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domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

 


Gen Spínola, governador e comandante-chefe no CTIG (1968/73), s/d. Foto editada e reproduzida com a devida vénia do livro de Luís Nuno Rodrigues, "Spínola: Biografia" (Lisboa, A Esfera dos Livras, 2010, 748 pp.). Pertence ao Arquivo António Spínola, desconhece-se o autor. Poderá ter sido o fotógrafo oficial do general, no TO da Guiné,  Álvaro de Barros Geraldo ?


I. Há 2 meses atrás (em 12 de março) pedi a uma ferramento de IA que me selecionasse "algumas das melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia (1968/73, quando foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau)"... 

Listou-me dez... Bom,  pareceu-me logo que a maioria das "10 melhores anedotas"  listadas estavam longe de ser as "melhores". E, pior ainda,  vi logo que eram, pura e simplesmente,  "alucinações" da IA:

  • de facto, não há fotos do Spínola a fumar (e ele, aos 60, parecia ainda ter uma saúde de ferro):
  • não há testemunhos do "Caco Baldé" a caçar, e muito menos  hipopótamos (animais furtivos, que só saem de água para pastar, à noite; para mais, não faziam parte da dieta dos "tugas");
  • também não constava que o nosso general andasse a cavalo, para mais  branco, em Bissau, etc.. (é outra "anedota hilariante",  produto de uma outra ferramenta de IA, que está em concorrência com esta a que me refiro acima);
  • por outro lado, sexa,  o governador, devia saber dizer meia dúzia de palavras de crioulo tal como eu ou qualquer outro militar que convivesse com a população local, mas daí a dizer-se que "falava fluentemente o crioulo" vai uma distância;
  • não se usava no nosso tempo a expressão "chefes tribais" (mas sim 'régulos" e "dignitários religiosos");
  • sim, como aluno do Colégio Militar e depois oficial de cavalaria, produto da "Escola de Guerra", ele deveria saber dançar, como qualquer "oficial e cavalheiro" dos anos 30,  mas não dançaria em Bissau, já com os seus 60 anos, e muito menos com as bajudas; não a estou a vê -lo a dançar a coladera cabo-verdiana, ou a participar num batuque fula;
  • os jovens oficiais do QP que chegavam à Guiné, não vinham da "Escola de Guerra", mas sim da "Academia Militar" (designação em vigor desde 1959);
  • também não vejo o governador a "brincar" com a bandeira da República Portuguesa,  (ele não brincava com os símbolos nacionais);
  • nem estou a vê -lo  a usar, propriamente,   o "humor negro": era capaz de perder as estribeiras, isso sim e arrancar os galões a um oficial ou dar um par de bofetadas a um soldado;
  • enfim, na Guiné, nunca houve um 'rei", quando muito no passado o imperador do Mali, e depois o rei ( ou "mansa") do Gabu; havia reizinhos, régulos...

Ontem confrontei esta ferramenta de IA (que não vou citar...) com estas "incongruências"  e "alucinações", e obriguei-a a citar as fontes... O resultado sairá em próximo poste...  

Só  as anedotas nº 8 e  nº 0 me parecem "verosímeis" ou próximas do "espírito" do "anedotário da Spinolândia" (*). Se não se baseiam em factos reais ( o que é hoje impossível de comprovar), podiam pelo menos  ter acontecido e sido presenciadas por alguém.

 Em boa verdade, esta listagem “cheira” a geração automática de IA, denunciada por frases demasiado redondas, diálogos certinhos se mais,  com lições de moral implícita à laia de conclusão, ausência de contexto documental e, por fim,  estilo que remete para o guião cinematográfico. 

Enfim, parece-me um produto típico da IA, que usa  modelos de linguagem que “preenchem lacunas" de informação e conhecimento com recurso á chamada plausibilidade narrativa.

De qualquer modo, verosímeis ou não,  merecem figurar nesta série "Humor de Caserna", sobretudo como ilustração  das "calinadas"  ( para não usar outro termo mais feio) da IA e da necessidade de a utilizarmos com moderação, com humor e  com espírito crítico, cruzando inclusive as respostas de outras  ferramentas de IA (e outras fontes digitais  ou não).  Em suma, fazer aquilo que qualquer investigador  (seja jornalista, polícia, estudante ou cientista) faz ou deve fazer: a chamada "triangulação" de fontes  e "saturação" na pesquisa de dados e  informação para produzir conhecimento.

