
Guiné > Região de Cacheu > São Domingos > CCS / BCAÇ 1933 (Nova Lamego e São Domingos, 1967/69) > 11 de dezembro de 1968 > Um hipopótomo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu
Foto (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. A nossa tropa não caçava hipopótamos. O PAIGC, sim. Dizimou-nos no rio Corubal (durante a guerra e depois). A carne e a gordura (além do couro...) eram recursos importantes no mato...
Não se faz a guerra sem proteína. A fome era negra (sem conotação racista)... Havia milhares de bocas a alimentar na bacia hidrográfica do rio Corubal...
O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC.
"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro, que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a "rebocar" o bicho...
Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).
"Do nosso lado", só esporadicamente lá se caçava um hipótomo ou outro, que fazia "asneiras" (invadia os campos de arroz, era uma autêntica "bulldozer"...). Os caçadores eram locais. A tropa quando muito podia ajudar a "rebocar" o bicho...
Um hipopótamo adulto pesa, em média, entre 1,3 a 1,8 toneladas, com os machos podendo atingir pesos superiores, frequentemente passando as 3 toneladas. Os machos mais velhos podem chegar a mais de 3,6 mil kg (havendo registos excecionais de até 4,5 mil kg).
Comparando com uma vaca dos fulas, da raça N'Dama (pesando em média 250 kg e dando 50 % de carne limpa), um hipopótamo médio (1,5 mil kg) equivalia a uma meia-dúzia de vacas, com a vantagem de também dar também muita gordura. O problema devia ser a sua conservação. A carne devia ser seca ao sol ou então defumada.
Temos fotos de hipótomos que apareceram mortos. Talvez por doença ou pesca com granadas de mão. No Cacheu (Vd. foto acima).
No Rio Geba, nunca os vi no meu tempo (em 1969/71). No rio Corubal ouvi-os á distância.
Quanto ao hipopótamo-pigmeu (Choeropsis liberiensis) (**) é considerado extinto na Guiné-Bissau há cerca de 50 anos, com os últimos registos a remontarem ao final da década de 1950. Embora nativo da África Ocidental, a sua presença atual restringe-se à Serra Leoa, Guiné-Conacri, Costa do Marfim e Libéria, preferindo florestas densas. Não deve ultrapassar em média os 200 kg.
Luís Graça (***)
quarta-feira, 13 de maio de 2026 às 07:40:30 WEST
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Notas do editor LG:
,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos
(...) Luís, há uns anos atras um condutor do meu batalhão, confidenciou-me, por isso não cito nomes, porque também não vi, mas acredito piamente, que um oficial superior do batalhão ia à pesca de madrugada, no rio São Domingos, afluente do Cacheu, lançava granadas ali bem perto do cais, e não faltava peixe.
terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET
,(*) Vd. poste de 11 de dezembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19278: Álbum fotográfico de Virgílio Teixeira, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAÇ 1933 (São Domingos e Nova Lamego, 1967/69) - Parte LV: O hipopótamo que apareceu morto no rio São Domingos, afluente do rio Cacheu, precisamente há 50 anos
(Comentário de Virgílio Teixeira)
Um dia, num barco Zebro, com outros 2 condutores, teve uma sorte, ou azar, porque o barco onde iam a lançar as granadas, foi levantado ao ar por um hipopótamo. Salvaram-se todos e nunca mais foram, e os pormenores não interessam aqui, mas dá para perceber.
Talvez este hipopótamo, frequente nestes rios, onde eu tantas vezes andei, tenha sido morto pelas tais granadas. Eu nunca vi um animal destes vivo, só este morto. Ponto. (...)
terça-feira, 11 de dezembro de 2018 às 22:54:00 WET
(***) Último poste da série > 8 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27715: S(C)em Comentários (88): Paiai Lémenei, de má memória (Luís Dias, ex-alf mil op esp, CCAÇ 3491 / BCAÇ3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74)
8 comentários:
A guerra, todas as guerras, têm um impacto tremendo no ecossistema. A palanca negra esteve desaparecida durante décadas em Angola. O elefante desapareceu da Guiné. O parque da Gorongosa, em Moçambique só agora está a renascer. E depois quando acabam as guerras, sobram sempre muitas armas. Que nunca ficam em "boas mãos". Não há armas em "boas mãos"...
Henk Eggens (by email)
13 mai 2026 11:26
Olá, Luís,
Li o artigo mais recente no blogue. Uma frase confundiu-me:
"O macaco-cão (e, em menor grau, o hipopótamo) deveria ser considerado também "Herói da Liberdade da Pátria", talvez até com mais mérito do que outras figuras controversas do PAIGC."
O que querias dizer com esta frase?
AB
Henk
Ok, Henk, é pura ironia, "humor de caserna": o macaco-cáo (mas também o hipopótamo e outra caça) alimentaram a guerrilha e a população nas zonas sob controlo o PAIGC (por exemplo, na bacia hidrográfica do rio Corubal)..
Havia alguns milhares de hipopótamos no meu tempo, hoje não devem chegar aos 400 (e metade está em Orango: para o bijagó, o "pis-cabalo" é um animal sagrado)...
Figuras controversas do PAIGC ? Por exemplo, Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Quemo Mané, Mamadu Indjai - mítico comandante no meu tempo, fuzilado em 1973.. Claro que também os houve entre os tugas" e seus aliados...Um abraço, Luis
O nosso querido amigo e "mano" Cherno Baldé, que foi pastor quando o"djubi",no seu "chão, no subsetor de Fajonquito, fronteira com o Senegal, sabe isso melhor do que todos nós...
No nosso tempo, na Guiné, o gado N'Dama era a raça predominante devido à sua resistência natural à tripanossomíase (doença do sono), essencial para a sobrevivência no ecossistema local.
