"Um contingemte de soldados de artilharia e infantaria embarcou no África com destino a Moçambique, a fim de que possam ser destatacadas forças d'aquela provínica para Timor, onde os régulos fizeram há pouco um movimento de revolta que as nossas autoridades sufocaram, sendo necessário, todavia, assegurar ali com a presença de tropas mais completa tranquilidade.
"É sobretudo na região d' Oecússi que é maior a agitação provocadas por medidas políticas para o régulo [Boaventura Boaventura da Costa Sottomayor], cujo pai [Duarte da Costa Sottomayor ] foi um tão dedicado amigo de Portugal que seus filhos foram educados à custa do governo na colónia de Macau"
Legendas: 1 - No tombadilho do Africa os soldados da coluna. | 2 - Os oficiais da coluna ao centro o comandnate, tendo à direita os srs. tenente Ribeiro da Fonseca e alferes Cidrães e à esquerda os srs. tenenet Domingos Vicente e alferes Cabeçadas. | 3 - A despreocupação dos soldados expedicionários. | 4 - A coluna formada antes do embarque. | 5 - O embarque das tropas. - Clichés de Benoliel.
Fonte: Ilustração Portuguedsa, 2ª série, nº 325, 13 de maio de 1912, pág.640 (Cortesia de Hemeroteca Digital / Câmara Municipal de Lisboa)
Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913). Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.
Simopse: "A partir do estudo de fontes portuguesas e holandesas, a obra analisa, nomeadamente, mais de cinquenta campanhas e expedições, necessárias à Monarquia e à Primeira República para que os guerreiros timorenses se tornassem súbditos portugueses.
"Neste livro, o leitor ficará a saber como o governador José Celestino da Silva (1894-1908) foi o grande aniquilador da resistência dos «reinos locais» e um «precursor» da unidade luso-timorense. O que não impediu a eclosão e o esmagamento assaz sangrento da última grande revolta (1911-1912) contra a Administração colonial.
"Sem maniqueísmo e com uma atenção aos pormenores inigualada até hoje, esta obra faz cair por terra alguns mitos relativos à presença portuguesa na Oceânia."
Timor Leste > Parque Dom Boaventura. Comemoração, dos 20 anos do referendo sobre a independência da Indonésia (1999-2019), e centenário da revolat de Manufai.
A estátua (gigante) de Dom Boaventura foi inaugurada em 23 de novembro de 2012, por ocasião comemoração do 37° Aniversário da Proclamação da Independência (28 de Novembro de 1975 – 28 de Novembro de 2012) e do 1o. centenário da Revolta de Manufai, liderada por Dom Boaventura (1912 – 2012).
Foto: cortesia de Wikimedia Commons (editada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2024)
1. No tempo da República, Timor era, como as restantes colónias portuguesas, parte integrante de Portugal (segundo o artº 2º da Constituição de 1911).
TÍTULO I - DA FORMA DO GOVERNO E DO TERRITÓRIO
DA NAÇÃO PORTUGUESA
ARTIGO 1.º A Nação Portuguesa, organizada em Estado Unitário, adopta
como forma de governo a República, nos termos desta
Constituição.
ARTIGO 2.°
O território da Nação Portuguesa é o existente à data da proclamação da República.
§ único A Nação não renuncia aos direitos que tenha ou
possa vir a ter sobre outro qualquer território. (Fonte: Assembleia da República)
A desastrosa, precipitada, mal planeada e sangrenta participação de Portugal na I Guerra Mundial, foi justificada pelos políticos da República como o imperioso dever do país face ao imperalismo alemão que olhava, com olhos de ave dem rapina, territórios como Angola e Moçambique.
Em contrapartida, Timor ficava longe da Europa e podia ter menos interesse para as grandes potências coloniais, com exceção da Holanda (hoje Países Baixos)...
A República (1910-1926) sempre defendeu, para as colónias, um modelo de descentralização administrativa e financeira, com recurso a um Alto Comissário ou governador.
Com a Ditadura Militar (a partir de 1926) e o Estado Novo (a partir de 1933), há um claro retrocesso na autonomia administrativa e financeira das colónias. O Acto Colonial (1930) vai ser integrado na Constituição de 1933. É o triunfo da perspetiva imperial na relação metrópole-colónias.