Em todo o caso,  há sempre aqui um "handicap": nenhum de nós (tirando algum oficial superior do QG, como o hoje, e felizmente ainda vivo,  cor inf Mário Arada Pinheiro) conheceu Spínola na "proximidade" ( já não digo "intimidade") do dia-a-dia.

II.  Resposta da IA, com data de 12/3/2026: 

Luís, aqui ficam algumas anedotas e episódios marcantes associados a Spínola e à Spinolândia do teu tempo:

1. "O Governador que falava crioulo"

Spínola era um dos poucos oficiais portugueses que falava fluentemente o crioulo guineense, o que lhe granjeou enorme respeito e proximidade com as populações locais. 

Diz-se que, em reuniões com chefes tribais, usava expressões e provérbios em crioulo para desarmar tensões e criar cumplicidade. 

Uma das suas frases famosas, em tom de brincadeira, era:

"Nka boka di brancu, boka di pretu!"

(Tradução livre: "Não é conversa de branco, é conversa de preto!"), usando a expressão para mostrar que estava do lado das populações e não apenas da hierarquia militar portuguesa.

2. "O leão e o hipopótamo"

Spínola era conhecido por caçar hipopótamos, uma atividade que, além de ser um desporto, servia para alimentar as tropas e as populações locais. Conta-se que, numa ocasião, depois de abater um hipopótamo, terá dito aos soldados:

"Isto não é caça, é serviço público!"

A anedota espalhou-se como exemplo do seu pragmatismo e da sua capacidade de transformar necessidades (como a falta de proteína) em oportunidades de aproximação às comunidades.

3. "A bandeira da Spinolândia"

Spínola tinha um sentido de humor irreverente e, por vezes, usava-o para criticar a burocracia de Lisboa. 

Diz-se que, em tom de brincadeira, chegou a sugerir que a Guiné deveria ter a sua própria bandeira — uma bandeira branca com um hipopótamo negro — para simbolizar a autonomia e a identidade local. 

A ideia, claro, nunca foi levada a sério, mas refletia o seu desejo de uma abordagem mais adaptada à realidade guineense, longe das ordens rígidas de Lisboa.

4. "O general que dançava"

Spínola era conhecido por participar em festas e cerimónias locais, onde dançava ao som dos ritmos africanos. Em certa altura, terá dito a um oficial que o criticava por "perder a dignidade":

"Se não dançar com eles, como quer que eles dancem connosco?"

Esta atitude contrastava com a postura rígida e distante de muitos outros oficiais, e ajudou a criar laços de confiança com as populações.

5. "O conselho aos jovens oficiais"

Spínola tinha um estilo direto e por vezes provocador. Conta-se que, numa reunião com jovens oficiais recém-chegados à Guiné, lhes terá dito:

"Esqueçam o que aprenderam na escola de guerra. Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca."

Esta frase refletia a sua crença de que a vitória na Guiné não passava apenas pela força militar, mas pela compreensão da cultura e das dinâmicas locais.

6. "O general e o tabaco"

Spínola era um fumador inveterado e, em reuniões longas, costumava oferecer tabaco aos chefes locais. Diz-se que, numa ocasião, um chefe tribal lhe ofereceu um charuto artesanal, ao que Spínola respondeu:

"Isto é que é tabaco de homem, não aquelas palhinhas de Lisboa!"

O episódio tornou-se simbólico da sua capacidade de se integrar e valorizar os costumes locais.

7. "A resposta a Lisboa"

Spínola era conhecido por desafiar as ordens de Lisboa quando considerava que não faziam sentido no terreno. Em certa altura, terá recebido um telegrama do governo a criticar a sua gestão. A sua resposta foi lacónica:

"Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso."

Esta frase resume bem a sua postura: pragmática, adaptativa e, por vezes, rebelde face à hierarquia.

8. "O general e as crianças"

Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses. Conta-se que, em visitas a tabancas, levava sempre rebuçados e brinquedos, e que, numa ocasião, uma criança lhe perguntou:

"Ó branco, tu és o rei da Guiné?"

Ao que Spínola respondeu, sorrindo:

"Não, sou só um soldado que gosta de vocês."

9. "O humor de caserna"

Entre os militares, Spínola era conhecido por frases de humor negro, típicas do ambiente de guerra. Diz-se que, numa altura em que as tropas estavam desmoralizadas, terá dito:

"Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil. E eu não gosto de ser alvo fácil!"

O tom era de desafio, mas também de camaradagem, e ajudava a manter o moral das tropas.

10. "A despedida"

Quando Spínola deixou a Guiné, em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele. Diz-se que, ao embarcar no avião, terá dito a um oficial:

"Deixo aqui o meu coração. O resto é política."

