1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:Queridos amigos,
É um belo e raro testemunho. Luís Rosa conhece a Guiné em 1964, tudo mudara entretanto na região Sul, o Brigadeiro Arnaldo Schulz tenta reposicionar a situação criando destacamentos na região fronteiriça, a sua última obra será Gandembel, que se revelará um desastre, prontamente desativada por Spínola. Este irá gradualmente abandonando estas posições fronteiriças, Guileje, altamente fortificada, é a derradeira posição na área. Neste testemunho podemos aperceber-nos do que representava Sangonhá numa fase de arranque do PAIGC, melhor armado e com mais minas e abastecimentos para o interior, daí a importância vital que se conferia ao corredor de Guileje. Luís Rosa correlaciona estas posições, e os abastecimentos que dependiam de Gadamael porto. Valeu a pena a releitura, é mais do que recomendável, a despeito de eu considerar o final uma conversa mais do que improvável.
Abraço do
Mário
Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 2
Mário Beja Santos
Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais, de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.
Sangonhá ficava a escassos quilómetros da fronteira da Guiné-Conacri, recebia regularmente a visita de gente que procurava medicamento, cuidados médicos ou farmacêuticos; mas, à sombra da proteção do aquartelamento, veio gente que aqui vivia, e fosse qual fosse a razão, deu sinais de querer voltar. Fizeram-se casas, havia o problema da área a defender, que aumentou, e era mais vulnerável; e outro problema de fundo era a exploração da terra. Tornou-se premente o desafio de afastar o fantasma da fome, não chegavam os carregamentos de arroz vindos de Bissau; fizeram-se canoas de troncos de árvores, pois era abundante a pesca do rio Cacine. Luís Rosa conseguiu sacos de arroz e mancarra de semente, o povo gostou, a terra foi-se desbravando. A guerrilha não molestou. E no momento certo a população toda despejou-se no campo, ceifeiros de um ciclo interrompido há anos começaram de madrugada o trabalho que ao fim do dia haveria de ser transformado em fartura. Vieram informar o alferes que o arroz já está, vinha dos tempos de dominação exigir-se uma tributação, foi a resposta que o alferes lhe deu: “O que vocês cultivaram e colheram é vosso, não há nada a dar a ninguém.”
E o autor conta-nos como Guileje, uma terra pacata no caminho de Aldeia Formosa, que ficava no limite entre o território Fula e o chão Nalu, um dia foi ferozmente atacada, as súplicas que vinham pelo rádio eram dramáticas: “Mandem ajuda! Vão entrar no quartel! Está tudo perdido!”. Com o levantar do dia, ouviu-se o ronco peculiar dos aviões, cessaram os combates. De Sangonhá a Guileje era pouco mais de três quilómetros, foi-se acudir. E o que se via metia dó, Guileje folegava na manhã nascente, os de Sangonhá deixaram o que tinham trazido: mantimentos, munições e ânimo. Ninguém duvidava, tudo estava alterado. Nessa mesma noite Guileje voltou a ser atacada. Os de Sangonhá voltaram na manhã seguinte a Guileje, na véspera até lá tinham deixado uma GMC. “Chegámos. O segundo ataca deixara mais plana a imensa clareira da povoação, como se uma colossal força longínqua quisesse varrer aqueles insetos, tenazmente agarrados ao que acreditavam ser o seu dever de ficar. No meio do imenso anel cercado pela vala, como um grito, como um velho búfalo morrendo na madrugada, fumegando das narinas aquilo que já não é, estava a minha GMC, retorcida, carbonizada, esqueleto de ferros sem nexo, supostamente a olhar-me como se fosse pessoa triste no aspeto, fazendo-me experimentar a mágoa de perder algo que fazia parte do nosso convencimento.”
