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terça-feira, 12 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernnado Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)











Ilustração: IA generativa (ChatGPT / OpenAI), composição (e legendagem)  orientada pelo editor LG, sob história contada pelo FJA/JAPC .11 de maio de 2026, 



1. Quem é que não se lembras destas expressões da gíria ou calão de caserna  que usávamos para designar "dormir" ?!... Quem é que, nas longas noites quentes e húmidas da Guiné, naquelas horas mortais da madrugada, no aquartelamento ou destacamento no mato, no seu posto de sentinela, não foi apanhado pela ronda a "chonar", a "ferrar o galho", a "passar pelas brasas", a "bater a sua sorna", com a sua "namorada" (a G3), pousada no peito...? 

A gíria ou calão de caserna é um universo à parte, cheio de criatividade e ironia, especialmente para escapar à monotonia e ao cansaço das noites intermináveis na Guiné: onde havia de tudo, mosquitos, e miríades de outros insetos, calor, humidade, chuva, trovoada (conforme a estação),  uivos das hienas, silvos de granadas, very ligths, balas tracejantes...  Mas também tédio, cansado, medo, lassidão, angústia, sono, muito sono...

Eis algumas expressões para "dormir" (ou tentá-lo) no posto de sentinela, em emboscada,  no mato, ou na caserna, em véspera de uma "saída":
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  • "Chonar" ( ou "xonar") – Clássico, vindo do calão lisboeta, mas adoptado em todo o lado; era o verbo por excelência para "dormir" (ou "tirar uma sesta", mesmo que fosse só uns minutos entre turnos);
  • "Ferrar o galho" – Esta era mais usada para "dormir profundamente", muitas vezes em situações menos formais ou quando se aproveitava um momento de folga;
  • "Passar pelas brasas" – Esta tinha um tom mais irónico, como se fosse um ritual de resistência: aguentar o sono a todo o custo, mas acabava por ser o mesmo que "adormecer"; sinónimo: passar pelo sono;
  • "Bater a sorna" – Outra pérola! Sorna era o sono, e bater era tirá-lo, mesmo que fosse à pressa: às vezes ouvia-se também "bater uma soneca";
  • "Pegar no sono" – Mais literal, mas também muito usada.
  • "Dormir a sono solto" – Quando o cansaço era tanto que nem a ronda ou os mosquitos ou os "turras" conseguiam acordar.
  • "Ninar" – Usada mais em tom de brincadeira, como se alguém estivesse a embalar-se e a dormecer (ao som de uma cantiga);
  • "Dormir como um prego" – Esta era mais específica: dormir em pé, encostado a uma parede ou a um poste, como os soldados faziam nos postos de sentinela (com a G3 ao peito); ter um sonmo profundo; sinónimo: dormir como um anjo;
  • "Fazer a sesta do leão" – Para quem conseguia dormir em qualquer lado, como os animais do mato;
  • "Estar a sonhar com a terra" – Quando o sono era tão profundo que se sonhava com Portugal, com a família, ou com a comidinha da mamã.
 
Outras expressões relacionadas com o sono (ou a falta dele):
 
  • "Ficar a olhar para o teto" – Quando não se conseguia dormir, mas se fingia que sim;
  • "Ficar a contar carneiros" – Quando não se tem sono, ou quando se tem insónias;"O sono é o melhor soldado" – Um ditado que se ouvia muito, especialmente nas noites antes de uma operação; sinónimo: passar a noite em branco;
  • "A ronda não perdoa" – Para quem era apanhado a "chonar" em serviço.
  • "Dormir de olho aberto" – Literalmente, tentava-se, mas não era fácil com o calor e os mosquitos.
  • "O sono é o único luxo que não se paga" – Uma forma de justificar uns minutos de descanso roubados;
  • "O sono é o melhor médico" – Provérbio judaico;
  • "O teu mal é sono" – Quando  uum gajo anda a bater com a cabeça pelas paredes; sinónimo: bêbedo de sono.


Pinto Carvalho.

Foto  LG (2010)

E a G3 como "namorada"? Essa sim, era uma imagem recorrente! A G3 era a nossa companheira constante, sempre ao peito ou ao lado, como uma namorada (ciumenta) que não se podia largar. E quando se adormecia com ela ao colo, era sinal que o cansaço tinha ganho a batalha.



2. E a propósito do sono ( em tempo de guerra), temos hoje mais   um contributo do  nosso colaborador permanente
Joaquim António Pinto Carvalho (JAPC) que, como já o dissemos, é reconhecidamente, um homem dotado de apurado sentido de humor. 

Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73). É hoje advogado, ainda no ativo. 

Da brochura, de que é autor,  com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021,  vamos "sacar" mais uma historieta engraçada,  que o JAPC recolheu junto do seu camarada, também ele alf mil at inf, Fernando de Jesus Anciães (FJA).



Fonte: "A 'Chama' que nos chamou: um contributo para a história da CCAÇ 3398, "Os Incendiários", Buba, Guiné, 1971-1973, na comemoração do seu cinquentenário. Edição de autor, s/l, 2021, pp. 55/56. (Com devida vénia...)

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