Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição (e legendagem) orientada pelo editor LG, sob história contada pelo FJA/JAPC .11 de maio de 2026
1. Quem é que não se lembras destas expressões da gíria ou calão de caserna que usávamos para designar "dormir" ?!... Quem é que, nas longas noites quentes e húmidas da Guiné, naquelas horas mortais da madrugada, no aquartelamento ou destacamento no mato, no seu posto de sentinela, não foi apanhado pela ronda a "chonar", a "ferrar o galho", a "passar pelas brasas", a "bater a sua sorna", com a sua "namorada" (a G3), pousada no peito...?
A gíria ou calão de caserna é um universo à parte, cheio de criatividade e ironia, especialmente para escapar à monotonia e ao cansaço das noites intermináveis na Guiné: onde havia de tudo, mosquitos, e miríades de outros insetos, calor, humidade, chuva, trovoada (conforme a estação), uivos das hienas, silvos de granadas, very ligths, balas tracejantes... Mas também tédio, cansado, medo, lassidão, angústia, sono, sobretudo muito sono...
Eis algumas expressões para "dormir" (ou tentá-lo) no posto de sentinela, em emboscada, no mato, ou na caserna, em véspera de uma "saída":
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- "Chonar" ( ou "xonar") – Clássico, vindo do calão lisboeta, mas adoptado em todo o lado; era o verbo por excelência para "dormir" (ou "tirar uma sesta", mesmo que fosse só uns minutos entre turnos);
- "Ferrar o galho" – Esta era mais usada para "dormir profundamente", muitas vezes em situações menos formais ou quando se aproveitava um momento de folga;
- "Passar pelas brasas" – Esta tinha um tom mais irónico, como se fosse um ritual de resistência: aguentar o sono a todo o custo, mas acabava por ser o mesmo que "adormecer"; sinónimo: passar pelo sono;
- "Bater a sorna" – Outra pérola! Sorna era o sono, e bater era tirá-lo, mesmo que fosse à pressa: às vezes ouvia-se também "bater uma soneca";
- "Pegar no sono" – Mais literal, mas também muito usada.
- "Dormir a sono solto" – Quando o cansaço era tanto que nem a ronda ou os mosquitos ou os "turras" conseguiam acordar.
- "Ninar" – Usada mais em tom de brincadeira, como se alguém estivesse a embalar-se e a dormecer (ao som de uma cantiga);
- "Dormir como um prego" – Esta era mais específica: dormir em pé, encostado a uma parede ou a um poste, como os soldados faziam nos postos de sentinela (com a G3 ao peito); ter um sonmo profundo; sinónimo: dormir como um anjo;
- "Fazer a sesta do leão" – Para quem conseguia dormir em qualquer lado, como os animais do mato;
- "Estar a sonhar com a terra" – Quando o sono era tão profundo que se sonhava com Portugal, com a família, ou com a comidinha da mamã.
Outras expressões relacionadas com o sono (ou a falta dele):
- "Ficar a olhar para o teto" – Quando não se conseguia dormir, mas se fingia que sim (neste caso, olhar para o céu estrelado, ou para o negrume da floresta à volta);
- "Ficar a contar carneiros" – Quando não se tem sono, ou quando se tem insónias;
- "O sono é o melhor soldado" – Um ditado que se ouvia muito, especialmente nas noites antes de uma operação; sinónimo: passar a noite em branco;
- "A ronda não perdoa" – Para quem era apanhado a "chonar" em serviço.
- "Dormir de olho aberto" – Literalmente, tentava-se, mas não era fácil com o calor, a humidade, os mosquitos, os ruídos da mata;
- "O sono é o único luxo que não se paga" – Uma forma de justificar uns minutos de descanso roubados;
- "O sono é o melhor médico" – Provérbio judaico;
- "O teu mal é sono" – Quando uum gajo andava a bater com a cabeça pelas paredes (ou nas árvores e arbustos, em operações, ou no gajo da frente); sinónimo: bêbedo de sono.
Pinto Carvalho. Foto LG (2010) |
2. E a propósito do sono ( em tempo de guerra), temos hoje mais um contributo do nosso colaborador permanente
Joaquim António Pinto Carvalho (JAPC) que, como já o dissemos, é reconhecidamente, um homem dotado de apurado sentido de humor.
Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73). É hoje advogado, ainda no ativo.
Da brochura, de que é autor, com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021, vamos "sacar" mais uma historieta engraçada, que o JAPC recolheu junto do seu camarada, também ele alf mil at inf, Fernando de Jesus Anciães (FJA).
