Gen Spínola, governador e comandante-chefe no CTIG (1968/73), s/d. Foto editada e reproduzida com a devida vénia do livro de Luís Nuno Rodrigues, "Spínola: Biografia" (Lisboa, A Esfera dos Livras, 2010, 748 pp.). Pertence ao Arquivo António Spínola, desconhece-se o autor. Poderá ter sido o fotógrafo oficial do general, no TO da Guiné, Álvaro de Barros Geraldo ?
I. Há 2 meses atrás (em 12 de março) pedi a uma ferramento de IA que me selecionasse "algumas das melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia (1968/73, quando foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau)"...
Listou-me dez... Bom, pareceu-me logo que a maioria das "10 melhores anedotas" listadas estavam longe de ser as "melhores". E, pior ainda, vi logo que eram, pura e simplesmente, "alucinações" da IA:
- de facto, não há fotos do Spínola a fumar (e ele, aos 60, parecia ainda ter uma saúde de ferro):
- não há testemunhos do "Caco Baldé" a caçar, e muito menos hipopótamos (animais furtivos, que só saem de água para pastar, à noite; para mais, não faziam parte da dieta dos "tugas");
- também não constava que o nosso general andasse a cavalo, para mais branco, em Bissau, etc.. (é outra "anedota hilariante", produto de uma outra ferramenta de IA, que está em concorrência com esta a que me refiro acima);
- por outro lado, sexa, o governador, devia saber dizer meia dúzia de palavras de crioulo tal como eu ou qualquer outro militar que convivesse com a população local, mas daí a dizer-se que "falava fluentemente o crioulo" vai uma distância;
- não se usava no nosso tempo a expressão "chefes tribais" (mas sim 'régulos" e "dignitários religiosos");
- sim, como aluno do Colégio Militar e depois oficial de cavalaria, produto da "Escola de Guerra", ele deveria saber dançar, como qualquer "oficial e cavalheiro" dos anos 30, mas não dançaria em Bissau, já com os seus 60 anos, e muito menos com as bajudas; não a estou a vê -lo a dançar a coladera cabo-verdiana, ou a participar num batuque fula;
- os jovens oficiais do QP que chegavam à Guiné, não vinham da "Escola de Guerra", mas sim da "Academia Militar" (designação em vigor desde 1959);
- também não vejo o governador a "brincar" com a bandeira da República Portuguesa, (ele não brincava com os símbolos nacionais);
- nem estou a vê -lo a usar, propriamente, o "humor negro": era capaz de perder as estribeiras, isso sim e arrancar os galões a um oficial ou dar um par de bofetadas a um soldado;
- enfim, na Guiné, nunca houve um 'rei", quando muito no passado o imperador do Mali, e depois o rei ( ou "mansa") do Gabu; havia reizinhos, régulos...
Ontem confrontei esta ferramenta de IA (que não vou citar...) com estas "incongruências" e "alucinações", e obriguei-a a citar as fontes... O resultado sairá em próximo poste...
Só as anedota no. 8 e no. 10 me parecem "verosímeis" ou próximas do "espírito" do "anedotário da Spinolândia" (*). Se não se baseiam em factos reais ( o que é hoje impossível de comprovar), podiam ter acontecido e sido presenciadas por alguém.
Em boa verdade, esta listagem “cheira” a geração automática de IA, denunciada por frases demasiado redondas, diálogos demasiado certinhos, com lições de moral implícita à laia de conclusão, ausência de contexto documental e, por fim, estilo que remete para o guião cinematográfico.
Enfim, parece-me um produto típico da IA, que usa modelos de linguagem que “preenchem lacunas" de informação e conhecimento com recurso á chamada plausibilidade narrativa.
De qualquer modo, verosímeis ou não, merecem figurar nesta série "Humor de Caserna", sobretudo como ilustração das "calinadas" ( para não usar outro termo mais feio) da IA e da necessidade de a utilizarmos com moderação, com humor e com espírito crítico, cruzando inclusive as respostas de outras ferramentas de IA (e outras fontes digitais ou não). Em suma, fazer aquilo que qualquer investigador ( seja jornalista, polícia, estudante ou cientista) faz ou deve fazer: a chamada "triangulação" de fontes e "saturação" na pesquisa de dados e informação para produzir conhecimento.
De qualquer modo, há sempre aqui um "handicap": nenhum de nós (tirando algum oficial superior do QG, como o hoje, e felizmente ainda vivo, cor inf Mário Arada Pinheiro) conheceu Spínola na "proximidade" ( já não digo "intimidade") do dia-a-dia.

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