O alferes, naquele pedaço de fim do mundo, era multifuncional: militar e juiz; confessor e mantedor da ordem; gestor de recursos possíveis e impossíveis, e prestador de serviços para destacamentos próximos, no caso vertente Guileje ou Cacoca, organizando colunas de abastecimento a partir de Gadamael; e fadado para manter patrulhamentos de proximidade, e conforme conta Luís Rosa houve mesmo um dia em que se encontrou na fronteira com a autoridade local do lado de lá, foi uma vez sem exemplo, mas os de lado de lá cortaram o capim e a estrada para além fronteira, era hábito que havia antes da guerra, até havia o cuidado de limpar à volta dos matos fronteiriços. Coisas só podiam acontecer a quem combatia naquela extensa fronteira que bordejava de norte para sul.
O autor socorre-se obviamente à sua memória: a primeira flagelação a Sangonhá; o trabalho que deu ir-se desfazendo o que fora feito pela formiga bagabaga, para ter uma boa pista de aviação; o trabalho exaustivo dos picadores para detetarem minas antipessoal e anticarro, preferiam-se os meios mais antigos porque os modernos, detetores em forma de prato na ponta de um cabo e que produziam um som agudo se estivesse metal próximo eram um quebra-cabeças, acusavam tudo o que fosse metal, levando a paragens e precauções por um prego ou cavilha que estivessem enterrados a dois dedos da superfície – usavam-se uns paus finos, com uma ponta de ferro no extremo. E o autor apresenta-nos o cabo Cancela e o seu ajudante Djaló, há habilidade de rebentar os engenhos.
É um fio de histórias, o que ele nos recorda largamente de Sangonhá, pouca atenção dedicará à permanência em Farim. Há momentos de grande dor como aquele ferido por uma mina antipessoal que irá morrendo aos poucos, o helicóptero chegará exatamente quando o ferido deixou de se agarrar à vida. E a água, a epopeia de percorrer a pulso aquele solo gretado, com o terror que ela faltasse na duríssima época seca. Porque antes da guerra era tudo diferente, as gentes viviam em pequenos povoados, espalhando à sua volta poços pequenos, agora todas aquelas pequenas povoações tinham ficado desertas; e a comida, Santo Deus, conservas e bolachas ressequidas, para já não falar daquela água que mesmo fervida, era sempre desconchavada; feridos graves não faltam e haverá um, barbaramente sinistrado, que lhe gritará: “Meu alferes, nunca mais sou homem!”; aquela fronteira é obsidiante, procura-se o marco fronteiriço, ele tinha acreditado que a fronteira era definida por um poilão, um nativo desenganou-o, pesquisou-se no capim, encontrou-se o marco, metro e meio de altura, em cimento, dizendo de um lado República Portuguesa e do outro República Francesa.
Neste livro de memórias, era inevitável a menção à religiosidade, ao fanado, à condição da mulher. E também se recorda aquela duríssima flagelação em que o alferes foi ferido, e também se recorda a tragédia dos agentes duplos, como Zacarias Mambo, que acabou na leprosaria da Cumura.
O último texto da narrativa é um almoço, talvez no Restaurante João do Grão, estão presentes o alferes de Sangonhá e o comandante do PAIGC local, à época. Conversa artificiosa, o comandante revela-se pedante, dizendo coisas como: “Já aprendi que é mais difícil governar a paz do que fazer a guerra”; fala-se do colonialismo e do pós-colonialismo, dizem-se coisas como: “Há muitas formas de independência. E há muitas formas de dependência. Como há muitas formas de os povos se governarem e muitos modos de se relacionarem.” E despedem-se, o autor pensa eu houve um enorme espaço de tolerância, havia para ali um painel de azulejos em que a superfície era coberta por retângulos de espelho nos quais a antiguidade e a humidade fizera sumir o brilho e os muitos anos os tinham ido quebrando. O autor sentiu que as imagens se projetavam como um puzzle, dizendo para si próprio e para o leitor: “Quebráramos há muito as imagens antigas e achávamos desejável procurar um caminho pragmático de nos reencontrarmos.”
Prefiro não comentar a extravagância deste final.
Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): foi alferes miliciano, CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
_____________Notas do editor:
Vd. post de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)



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