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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28244: (Ex)citações (448): Guiné: Na linha do tempo (José Saúde)


1.   O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

Camaradas, 

Na linha do tempo 

 
Beja, antiga Pax Júlia, é uma cidade por onde passaram muitos dos camaradas militares que tiveram como destino o território da Guiné

Na linha do tempo 

Na linha do tempo, sempre finita para um ser vivo, recorro a ímpetos históricos e revejo-me absorvido pelas origens de uma cidade, onde habito, que foi fundada 400 anos a.C. pelo povo celta. Descreve a história que os Cónios, denominados, como os Cornistorgis, foram uma população que, nesses recuados tempos, coabitaram no burgo. No século III, também a.C., foram os cartagineses que terão restabelecido o maior tempo de permanência no lugar, sendo, contudo, a civilização romana aquela que romanizou as populações por ali existentes.

O nome de Pax Júlia surge intrinsecamente ligado ao período do Império Romano. Pax Júlia teve honras de metrópole e de uma enorme grandiosidade na Península Ibérica, albergando então uma das três jurisdições romanas da Lusitana. O Imperador Augusto terá sido o homem que deu origem ao nome de Pax Júlia. No ano de 1162 os cristãos reconquistaram o burgo e em 1524, a cidade recebeu o foral, mas antes, 1517, já tinha sido elevada a cidade.

Poder-se-á afirmar, com elevada segurança, que Beja foi berço de notáveis famílias. J de pedagogos e de humanistas na era do Renascimento. Diogo Gouveia, Francisco Xavier, conselheiro dos reis, D. Manuel I e de D. João III de Portugal, André Gouveia e António Gouveia, sintetizam algumas das figuras que brilharam no palco do humanismo em Portugal.

Conta a história que a primeira restauração dos muros de Beja, teve lugar no reinado de D. João III com recursos oriundos, por 10 anos, de dois terços dos dízimos das igrejas existentes, à época, na velhinha urbe. Diz ainda a lenda Beja, que esta foi uma pequena localidade rodeada por matagais onde uma cobra assassina se apresentava como um dos maiores problemas, e dúvidas. para a população em geral, sendo que solução do dilema passou por assassinar a serpente. O efeito gerado terá originado a morte de um touro que envenenado pela serpente, sucumbi-o. Neste contexto, eis-nos perante o brasão da cidade que exibe a presença de uma cabeça de touro. 

1ª página do jornal “República”, 2 de fevereiro de 1962, Recorte recolhido, com a devida vénia, por via da Internet

A história do Regimento de Infantaria (RI3), em Beja, é longa e a sua origem remonta ao ano 1648. É óbvio que não entramos pelo fastidioso texto em atravessar o campo da pormenorização. Mas, há um feito aventureiro que marcou o Estado Novo: o assalto ao quartel na noite de 31 de dezembro de 1961 para o de 1 de janeiro de 1962.

Tinha então11 anos e lembro-me desse acontecimento. Morava com a minha tia Maria, o marido, tio António, e filhas, Isabel e Ana, na Rua Ramalho Ortigão nº1, uma rua que nos conduz a outros pontos do Sul do país.

A missão teve como um dos principais protagonistas o capitão Varela Gomes (1924-2018). O assalto tinha incumbência uma ação contra o Regime. Na aventureira intentona participaram Manuel Serra, que antes tinha chefiado os civis no Golpe da Sé, o major Francisco Vasconcelos Pestana, o capitão Pedroso Marques, o tenente Brissos de Carvalho e Fernando Piteira Santos. No golpe estiveram envolvidos alguns civis, só que o objetivo não correu de acordo com os planos previamente delineados. Houve “negas” de última hora, resultando da negação dos militares, que viraram o bico ao prego, dois mortos ao que se soube. O major Galapez, segundo comandante do quartel, fez resistência, o golpe falhou e Varela Gomes foi gravemente ferido.

