1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:Queridos amigos,
Nunca pensei que esta dimensão romanesca dos descendentes dos antigos combatentes irem visitar os locais onde os seus pais combateram tivesse tão largo lastro, existem obras comprovativas de tais viagens, como veremos mais adiante. Esta narrativa de Paulo Faria anda quase sempre no fio da lâmina, se o móbil principal da viagem de Carlos a Moçambique é a busca de uma criança nativa que o pai a mimou, acompanhado por outro, o furriel Gamito, acontecerão coisas naquele país ainda cheio de escombros, mas há um ritmo alucinante em que no presente da viagem a memória se povoa de casamentos disfuncionais, de apelos patéticos em que a mulher amada não se vai embora, enquanto se procura Artur em todos os desencontros e encontros, e na torrente dos destroços o protagonista tece uma belíssima epifania ao neto que vai nascer. Romance original, uma singularidade que emocionará quem combateu e procura o melhor destino para esta literatura de regressos, que ainda nos dá agradáveis surpresas como esta.
Um abraço do
Mário
Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 2
Mário Beja Santos
Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.
Estamos em Cuamba, Carlos Silveira é apresentado a muita gente, e subitamente vê-se envolvido como colaborador num projeto-piloto para países muito pobres e muito grandes, onde não há dinheiro para montar uma rede elétrica decente. “O projeto tinha todo o ar de coisa para inglês ver, de gota de água no deserto, os técnicos da EDP eram arraia-miúda, putos de vinte e tal ou trinta anos, mandados até este fim do mundo para se esfalfarem a trabalhar, para passarem por vendedores de ilusões e por fracassar, para apanharem uma doença com um nome impronunciável, para fazerem currículo. O Chinelinhas era meio careca, tinha uma barbicha que cofiava com ademanes de filósofo, vestia uns calções com muitos bolsos de vários tamanhos e uma t-shirt branca, calçava umas chinelinhas pretas de enfiar no dedo e pisava o chão como se o apagasse carinhosamente.” E, mais adiante: “O Caixa-de-Óculos, o outro engenheiro, era um rapaz castiço, sempre a usar onomatopeias e interjeições para dar vida às histórias que contava.” Há mais gente, como o Mário, economista, Anita, uma engenheira do ambiente, e outros mais.
Como se anotou no texto anterior, um dos aspetos mais talentosos deste romance é a forma como se embrecham memórias no tempo presente, em que está a decorrer a viagem à procura de Artur, o que obriga o leitor a ir fazendo a sinalização subliminar dos tempos e lugares, a filha mais velha, de nome Camila, o seu namorado, de nome Armando, são memória bastante viva que se insere nas peripécias do inquérito, bem tormentoso e acidentado, por sinal, estamos a ler numa linha oscilante entre o cinema São Jorge e aquele aparatoso inquérito que, tanto quanto parece, está destinado a não servir para coisa nenhuma.
A viagem de Carlos parece ganhar luminosidade com tudo o que se passa naquele inquérito, o afã de preencher questionários, as promessas de trazer eletricidade, a surpresa de encontrar numa povoação o escombro de um tanque de guerra, as conversas soltas entre os membros da equipa de projeto, os equívocos na comunicação, as confianças em grau efémero, e a memória daquele viajante que foi a um ponto de Moçambique à procura de um homem que foi a criança que o pai acarinhara, que tem momentos inesperados como este, no meio da girândola dos inquéritos e questionários frente a gente embasbacada:
“Escrevi o meu romance sobre a guerra para desapossar o meu pai do exclusivo da narrativa bélica, para o destronar, para escrever o livro que ele próprio não foi capaz de escrever. Para reescrever as histórias da guerra dele, para as extirpar da mentira posterior. Para o enobrecer. Fi-lo à custa dos outros veteranos, que viram as suas narrativas reformuladas, subordinadas à infelicidade do meu pai, por mim usurpada. Escrevi o meu romance para, com o engodo da Guerra Colonial, contar aos veteranos uma outra guerra, a minha.”
E a narrativa agora muda de registo, é a memória da mulher encalacrada com dívidas, aquela Amália a quem o narrador pede repetidamente que não se vá embora, de novo saltamos para outro lugar e outro tempo, os almoços anuais do batalhão do pai, outras conversas se intercalam, há um telefonema ao furriel Gamito, o outro militar que também desvelava pela criança Artur, para lhe comunicar que nesse almoço anual, realizado em Aveiro, ele encontrara o quarto alferes da companhia, de nome Cristóvão Rosado, novas advertências são transmitidas ao autor, são discordâncias entre o que está posto no romance e o que efetivamente se passou na guerra havida naquele ponto de Moçambique.
Entra em cena o ex-alferes Cristóvão Rosado, tem direito a farto soliloquio, acaba estafado e garantindo prova de vida: “Chegou altura de comunicar, se é que não é tarde demais, se é que ainda vou a tempo. Vou tentar escrever o meu relato. Nunca me envergonhei de ter sido combatente. Foi justa ou injusta, a guerra do Ultramar? Pouco importa. O que conta é se foi justa ou injusta a forma como a fizemos, isso é que conta.”
Caminhamos para o local onde Carlos Silveira espera encontrar aquele que foi o Artur menino, estamos em Chicôco, que é Velho ou Novo, no caso estamos em Chicôco Novo, quando Carlos sai do jipe, foi rodeado por garotos descalços, “uns vinte ou trinta, andrajosos, de olhos enormes, cheios de uma estupefação genuína, só possível nos filhos da miséria, garotos que segredavam uns aos outros frases em macua e se riam.” O guia, Pedro indica onde fora a vivenda do administrador e o respetivo posto, fala-se na palmatória para castigar as mãos do régulo, castigo até o sangue rebentar. Carlos conversa com os velhos da aldeia, reconhecem a fotografia do médico António Silveira, encaminham-se para o que fora o quartel, é nessa altura que Carlos mostra a fotografia de Artur com o furriel Gamito, há muitas evasivas, pergunta-se pela mãe, há novos fogachos da memória, consulta-se outro velho, Baltazar Mihaca, é o final da viagem, foi há muito tempo, a fotografia não fala para o presente, parece que Artur fica condenado num túnel às escuras.
Mas o final do romance é vibrante, Camila está grávida, anuncia o pai que se nascer rapaz será Artur, tudo irá culminar em epifania e hossana:
“És a grande ilusão, és o primeiro passo para me apaziguar. És tão pequeno, não tenho o direito de te sobrecarregar com esta responsabilidade, de te atirar para cima dos ombros um peso assim. És o meu neto. És meu. Respira, ocupa espaço, não deixes nenhuma pedra por virar. Trava os teus combates, os teus, não os dos outros, faz sempre diferente do que vires fazer.”
No posfácio, Djaimilia Pereira de Almeida empunha uma observação que trás luminescência a toda esta trama: “Nascemos para um mundo previamente dinamitado, contrafeito, em luto por mortes a que somos alheios, ressentido, amargurado com mentiras que não nos lembramos de ter contado a ninguém ou de nos terem sido segredadas, tal como os nossos filhos nascem para as nossas guerras e esquinas, sem nem eles nem nós nos apercebermos. Nascemos para as grandes mentiras das gerações passadas e aguentamos a maré com pequenas mentiras, o que não significa que amemos menos aqueles que vivem connosco.”
Vale a pena insistir: um belíssimo romance.
Paulo Faria
_____________Notas do editor:
Vd. post de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)
Último posta da série de 14 de agosto de 2026 >Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

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