Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre
1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.
Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer), o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...
Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*).
Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de 6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:
(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.
E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)
E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)
Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':
'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)
'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)
Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).
Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural.
Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia.
O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.
O conto 'Arroz Especial' é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .
O conto 'Arroz Especial' é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .
O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".
Este conto, por ser de antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**), onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...
Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:
Arroz especial... com mafé
por Alberto Branquinho
Notas do editor LG:
(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)
(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)









6 comentários:
Nem um comentário, Alberto... Se eu tivesse aranjado outro título (por exemplo, "Hoje há jagudi com arroz no forno"), talvez a malta tivesse curiosidade em ler e comentar o teu conto...
Pois é, Luís, há que ter cuidado com a embalagem e com o aspecto do embrulho do produto (ou serviço) que se queira "vender".
Além disso, tenho um primo que me diz: - Não me mandes mais livros. Não tenho paciência para ler; demoro três dias para ler a "Bola" e... não leio tudo.
E quem pouco lê... muito menos escreve.
Título que eu colocaria: "Levantamento de rancho: furriel vaguemestre leva uma porrada e passa a operacional no MATO".
Obrigado!
Eu li o conto e se não o comentei foi porque gozei que nem um nababo com o seu conteúdo. A certa altura da leitura lembrei-me: querem ver que o sacana do do vaguemestre mandou cozinhar jagudis!?
O homem devia era ser louvado! Praticou o princípio da lei do Lavoisier. Não fossem os cozinheiros e todos ficavam satisfeitos. " O que olhos não vêem coração não sente " neste caso o estômago.
Abraço
Eduardo Estrela
Alberto, esse não é um bom título, é uma sinopse.
Não posso "abrir as cortinas", de par em par, de alto a baixo, contar o desfecho da história, etc. Tenho que saber motivar o leitor a ler... O que é difícil... Cada vez mais difícil..
Alberto, houve 92 visualizações do teu poste, até agora.
Reconheço que o título era pouco chamativo ou "vendável": "Arroz especial... com mafé" cheirava a xaropada de culinária... Isto é, prosa enfadonha e chata sobre um tema marginal, para uma grande parte dos leitores...
Muita malta não conhece o termo, "mafé" ....
"Hoje há arroz de jagudi no forno" ou "Os frangos do vagomestre" ou ainda "Levantamento de rancho", sim, faria logo soar as campainhas... Toda a gente viu jagudis em ação... á volta de um monte de tripas ou de um cadáver de animal ou de uma lixeira... Toda a gente fez ou teve vontade de fazer um "levantamento de rancho" no tempo em que esteve na Guiné...
Obrigado, Luís. É isso.
Quando, pela primeira vez, li o título que lhe deste, o meu entendimento foi: "Arroz com má-fé"...
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