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terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho




Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

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