domingo, 28 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16425: Manuscrito(s) (Luís Graça) (93): A vida, de fio a pavio






Lourinhã > Praia da Areia Branca > 12 de agosto de 2016 > Pôr do sol


Fotos (e texro): © Luís Graça (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



A vida, de fio a pavio


por Luís Graça


Circadiana a vida!...
Depois do solstício do inverno,
virá o solstício do verão
e aos dias suceder-se-ão
as semanas,
os meses,
os anos.

Circadiana a vida!...
Pior que o suplício do inferno
é o pavor, imagino, do eterno
retorno.
É eternidade, dizem,
que nos move 
ou demove 
ou comove,
a eternidade ou a sua cruel ilusão,
os seus sucedâneos,
efémeros,
a fama,
a glória,
a vaidade,
o ouro,
os diamantes,
o elixir da juventude,
o amor até que a morte nos separe,
o poder, orgástico,
talvez a paternidade,
e o egoísmo genético.

Circadiana a vida!...
Afinal todos os anos é Natal
e todos os anos pela tua casa passa
o compasso pascal.
Aleluia, aleluia,
Cristo ressuscitou,
a vida triunfa sobre a morte.

Circadiana a vida!...
Todos os anos, com sorte…
Exceto quando deixaste a tua terra
e foste para a guerra:
perdeste a noção do dia e da noite,
dos dias,
das semanas,
dos meses,
e das estações,
que eram duas,
a do tempo seco e a das chuvas.

Circadiana a vida!...
Disseram-te que o velho general
esteve à beira da tua cama
no hospital:
- É uma subida honra,
para qualquer mortal,
a sua visita, meu general
terás dito
mas, por favor, não ponhas isso 
no teu “curriculum vitae”.
Esquece a Guiné,
camarada,
e os pauzinhos que gravaste na parede da caserna,
na contagem descrescente 
para o fim da tua comissão.

Circadiana a vida!...
Quando eras jovem,
tinhas um calendário perpétuo,
na tua mesinha de cabeceira,
na secreta esperança
de que os dias não tivessem 24 horas,
não tivessem noite, 
não tivessem fim
Depois, deixaste de te fiar
nas leis imutáveis da natureza
e, todos as manhãs,
tomavas o lugar de Sísifo
e pegavas na tua pedra,
montanha acima,
montanha abaixo!

Circadiana a vida!...
E, se Deus quiser,
a primavera há de chegar
e com ela as andorinhas
ao teu beiral.
E trazem histórias de coragem
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África,
quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS,
nem de código postal,
nem de carimbo da alfândega.
Fogem da guerra,
sem o aval do alto comissário
para os refugiados,
ou a benção do máximo representante de Deus
na terra.

Circadiana a vida!...
E todos os anos fazes anos
e haverá sempre um bolo de aniversário
e uma vela
para soprares.
Mas o que é que sopras tu, afinal,
meu pobre feliz aniversariante ?
Sopras a vida,
sopras a vela da vida,
de fio a pavio!

Circadiana a vida!...
Até as almas têm estados,
dizem-te,
circadianos, 
estados de alma,
bipolares,
ora de euforia
ora de depressão,
colina acima, 
colina abaixo.
Afinal,  tão certo 
como dois vezes dois serem quatro,
depois da noite
segue o dia,
e não há lua sem sol,
nem maré alta
sem maré baixa!

Circadiana a vida!...
A vida é pura repetição,
é o teu coração que bate forte,
até  à exaustão,
até a gente queimar a vela,
de fio a pavio.
A vida, camarada,
ora sabe a muito,
ora sabe a pouco,
... a vida, sempre, sempre,
armadilhada,
presa por um fio.


Praia da Areia Branca, 12/8/2016,
Quinta de Candoz, 24/8/2016

______________

Nota do editor:

Último poste da série > 20 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16405: Manuscrito(s) (Luís Graça) (92): Praia do Caniçal: memórias

4 comentários:

Hélder Valério disse...

Caro Luís

Nem sei que te diga!
Temos fotos com um pôr-do-sol espectacular, temos a natureza através da imensidão do mar, calmo, sereno, convidativo, temos pessoas que interagem....
E temos o teu poema, que pode ter uma leitura ora pessimista, ora optimista, indo buscar referências ao passado, projectando o futuro sem grandes ilusões, mas também referindo a sobrevivência...

Ainda não me decidi!

Abraço e boas férias.
Hélder Sousa

Albertina disse...

Meu Caro Luís Graça;

Tenho uma pequena biblioteca, sendo certo que de finanças não percebo nada e muito menos de poesia.

Deste teu trabalho, sinceramente, gosto. O tema é intenso e o pensamento flui escorreito. Parabéns.

Contrariamente a outros com que nos tens brindado que são, sinceramente, uma autêntica xaropada.

Grande abraço
Joaquim Sabido
Évora

Tabanca Grande disse...

Obrigado, amigos e camaradas, nada como a crítica, frontal, espontânea, sincera, primária, dos que nos conhecem e gostam de nós e não fazem fretes quando nos ouvem ou leem.

A poesia não é propriamente um "género popular", mas num país de poetas (e de grandes poetas!) é uma afronta escrever-se "xaropadas". As vossas críticas são um estímulo para afinar a mira... Aprecio tanto as críticas positivas como as negativas.

Um abraço, aqui do norte, onde nasceu Portugal e que é também terra de grandes trovadores...e de grandes prosadores (Camilo e Eça, por exempplo, são "meus vizinhos" de Candoz...).

Anónimo disse...

Oh Meu Caro Luís Graça;

Certamente que reparaste que iniciei o meu comentário aludindo (de alguma forma e na medida das minhas possibilidades) ao final do poema Liberdade do Grande PESSOA, o Fernando - não o nosso querido Miguel - que conclui dizendo desta forma:

O mais do que isto
é Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

Tirando este Pessoa e o o outro, o Luís Vaz, da lírica e da epopeia, que poetas maiores temos ou tivemos? com relevância internacional, que sejam e continuem a ser objecto de estudo e até de culto, como acontece com o Pessoa ? Tal como referes Camilo e Eça são grandes escritores Portugueses, mas quem os conhece e quem se dedica ao estudo das suas obras fora de Portugal ou dos ditos Palop's ?

Portanto, se reparares, no meu comentário, ao aludir a Pessoa, aludo ao carácter esotérico que me parece (tal como acontece com o Hélder) sentir-se neste teu poema. Ou seja, vejo aqui filosofia própria e bastante interessante. Sempre na minha modesta opinião.

E regressando à terra, de facto, em qualquer dicionário de português se pode verificar que xaropada é, precisamente, a medida de xarope que se pode ou deve tomar. Pois os xaropes quando tomados em doses mais elevadas podem ser letais.

E, permite-me, um bom poema não tem necessariamente que ter metros de palavras, nem ser repetitivo. Então aí, por vezes, seria ou será preferível a narrativa através da prosa.
Digo eu.

É Pá, isto é apenas um pouco da irreverência de um periquito.

Um grande abraço.
Joaquim Sabido
Évora