A relação da República com Timor e os timorenses também não será pacífica, em parte por inabilidade dos republicanos...
Há a "revolta indígena" de Manufai (1911/12), cuja história merece ser melhor conhecida dos nossos leitores. Ocorreu durante o governo de Filomeno da Câmara Melo Cabral (o primeiro governador republicano, 1911/13 e 1914/17). (Nasceu em Ponta Delgada, em 1873, e morreu em Lisboa, em 1934; foi governador, controverso, de Timor em dois períodos, 1911-1913, e 1914-1917; na sua última comissão, em 1915, foi promovido a capitão-tenente.)
O território (do que é hoje Timor Leste) estava dividido em 71 reinos, cada um com o seu liurai e a sua pequena corte e o seu pequeno exército!...
Houve causas próximas para explicar a revolta de Manufai de 1911/12, e que seria uma réplica da iniciada em 1895 (ao tempo do governador Celestino da Silva).
Desta vez foi iderada por Dom Boaventura da Costa Sottomayor, filho de Dom Duarte da Costa Sottomayor:
(i) A mudança de regime em Portugal (1910) e a imposição da bandeira republicana (verde e vermelha): foram vistas como uma ruptura de um pacto simbólico com a Coroa, a quem muitos liurais, como Boaventura, juravam lealdade; a bandeira monárquica (azul e branca) era vista como sagrada e associada a uma relação de vassalagem direta com o rei de Portugal, não com o presidente da República; os timorenses davam (e ainda dão) muita importância a símbolos nacionais como a bandeira: a sua lealdade ia para o rei e para a bandeira "azul e branca" da monarquia, que de repente é substituída (em 29 de novembro de 1910); durante a revolta, o "gentio" amotinado, sob o comando de Dom Boaventura, usaram a bandeira monárquica como emblema de luta, reforçando a ideia de que estavam a defender não só os seus direitos seculared, mas também uma relação histórica com Portugal que a República havia rompido;
(ii) a ambiguidade e a instabilidade da transição política foram aproveitadas pela Holanda (uma monarquia) para incitar os timorenreses à revolta contra os "novos senhores" da metrópole, e pôr em causa as fronteiras do território;
(iii) a substituição da "finta" pelo "imposto de capitação " (equivalente ao "imposto de palhota" na Guiné) vem afetar os poderes gentílicos, semifeudais, limitando o poder discriconário dos "régulos" (ou "liurais"),
(iv) o recrutamento forçado de trabalhadores ("corveia") para as plantações de café e algodão;
(v) a proibição do abate de árvores de sândalo e de animais para rituais tradicionais;
(vi) a resistência (aberta) à autoridade colonial portuguesa, que procurava consolidar o controlo sobre as estruturas tradicionais de poder timorenses;
(vii) a escassa presença militar portuguesa no território (agravada pela longa distância,por via marítima, entre Lisboa e Díli, funcionando Moçambique como uma espécie de entreposto ou base recuada);
Não temos elementos para perceber o papel da Igreja Católica, que, em alguns casos, era vista como aliada dos portugueses, mas também como mediadora entre as populações locais e o poder colonial; a igreja, nesta época, era claramente antirrepublicana, e o jesuitas tinham sido expulsos, ainda em 1910, do território.
O aumento do imposto de capitação (a "finta" ou "imposto e cabeça") e o arrolamento de coqueiros e gados, a principal riqueza dos timorenses), a par da proibição do corte de árvores de sândalo (prática sancionada com multas), serão talvez as razões mais visíveis que levam a despoletar a revolta de Manufai.
A partir do reino de Manufai, a revolta conquista grande adesão das populações e levará mais tempo a ser debelada.
A revolta foi militar, tendo sido subjugada por uma conjugação de forças que envolveu:
- militares portugueses metropolitanos;
- militares provenientes das colónias portuguesas (de Goa, de Macau e principalmente de Moçambique, os "landins").
- e, sobretudo, aliados dos reinos timorenses.
