Portugal > s/ l > s/ d> Tasca do Jacinto, retornado. Início da primavera, tempo de favas. Dois homens na casa dos setenta e muitos anos conversam à mesa, um copo de vinho tinto, um cesto de pão e um prato fumegante de favas suadas com chouriço e coentros. A luz entra pela janela, criando um ambiente quente e nostálgico. Ao fundo, uma parede caiada com fotografias antigas e um relógio parado. Estilo de aguarela realista, cores suaves, atmosfera de memória, amizade e passagem do tempo.
O último candando
− Eu era capaz de oferecer o meu lugar no reino dos céus por um prato de favas suadas!... Antes que se faça tarde…
− Tarde ?!... Estás com maus pressentimentos, ou quê ? O que queres dizer com isso, Arsénio?... E, por favor, não blasfemes…
− Calma, senhor provedor, não invoquei o nome de Deus em vão… Também andei na catequese como tu, embora em África…
− Mas o teu catecismo não era o mesmo que o meu, aposto…
− Olha, a mim quem me dera saber se tenho um lugar reservado no céu…
− É com essa que Deus nos trama… Mantém o suspense até ao fim…
− Ah!, ah!, para ti, António, está mais do que reservado!... Vais lá estar de pedra e cal, à direita de Deus Pai!...
− Obrigado, Arsénio, mas não gosto falar dessas coisas... Que história é essa, afinal, das favas ?!
− É o que me estava mesmo a apetecer agora, um prato de favas suadas…
− Abriste-me o apetite. Também já ia… E estamos em março, é a altura delas. Vamos almoçar ao Jacinto...
− Sabes, tenho medo de me esquecer como se chamava o prato de favas suadas feitas pela minha mãezinha, com tanto amor e carinho…
− Ah! , a nha Bertinha, de saudosa memória…
− … E sobretudo medo de esquecer a delícia do seu sabor, os cheiros do almofariz da nossa cozinha, enfim, as memória que me vêm dos tempos da meninice em Angola.
− Ó engenheiro!..., estás com a doença do Alemão, ou quê ?!...
− Só Deus e os médicos é que sabem… A tal doença que nenhum de nós ousa nomear. Mas acho que ainda não a tenho, meu caro António… Os neurónios por enquanto estão no sítio...
− Mas quem te pode garantir que a não vais apanhar, a dita cuja?...
− Cruzes, canhoto!... A única coisa que me aterroriza, mais do que a morte, é perder a memória, a identidade... e alguns dos cinco sentidos, como o gosto, o olfato, o tato... E, já agora, a tusa...
− Terror por antecipação, Arsénio… Mas essas reminiscências da infância, quando recorrentes, dizem os entendidos, podem muito bem ser o primeiro sintoma precoce da doença do Alemão…
− Achas ?!...
− Disse-me há tempos a neurologista do Santa Maria, que me acompanha... Lembras-te das favas suadas da senhora tua mãe que Deus já lá tem, mas não do que comeste ontem…
− Tens razão… E não me lembro mesmo!... Fora de brincadeira, dizem que para lá caminhamos todos…
− As demências ?!... A menos que apareça, um dia destes, a tal droga milagrosa que nos há de salvar da amnésia total…
− Já não será para os dias que me restam…
− Não sejas tolo, Arsénio... E depois, não vês o cancro ?!... Todos os anos saem novos medicamentos inovadores. Confia em Deus e na Ciência.
− Ah!, a indústria da doença: quem entra num hospital, já de lá não sai… Há um cerco médico, vê o meu irmão: já não lhe bastava ter que fazer hemodiálise três vezes por semana… E quando estava para fazer o transplante, zás!, tocou o gongo dos setenta anos"!.. Tiraram-no logo da lista....
− Gratidão, verdadeira gratidão… E não reverência cínica!... No último dia de trabalho, dão-te um chuto no rabo.
− Mas ergueram-te um busto, em bronze, ah!, ah!..
− …um mamarracho, piroso, que está lá no átrio… Por mim, bem o mandava para o ferro-velho!
− Não sejas tonto, António, custou uma nota preta!… A mim, nem isso, nem salva de prata, nem versinhos, nem balões…
− Não, ainda não morremos, nem tu nem eu!...Felizmente!... Ou melhor, eu já morri, da minha primeira vida. Morte social, que não é menos cruel que a morte física que me espera, um dia destes…
− Morte social ?!... Dizes bem. Foi por isso que eu também nunca mais lá voltei, à IPSS que ambos ajudámos a criar, a acarinhar, a crescer. E tu ainda mais, Arsénio, que andavas na política, tinhas bons contactos em Lisboa e puxavas os cordelinhos, quando era preciso mais umas c'roas...
− Sempre a pensar no interesse da terra do meu querido pai... Mas poucos já se lembram desses tempos!… E, sem memória, não há gratidão!
