do Colégio Militar é "Zacatraz"...info de dr. google
Tens razão, Paulo, o Jorge foi "zacatraz"...Mas ele não gostava muito de falar desse tempo...De resto, não terá andado lá muito tempo...Quem mo disse foi um amigo comum, que também andou no Colégio Militar.
Penso que Almeida Bruno era do mesmo curso dos acima citado, daí a relação entre eles ser muito próxima. Jaime Neves Não quis fazer o curso de Oficial General e Ramalho Eanes decidiu promovê-lo a Major General. Uma decisão muito contestada pelos oficais do cravo vermelho ao peito, mas muito justa, constou também nos meios militares que Salgueiro Maia, terá exitado no 25 de Novembro, sendo determinante a posição de Jaime Neves e do Batalhão de Comandos da Amadora.
Às vezes a justiça também é feita por linhas tortas
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