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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação do Campo Militar  Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradas. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares


Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares
Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 
(Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos.

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médficos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico.Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros).

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i)a a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente. Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ?Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Mas sejamos cautelosos: esta não devia (nem podia) ser  uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada.

 Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda  também desde caso ?

 _____________
 
Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5897: Os nossos médicos (16): Um Soldado Básico licenciado em Medicina (António Tavares)

(**) Último poste da série > 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)


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