Com o rebentamento da guerrilha Ultramarina, primeiro em Angola, seguindo-se Moçambique e depois Guiné, constata-se que o RI3, de Beja, terá sido um antro onde foram depositados ao longo dos anos milhares de jovens camaradas com destino às três frentes de guerra. Ao largo da década de 1960 e princípios dos anos de 1970, tive a oportunidade de ver magotes de jovens rapazes que chegavam à velha Pax Júlia para se iniciarem no serviço militar obrigatório.

Envergando uma farda verde, uma boina que por vezes pouco ou nada se enquadrava com o perímetro da cabeça, de cabelo rapado e calçando umas botas militares de delgada memória, o jovem, feito militar à força, passeava-se pelas ruas da cidade e regozija-se pelo estatuto de homem valente. Enchia o peito e sentia-se já um defensor da Pátria. Por outro lado, a plebe, mais humilde que o fosse, via-os com alguma tristeza perante o futuro próximo do rapazito recém-chegado às fileiras do exército, sabendo o povo que o seu porvir passava consequentemente pela fatídica guerra além-fronteiras.

Ficava, porém, a certeza de que parte deles arranjava namoricos, alguns com criadas de servir em lares abastados, ou seja, de senhores endinheirados, outros ficavam-se pelo pedido de madrinhas de guerra, sabendo eles que ida para a guerrilha estava tão próxima, outros passeavam-se vaidosos pela cidade, outros dispersavam-se pelos cafés e cervejarias. Seguia-se a especialidade e o adeus deste cantinho à beira-mar plantado. E terão sido muitos dos camaradas que no RI3 iniciaram o facto de se tornarem militares. 

Quartel de Gabu envolvido numa selva que nunca “dorme" 

Tocadores improvisados acertavam as mãos nos instrumentos e os camaradas… gostavam!

Guiné esperou-nos

Dando continuidade à linha do tempo, nós antigos combatentes no território da Guiné, concretamente, somos pessoas que nos deparámos com uma selva que nunca “dorme”, que vimos as estrelas a brilhar num breu de uma noite repleta de mistérios, ou uma trovoada noturna onde proliferava o recurso aos nossos “ponchos”. que ouvimos os barulhos estridentes das armas de guerra, que contemplámos situações que jamais esqueceremos, ou de momentos, quiçá únicos, onde os divertimentos vinham à baila, principalmente em tardes de calor intenso onde dar uns toques numa bola se assumia como um prazer enorme, ou das noites passadas na messe de sargentos, onde o toque dos tocadores “deliciaram” a malta, momentos de laser que nos preenchia uma alma que se esvazia num tempo que, entretanto, se esgotava em tácitos objetivos que todos ambicionávamos.

Hoje, resta-nos perspetivar um amanhã melhor, já que as curvas das nossas vidas se limitam à esperança de continuámos a viver.    


José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 

__________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)


5 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Em Beja nasceu, no ano de 1040, o rei e poeta árabe Al Mu'tamid, de seu nome completo Muhammad ibn 'Abbad al-Mu'tamid.

Em 1031, o Califado de Córdova desmoronou-se, dando origem a diversos reinos islâmicos independentes, chamados taifas. Uma das taifas surgidas após a queda do Califado foi a de Sevilha. O último rei de Sevilha, por sua vez, foi o bejense Al Mu'tamid, que ainda antes de ser deposto acrescentou a cidade de Silves aos seus domínios. O seu reinado foi curto, porque entretanto se deu uma invasão vinda do norte de África, a dos Almorávidas, que não só conquistaram as taifas, mas também conquistaram um imenso território ibérico que já era cristão, chegando ao ponto de tomar a própria cidade de Santiago de Compostela, na atual Galiza!