− Dizes bem: sem memória, não há gratidão!... Essa é outra forma de doença do Alemão, a que dá no povo…
− … ingrato, abusador, cobarde, o Zé Povinho. Ao vilão dá-lhe o pé, toma-te a mão... É incapaz de um candando, um abraço de gratidão! Só sabe fazer um manguito... nas tuas costas.
− Mas tu também não tens lá ido, à nossa IPSS, nem na festa de Natal ?!...
− Nunca mais lá pus os pês. A minha vida social acabou há muito, desde que larguei a política.
− Lembro-me sempre do tipo que eu fui substituir, o dr. Veloso, o professor do Colégio… No dia seguinte, depois de deixar o cargo, deu-lhe a veneta, quis ir matar saudades e foi lá cumprimentar a criançada, a velhada, a gajada… Ele era a delicadeza em pessoa.
− Não, mas imagino…
− Estavam na galhofa, e a cochichar entre elas, deu para ouvir: “O que é que o filho da puta do velho está aqui a fazer?!”…
− Assim, sem mais nem ontem ?! Filho da puta ?!
− Isso mesmo, e ainda dizem que nós, os homens, é que somos ordinários… E toda a gente a saber que tinha sido ele, o meu antecessor, quem estabeleceu (ou melhor, propôs, em Assembleia Geral) o limite dos setenta anos para o exercício de cargos diretivos.
− Das catraias era de esperar tudo, mas logo da nossa querida assistente social! … Afinal, António, quem vê caras, não vê corações…
O homem, o engº. Arsénio Marques, que temia a "doença do Alemão", o Alzheimer (sem nunca o nomear), morreu há pouco tempo. Não teve "funeral de Estado" mas a câmara municipal acabou por fazer-lhe uma discreta e cínica homenagem, a título póstumo: numa sessão da assembleia municipal, foi aprovado por unanimidade um voto de pesar pelo seu falecimento e foi-lhe atribuída a medalha de ouro de mérito municipal. Tarde e a más horas, como se costuma dizer. Mas em Portugal é assim: a besta, na hora da morte, passa a bestial...
O outro, o dr. António Queiroz, que fora diretor da IPSS que geria várias creches, jardins de infância e lares de idosos em todo o concelho, e depois provedor da misericórdia local (o último cargo que exerceu, nums instituição mais virada para a saúde), está agora doente. Sabia que sofria da doença de Parkinson, mas deixei-o de o ver, depois que passou a residir em Lisboa, num lar da Misericórdia.
A seu favor tinha a construção de todas as infraestruturas e equipamentos sociais que fizeram a terra dar "um salto para o século XX"… Abriu estradas e vias pedonais, pôs rotundas em todos os cruzamentos, construiu em altura na orla costeira, fez a rede de saneamento básico, criou o parque industrial, ofereceu terrenos aos investidores de fora, etc. Ah!, e deu emprego a muita gente, na câmara e nos serviços municipalizados, desenvolveu o turismo, etc. Em suma, "pôs a terra no mapa"...
Só o conheci no ocaso da sua vida política. Era ainda um cacique à moda antiga... e perdia-se por um rabo-de-saia ou uma carinha larocas, diziam as más línguas. Personalidade truculenta, tinha uma frase lapidar, reveladora da sua repugnância quase atávica para o compromisso e a negociação:
− Não se pode agradar a gregos e troianos, e quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.
Os pais do eng.º Arsénio Marques haviam-se conhecido em Cabo Verde. O pai fora expedicionário em São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Cavador de enxada, tocador de concertina e poeta popular. A mãe era de Santo Antão, filha de pequenos comerciantes, neta de padre excomungado, e bisneta de um desterrado.
Depois de cumprido o serviço militar, o pai do Arsénio fixou-se em Angola, empregando-se nos caminhos de ferro de Benguela. A mãe, depois de uns tempos no Continente, aguardando a "carta de chamada", seguiu-lhe os passos. Ele nasceu em 1944. Foi a avó paterna, estremenha, que transmitiu à mãe, crioula, os segredos gastronómicos da família do contintente, incluindo as famosas favas suadas.
Não sei muito da sua vida em África. Mas, perguntará o leitor: onde e como nos conhecemos, eu e o Arsénio Marques ?
Eu explico… mas primeiro tenho que falar um pouco de mim… Sou ribatejano da beira rio. Emigrei, "a salto", para o Luxemburgo, em meados dos anos 60, como outros jovens da minha geração, para fugir à tropa e à guerra colonial.
Fiquei viúvo relativamente cedo, aos 50 e tal anos. A mulher da minha vida morreu de cancro da mama. Era italiana, ou melhor napolitana.
Fixei-me nesta cidadezinha do Oeste Estremenho... Um dia, há muitos anos, vim cá com uma representação municipal e uma banda filarmónica. Do meu município luxemburguês (que não identifico, porque o país é uma aldeia). Na altura era aqui presidente da Câmara, o engº. Arsénio Marques. Estava no auge da fama, da glória e do proveito.
(*) Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios

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