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série >  12 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)

6 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O biógrafo de Spínola, um historiador académico, não deu, infelizmente, nenhuma importância ao anedotário da Spinolândia, tirando um apontamento ou outro sobre as "manias" e os "tiques" do homem e do militar (por exemplo, detestava o ar condicionado pelo que os "briefings" diários eram uma sessão de sauna para o seu estado maior...).

Aliás, o biógrafo terá privilegiado mais o papel de Spínola como politico do que como militar. Eu gostaria que ele tivesse falado mais do tempo da Guiné (1968/73). O livro parece-me, nesse aspecto um pouco desequilibrado. Embora, no seu conjunto, seja uma obra de grande valor e rigor.

As biografias literárias estão hoje mais na moda, viradas para o grande público. As biografias feitas por académicos são mais "chatas" mas mais "rigorosas" e "interpretativas".

É um género difícil, consumidor de muito tempo, e editorialmente menos valorizado. Logo mal pago.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O biógrafo de Spínola, um historiador académico, não deu, infelizmente, nenhuma importância ao anedotário da Spinolândia, tirando um apontamento ou outro sobre as "manias" e os "tiques" do homem e do militar (por exemplo, detestava o ar condicionado pelo que os "briefings" diários eram uma sessão de sauna para o seu estado maior...).

Aliás, o biógrafo terá privilegiado mais o papel de Spínola como politico do que como militar. Eu gostaria que ele tivesse falado mais do tempo da Guiné (1968/73). O livro parece-me, nesse aspecto um pouco desequilibrado. Embora, no seu conjunto, seja uma obra de grande valor e rigor.

As biografias literárias estão hoje mais na moda, viradas para o grande público. As biografias feitas por académicos são mais "chatas" mas mais "rigorosas" e "interpretativas".

É um género difícil, consumidor de muito tempo, e editorialmente menos valorizado. Logo mal pago.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Mas tiro o quico ao autor! Afinal, a vida é curta para se escrever sobre os outros... Uma boa biografia como está leva dois ou três anos a fazer ( com as fontes muito dispersas: arquivos pessoais e institucionais, nacionais e estrangeiros, imprensa, literatura cinzenta, bibliografia, entrevistas a testemunhas ainda vivas, etc.).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Contrariamente a Spínola, o marechal Costa Gomes (que teve igual papel na história da guerra colonial e do 25 de Abril de 1974) não tem "anedotas" na Net...

Eram personalidades públicas muito diferentes, para não dizer opostas. E as anedotas políticas, militares ou populares, e em especial o "humor de caserna", nascem no caldeirão da teatralidade, da excentricidade, do autoritarismo carismático, do populismo, da capacidade de produzir situações e frases que ficam na "memória do povo" e, claro, também da brejeirice, etc.

O Costa Gomes estava no polo oposto do Spínoal e da Spinolândia: discreto, cerebral, contido, quase esfíngico, chamavam-lhe "O Rolha" (ou "O Xico Cortiça") devido à sua notável capacidade de se manter incólume, flutuando e equilibrando-se sempre à tona durante o conturbado período do PREC.

Pode-se dizer que foi um grande gestor de conflitos, com um papel notável no 25 de Abril e no 25 de Novembro. A História realça a sua "postura conciliadora e pragmática".
Contrariamente a Spínola, não tinha uma "entourage" a fazer o culto da personalidade e adulá-lo. Ele não quis ser "personagem", mas foi um grande ator no palco da nossa história do séc. XX.

JOSÉ CARVALHO disse...

No próximo "POST"

Tabanca Grande Luís Graça disse...

José Carvalho, vejo que tens "memórias" a partilhar... Deves ter estadso com o nosso general, em Bissau, no K3...É importante que partilhes essa tua experiência.

Até agora os antigos combatentes lutavam contra uma série de "pesadelos", a começar pela "desmememória", o "Allzheimer da História", o "politicamente correto", o (des)alinhamento ideológico, a vergonha, a culpa, etc....

Os "heróis" foram os refratários e os desertores, blá-blá-blá... E, claro, os "cabra-machos" do Amílcar Cabral e os seus "muchachos"...Agora tens outro "pesadelo", ao dobrarem os sinos pela nossa geração que fez a paz e a guerra, e que está com os pés para a cova: são as "alucinações" da IA!... A IA vai "reescrever" a História ?!... Não, com a nossa cumplicidade, razão por que o nosso blogue tem que ter mais gente a partilhar as suas memórias (e emoções). Precisamos de um "suplemento de alma" e mais uns tempinhos de vida, camaradas e amigos da Guiné!...