O rei de Sevilha Al Mu'tamid foi levado prisioneiro pelos Almorávidas para Marrocos, onde morreu na prisão no ano de 1095. No seu cativeiro, Al Mu'tamid escreveu aquele que é o seu poema mais conhecido, um poema em que ele recorda a cidade de Silves com saudade. É por isso que o nome de Al Mu'tamid aparece muito mais associado a Silves do que a Beja.

Passo a transcrever o referido poema do alentejano Al Mu'tamid, numa tradução do árabe para português feita por Adalberto Alves.

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abû Bakr,
Os queridos lugares de Silves
E diz-me se deles a saudade
É tão grande quanto a minha.
Saúda o Palácio dos Balcões,
Da parte de quem nunca o esqueceu,
Morada de leões e de gazelas
Salas e sombras onde eu
Doce refúgio encontrava
Entre ancas opulentas
E tão estreitas cinturas.
Moças níveas e morenas
Atravessavam-me a alma
Como brancas espadas
Como lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
Lá no remanso do rio,
Preso nos jogos do amor
Com a da pulseira curva,
Igual aos meandros da água,
Enquanto o tempo passava...
Ela me servia vinho:
O vinho do seu olhar,
Às vezes o do seu copo,
E outras vezes o da boca.
Tangia-me o alaúde
E eis que eu estremecia
Como se estivesse ouvindo
Tendões de colos cortados.
Mas se retirava as vestes
Grácil detalhe mostrando,
Era ramo de salgueiro
Que me abria o seu botão
Para ostentar a flor.

Al Mu'tamid (1040-1095)

Paulo Santiago disse...

Estive em Beja, RI3, nos meses de Julho,Agosto,Setembro de 1970 que antecederam a ida para a Guiné em Outubro.
Dei uma recruta a um pelotão em que a maioria dos soldados era da região de Lisboa.
O comandante era o Cor Calapez que diziam ter virado a casaca quando do assalto ao quartel,tendo sido ele a atingir o,à data, Cap. Varela Gomes. Havia uma parede com marcas de tiros.
Senti em Beja mais calor que na Guiné,onde era mais incomodativo devido à grande percentagem de humidade.

Antº Rosinha disse...

Segundo o que é relatado sobre Varela Gomes, um dos gestos dele pós 25 de Abril, foi com a ajuda de operários da Sorefame, que retirou as letras de Salazar da ponte do Tejo.
O antisalazarismo dele terá ficado bem conseguido, simbolicamente melhor representado do que por políticos com nomes politicamente mais sonantes.
Atenção, como este blog é sobre a guerra colonial, devemos sublinhar que militares como Varela Gomes, Henrique Galvão, Humberto Delgado, sobejamente antisalazaristas, não está provado que fossem anticolonialistas.

Eduardo Estrela disse...

A sabedoria dos homens grandes resulta da sua experiência de vida e dos ensinamentos que a mesma lhe transmitiu. Explica lá então António Rosinha, já não digo ao resto da malta do blogue mas a mim, como coexistia essa vertente de ser antisalazarista e não ser anticolonialista e/ou vice versa.
A tua condição de homem grande saberá explicar.
Abraço
Eduardo Estrela

Antº Rosinha disse...

Eduardo, dos três aquele que deixou a vida dele bem documentada, como apaixonado pelas colónias, e deixou rasto e saudade em Angola entre os brancos e menos brancos, (colon), foi H, Galvão.
Mas junta. a estes o general Norton de Matos, documentadíssimo, este mais velho, mas contemporâneo deles todos, e de muita gente como Botelho Moniz etc.
E H. Delgado, eleições em 1958, tudo votou nele em Luanda, Nova Lisboa Benguela, etc. todos, menos os indígenas claro, que não estariam recenseados nem sabiam quem era o homem.
Eu também não votei, não tinha idade, mas já tinha iniciado a minha profissão.
Eduardo, em 1961 jamais eu pensava dedicar 1 minuto a qualquer tipo de política, e ainda hoje não ligo meia, apenas observo o que se passou e o que vi e ouvi e li.