Pesquisar neste blogue

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

9 comentários:

Alberto Branquinho disse...

CHAPEAU bas!

Antº Rosinha disse...

Luís, davas uma de revolucionário/apaixonado há 51 anos.
...E continua, parabéns.

Sobre o livro e o autor, apesar de à Guiné dizer pouquinho, não ficava mal um post com um pequeno capítulo em português dos musseques de Luanda.

Anónimo disse...

Alma de poeta, abraço de parabéns, neste caso, para os dois. Henrique Matos

Anónimo disse...


Henk Eggens (by email)
18 agosto 2026 11:20

Bonjour Louis,

Félicitations pour l’anniversaire de ta femme Alice, et pour cette romance qui dure depuis 50 ans !
Sur la photo, vous avez l’air encore jeunes et enthousiastes.

Viva, au sens propre aussi !

Um abraço,
Henk

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Rosinha, com a tu ajuda (e sobretudo do José Luandino Vieira, autror de "Luuanda") vamos falar um pouco dos musseques de Luanda...Porque não ? Não há fronteiras no blogue...embora a Guiné e Angola tenham as suas especificidades...Na Guiné não havia verdadeiramente musseques...

Bissau era uma cidadezinha colonial: teria no início dos anos 1960, cerca de 50 mil habitantes; no início dos anos 1970, aproximadamente 70 mil / 87 mil habitantes; com a independência em meados de 1974/75, terá atingido os 100 mil (considerando todo o concelho de Bissau). Não tem nada a ver com o crescimento de Luanda...

Antº Rosinha disse...

Luís, o que te sugiro é uma transcrição apenas de algum capítulo do livro mais para o efeito de um olhar "literário" aos olhos da gente aqui, nós, passados 60 anos.
Eu fui comprador desse livro em Luanda na altura da bronca.
Lembro-me que não achei muita graça ao processo de escrita usado na altura, mas a originalidade do título e o escândalo do prémio atribuído, o livro foi muito vendido em Luanda.
Luandino Vieira tentou adaptar e pôr alguma regra, na maneira de falar dos rapazes do musseque com quem foi criado em criança, no bairro de São Paulo.

Anónimo disse...

Um amor que dura meio século pode durar um século inteiro. Pois então que dure para sempre essa união tão fortemente alicerçada.

Um grande abraço para a Alice e para o Luís e que possam usufruir para sempre desse desse amor.

carvalho de Mampatá

Anónimo disse...

Parabens ao Luis e Alice pelos 50 anos de casadoiro.....
50 anos são muitos dias, e ainda os que faltam...............
Só hoje vi este poste, e o texto é fenomenal .........
Eu já vou nos 56 anos e penso que ainda faltam alguns até a derradeira viagem.....
Que Deus, Alá e os bons irãs nos protejam a todos os antigos combatentes, que a Pátria já se esqueceu deles.
Mas nós ainda não ..........
Virgilio Teixeira
Abraços a todos

Gil disse...

Um Lindo Casal!
V Briote