Quanto pesaria em média uma daquelas vacas ("raquíticas", pele e osso no tempo seco...) que íamos comprar a Sonaco ? Lembro-me de ter comprado uma, quando fui gerente de messe, por 950 pessos...Quantos quilos de bife terá dado ? Nunca me preocupei em saber, mas hoje tenho curiosidade...
Aqui está uma estimativa técnica baseada nos registros zootécnicos e históricos do final da década de 60:
(i) Peso da vaca N'Dama (manadas dos fulas, c. 1969-1971): nas condições de pastoreio tradicional dos fulas, onde o gado dependia inteiramente de pastagens naturais e da transumância (e das duas estações, tempo seco e tempo das chuvas), os animais eram menores do que os exemplares de seleção moderna.
Peso d eum animal médio vivo: entre 220 kg e 280 kg;
rendimento de carcaça: cerca de 45% a 50%;
carne limpa (peso morto): aproximadamente 100 kg a 130 kg de carne aproveitável por animal adulto.
(ii) Comparação: vaca N'Dama vs. hipopótamo do Rio Corubal
O hipopótamo (Hippopotamus amphibius) é uma das maiores massas de proteína animal que se encontravam nas margens do Corubal; a diferença de escala é monumental... Comparemos uma vaca N'Dama (Média) com um "pis-cabalo" (médio)
Proporção: Peso vivo~250 kg~1.500 kg;
Rendimento de Carne~115 kg~500 kg a 600 kg;
Atenção: embora o hipopótamo pese muito mais, uma grande parte do seu peso é composta por pele extremamente espessa (que pode chegar a centenas de quilos), gordura e ossos pesados. Ainda assim, o rendimento muscular é vasto.
Para igualar a quantidade de carne de um único hipopótamo médio do Corubal, seriam necessárias, aproximadamente, 5 a 6 vacas N'Dama das manadas fula.
Recorde-se que no nosso tempo a vaca N'Dama era o pilar da economia e do prestígio social fula (daí a relutância do fula em vender as suas vacas ao amigo "tuga", coisa que este tinha dificuldade em compreender e aceitar, vindo de um economia onde tudo se vendia e comprava...).
Em tempo de guerra e de crise alimentar (com populações refugiadas no mato, balantas, biafadas, no setor L1, Bambadinca, e com perdas regulares do seu gado por incursões das NT, bombardeamentos aéreos, etc.), o hipopótamo representava uma fonte de carne de caça (muito apreciada por certas etnias, embora evitada por outras, as muçulmanas, mas também a bijagó, devido a preceitos religiosos e totémicos), podendo alimentar uma tabanca inteira ou vários bigrupos por vários dias.
Henk Eggens (by email)
13 mai 2026 13:06
Olá Luís,
Obrigado. Agora entendi melhor.
Sei que os crimes de guerra ocorrem em todos os conflitos armados, por todas as partes. Devem ter experiências com isso. E humor de caserna deve ser, por definição, pouco sutil.
O que me confundiu foi a comparação entre macacos, hipopótamos e, no outro lado, humanos, como heróis entre aspas.
Mantenhas!
Henk
eduardo francisco (by email)
13 mai 2026 20:26
Luís, diz ao Henq que vá dar uma volta só bilhar grande .
Então ele não percebeu que o macaco-cão e todos os outros bichos que se moviam eram, na pior hipótese para eles, alvo dos dentes dos humanos,
Aqui no sul dizemos:
" Tudo o que avoila, caçoila"
Abraço
Eduardo Estrela
O Éduardo, para um neerlandês, é uma expressão "blindada"...Mesmo para a malta do Norte... Mas, por intuição vai-se lá...No Algarve ouve-se muita expressão popular com palavras muito locais.
“Tudo o que avoila, caçoila”, para quer dizer: tudo o que voa acaba na panela/tacho; é uma brincadeira associada ao gosto pela caça e pela cozinha tradicional algarvia.
avoila → forma popular/dialetal ligada a “avoar” ou “voar” (ou seja, aves, coisas que andam pelo ar, e que podem ser caçadas);
caçoila → variante popular de “caçoila/caçoilo”, recipiente de barro ou tacho para cozinhar.
A ideia da expressão idiomática é humorística: “Se voa, caça-se e vai para o tacho.”
É muito típica daquele humor rural algarvio e alentejano ligado à caça de perdizes, coelhos, lebres, tordos, rolas, etc.
Há várias expressões portuguesas parecidas, como: “Tudo o que mexe vai para a panela", “Do mar tudo, da terra tudo"... E dos chineses diz-se: "comem tudo o que voa, exceto aviões; e o tudo o que tem pernas, exceto cadeiras"...
Gostei desta, Eduardo. E viva o Algarve. Luís
A frase reflete um tempo de escassez e uma cultura de subsistência, onde não se desperdiçava nenhuma fonte de proteína.
E usar a expressão é quer dizer Dizer isto implica que qualquer ave (que "avoila"), seja pombo, codorniz, tordo ou até pássaros mais pequenos ( protegidos hoje, mas que antigamente faziam parte da dieta rural) era considerada caça legítima para o sustento da família.
Pode e tem um sentido metafórico: hoje em dia, embora a caça de subsistência tenha diminuído, a expressão é usada de forma mais figurada para descrever alguém que:
Não desperdiça oportunidades, aproveita tudo o que lhe passa à frente, tudo "o que vier, marcha", "tudo o que vier à rede é peixe!"...indicando que a pessoa aceita qualquer coisa que lhe seja oferecida ou que esteja disponível, sem grandes exigências.
É um exemplo perfeito da vivacidade da oralidade portuguesa, onde a rima facilita a memorização de uma regra de vida muito prática: a de que a fome e a necessidade não escolhem sabores.
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