As forças africanas e nativas correspondiam a 88% dos efetivos militares envolvidos, segundo o historiador René Pelissier (2007).
A resposta foi militar, com o envio de tropas oriundas da metrópole. A artilharia fez grandes razias. Aldeias inteiras são arrasadas. As baixas entre os revoltosos vão reflectir-se mais tarde na demografia do território. Fala-se em 5 mil a 20 mil mortos, números difíceis (ou impossíveis hoje) de confirmar.
A par disso, e como seria de prever, a forte repressão vai agravar as relações entre colonizados e colonizadores...
Aponta-se como início formal da revolta o dia 24 de dezembro de 1911, domingo, véspera de Natal . Essa data marca o ataque ao posto de Same: o primeiro-tenente Luiz Alvares da Silva, da marinha, é morto e decapitado, à frente da mulher.
A guerra vai decorrer até meados de 1912 num movimento de cerco e aniquilamento das forças rebeldes, acabando de levá-las à rendição. Todavia, o destino do líder da revolta ainda hoje é controverso: terá sido poupado e desterrado para Moçambique.
A guerra vai decorrer até meados de 1912 num movimento de cerco e aniquilamento das forças rebeldes, acabando de levá-las à rendição. Todavia, o destino do líder da revolta ainda hoje é controverso: terá sido poupado e desterrado para Moçambique.
O Estado vai anexa terras dos vencidos (caso da futura Sociedade Agrícola Pátria e Trabalho). O poder dos "liurais" passou a ser mais simbólico, mas mesmo assim o governador Filomeno da Câmara soube depois imprimir uma dinâmica de desenvolvimento e pacificação efetiva do território, política que será prosseguida com algum êxito até à II Guerra Mundial.
O triunfo das autoridades portuguesas e seus aliados vai marcar a consolidação da até então precária soberania em toda a parte oriental da ilha.( A delimitação da fronteira só fica resolvida em 25 de junho de 1914, com a decisão do tribunal de Haia sobre o diferendo relativamente ao enclave de Oecússi-Ambemo: a demarcação no terreno só vai acabar em abril de 1915.)
A revolta do régulo de Manufai será o último dos grandes levantamentos contra a autoridade colonial. E tende hoje a ser vista como uma "revolta protonacionalista", de cariz anticolonialista, "avant la lettre" (Figueiredo, 2003).
Carlos Bessa (2004, pág. 333) tirou deste período trágico da história de Timor (e de Portugal) a seguinte conclusão:
(...) A nobreza nativa sairá muito enfraquecida destas campanhas, mas, mesmo assim, a autoridade portuguesa continuou a não pretender ser mais do que superestrutura aglutinadora e arbitral das autoridades nativas dos vários reinos, embora se tornasse marcante factor de identidade e unificação política através da influência de uma cultura luso-timotense e do catolicismo, contrapostos ao islamismo e à influência calvinista holandesa excercida na restante Indonésia, do que resultou o tão impressionante e conhecido culto dos Timorenses pela bandeira portuguesa".
Pesquisa: LG + Bibliografia + Wikipedia + IA (Le Chat Mistral AI | ChatGPT Open AI)
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Bibliografia:
Bessa, Carlos : "Timor Do Domínio Liurai à Pacificação Portuguesa", in Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, ed. lit - Nova Históriaa Militar de Portugal. Vol. 3. S/l: Círculo de Leitores. 2004. 323-333.
Figueiredo, Fernando Figueiredo, "Timor (1910-1955), in: "História dos Portugueses no Extremo Oriente", 4º volume: Macau e Timor no Períod0 Republicano", dir. A. H. de Oliveira Marques, Lisboa: Fundação Oriente, 2003, pp. 521-575.
Menezes, M. Azancourt: Jornal Tornado > As Revoltas de Manufahi em Timor-Leste | Por M. Azancot de Menezes | 26 Agosto, 2018
Pélissier, René — Timor em Guerra: a Conmquista Portuguesa (1847-1913). Lisboa: Editorial EstampA, 2007, 512 pp.
Pesquisa: LG + Bibliografia + Wikipedia + IA (Le Chat Mistral AI | ChatGPT Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
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Nota do editor LG:




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