Fonte: "A 'chama' que nos chamou: um contributo para a história da CCAÇ 3398, "Os Incendiários", Buba, Guiné, 1971-1973, na comemoração do seu cinquentenário. Edição de autor, s/l, 2021, pp. 55/56. (Com devida vénia...)
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Nota do editor LG:
(*) Último poste da série : 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)
Nota do editor LG:
(*) Último poste da série : 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27996: Humor de caserna (264): o 1º cabo corneteiro António Torres (1949-2023), CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 (Buba, 1971/73), no HM 241, sujeito a uma delicada e embaraçosa operação cirúrgica a um varicocelo (Joaquim Pinto de Carvalho)









8 comentários:
Caro Pinto Carvalho,
Estes "postes" fazem-nos relembrar coisas já quase esquecidas...
Tive um caso parecido num dos destacamentos onde estive, não me recordo se foi em Missirá ou Porto Gole, mas creio ter sido neste último onde haviam postos de vigia numa espécie de torre, par onde se subia por uma escada feita de troços de cibes.
Uma noite decidi ir eu mesmo fazer uma ronda pelos postos e estranhei que num deles o sentinela não desse pela minha aproximação. Subi a escada de cibes e fui encontrar o sentinela não só a dormir, mas a dormir enrolado num cobertor… acordou quando lhe tentei tirar a sua G3. Eu nem sabia o que dizer mas recordo-me ter berrado : "Seu cabXXo! amanhã falamos”. E fiquei-me assim mesmo, que eu não sabia o que dizer nem fazer e desci as escadas . Nos outros postos de vigia estava tudo certo.
No dia seguinte mandei fazer a formatura de todo o pessoal do destacamento ( em ambos os casos consistia do meu pelotão de madeirenses e cerca de 30 a 40 soldados nativos) e relatei o que tinha acontecido. Disse que estava furioso e surpreendido pelo que era quase uma traição para todos e cada um de nós , tanto mais que ambos os destacamentos não estavam longe de zonas onde o IN "estava à vontade" e em qualquer altura podiamos ser atacados, como veio a suceder várias vezes depois. Que apesar da gravidade do caso, não queria estragar a vida a ninguém e não ia "participar" o ocorrido, como podia fazer ; mas que esperava que como camaradas/ e família que éramos, confiando e dependendo as nossas vidas uns dos outros … que "pensassem bem" no que tinha acontecido. E mandei "destroçar", sem dizer nem fazer nada mais.
No dia seguinte vi que esse soldado andava com dificuldade, coxo, e com sinais nos olhos e cara de quem tinha sofrido um “acidente”.
Não me incomodei de perguntar a ninguém o que tinha acontecido. Ainda hoje não sei.
João Crisóstomo, Nova Iorque
Também um dia ao fazer a ronda noturna no BENG 447, ao chegar perto a uma das torres, não vi ninguém lá em cima nem na minha aproximação disseram a senha para eu dizer a contrasenha. Até que ao aproximar-me mais, de repente surgiu lá de cima um vulto com a arma apontada para mim (julgo que teria acordado no momento, suponho...) Lá dei um grande berro dizendo quem era e que estava a fazer a ronda, ( qual senha e contrasenha...) . Ia sendo apanhado por fogo amigo. A partir daí tive sempre o cuidado de ao aproximar-me das torres fazer algum barulho que alertasse quem lá estava...(para estar alerta quando eu chegasse mais perto).
E gajos a dormir em pé, na bicha de pirilau, quando saíamos para o mato às 3 da manhã ?!...
A IA - Inteligência Artificial ainda não chega aos calcanhares dos artistos gráficos humanos... Falta-lhe a "centelha" do génio, a "alma" do artista, etc. Mas é uma ferramenta valiosa, como se pode avaliar por alguns "bonecos" que aqui temos publicado... gerados a partir de "prompts" da autoria do editor...
Há questões éticas,estéticas, técnicas, etc., que não podemos ignorar num blogue responsável como o nosso...E que não vamos desenvolver aqui hoje: por exemplo, "Desvalorização do trabalho humano: muitos artistas consideram que as imagens geradas pela IA são apenas cópias mecânicas que desvalorizam o trabalho manual e o talento humano; o uso da ferramenta para criar imagens imitando estilos famosos foi descrito por alguns como um 'insulto à própria vida' " (...).
Uso o ChatGPT e o Gemini / Google para "ilustrações" (A IA europeia, Le Chat Mistral, cuja utilização pelos europeus defendo cada vez mais, não me faz "bonecos" à borla.)
Infelizmente, a Tabanca Grande não dinheiro para pagar a um ilustrador, embora haja camaradas com talento para o "cartoon" (cartum), a BD (Banda Desenhada), etc.... Em geral, modifico as imagens geradas pela IA, sobretudo as narrativa e as "falas"...
Noto que o ChatGPT precisa de ser bem insttruído (daí a importância do "prompt", ou "comando")...E o "boneco" nunca sai bem à primeira... E depois há coisas em que persiste no erro, no que diz respeito a "guerra da Guine": a G3 é sempre a Armlite, o alferes é sempre tenente, a farda é norte-americana, as paisagens são os do Vietname... Há coisas que se podem corrigir, outras não...
Mas quem não tem cão, como nós, caça com gato...
Neste caso, a IA não seguiu exatamente o guião, baseado na história do Fernando Anciães... O oficial de dia apanhou as duas sentinelas a dormir, e levou-lhes as armas...Quando acordaram, é que deram conta do sucedido...
Por outro lado, tive que tirar uma barra aos galões do Anciães... A "ilutração" não procura reconstituir o ambiente de Buba nem os seus "bravos" (sabemos que estes postos de sentinela eram junto ao rio, não devia haver sacos de areia, nem sabemos se o Anciães usava bigode nessa altura...).
O capitão, Filipe Ferreira Lopes, já falecido, usava bigode, parte dos graduados também... O Pinto Carvalho usava, o Anciães parece que também, pelo que me é dado ver na brochura com apontamentos sobre a história da CCAÇ 3398.
João Crisóstomo e João Rodrigues Lobo: obrigado pelos vossos testemunhos. Haverá centenas de histórias destas. Dormir (ou adormecer) no posto de sentinela era... "mato"!...
Mas acordar uma sentinela a dormir podia ser perigoso...Havia malta bêbeda de sono... que acordava, estremunhada, e desatava aos tiros... Não era uma tarefa fácil, por exemplo, fazer o turno das 2 às 6 da manhã...
Já não me recordo como é que a gente organizava, só com um secção ou um pelotão, a guarda, à noite, das nossas tabancas em autodefesa ou destacamentos (como o do rio Udunduma, Missirá, Fá Mandinga, Ponte dos Fulas...). De dia, com o calor, era impossível um homem descansar...
Sabíamos que as milícias iam para os abrigos dormir... O mesmo se passava com os nossos soldados guineenses (CCAÇ 12, Pel Caç Nat 52, Pel CCaç 63, etc.). Nas CCS e unidades de quadrícula, muita gente fazia sentinela, do 1º cabo escriturário até aos soldados... básicos!...
A falta de pessoal era imensa, impossível pôr sentinelas em todos os pontos críticos do aquartelamento, destacamemento ou tabanca em autodefesa...A melhor proteção ainda era o perímetro minado...(As garrafas de cerveja presas ao arame farpado era um sistema primitivo que, em noites de vento, dava cabo dos nervos da sentinela!).
A sorte, por outro lado, é que os gajos do PAIGC tinham medo da noite...(Os tugas também..., a noite em África mete respeitinho!)... Um "sniper" podia fazer muitos estragos...
O PAIGC tinha sentinelas nas árvores, mas as melhores sentinelas ainda eram os cães e os outros animais domésticos, galinhas, galos, porcos, cabras, etc. , que alertavam a população e os combatentes nas zonas controladas por eles...
Também não se faziam "golpes de mão" às tantas da noite, os helis não voava à noite, a BA 12 também fechava as portas à noite, um gajo se precisasse ser evacuado à noite estava frito... Enfim, a guerra tinha o seu horário, para os "infantes" o alvorecer era a melhor hora para atacar, depois de andarem quilómetros toda a noitem, a penantes, em bicha de pirilau...
Encontrei referências a um Fernando de Jesus Anciães, diretor de finanças do distrito da Guarda... Será o mesmo ? Se sim, já deve estar mais do que reformado (mas não "arrumado"). E, se nos ler, fica convidado para integrar a Tabanca Grande e partilhar com os camaradas da Guiné mais histórias e memórias de Buba, 1971/73...
Sei que ele esteve no convívio deste ano do pessoal da CCAÇ 3398. Um alfabravo do Luís Graça.
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