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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)











Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Alberto Branquinho (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1.  A IA é uma menina muito púdica. Lida mal (ou não sabe de todo lidar) com a nudez, o corpo humano,  etc. E não adianta citar-lhe o aforismo hipocrático, "Naturalia non sunt turpia" (o que é natural, não envergonha). Foi o cabo dos trabalhos para "fabricar" estas pranchas de BD... Mas cá estão, depois de uma suada e assanhada negociação e de algum trabalho de "corte e costura", ilustrando este microconto (ou pequena crónica) com que o Alberto Branquinho abre o seu último livro, "Inventarium Vitae" (*).

Sim, porque a nossa aventura, antes de sermos chamados para "servir a Pátria", começava, um ou dois anos antes, com a "ida às sortes", ou seja, à "inspeção militar"... Dois dos nossos grandes humoristas, antigos combatentes, membros do nosso blogue, o Jorge Cabral e o Alberto Banquinho, escreveram sobre a "inspeção militar"... Ou mais exatamente sobre a "junta médica militar" de cujo veredicto dependia a sorte ou o azar dos mancebos que o exército queria nas suas fileiras, no tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal

Temos cerca de duas dezenas de referências ao descritor "inspeção militar". Mas em geral o ângulo de abordagem é o do "dia das sortes", e o que isso representava como "rito de passagem" (do mancebo para o adulto), a sua importância social e cultural no "Portugal profundo" do antigamente... 


Alberto Branquinho
O ato médico em si, de verificação da fisiologia e anatomia dos mancebos, e as cenas mais hilariantes ou mais humilhantes que podia originar, escapa à maior parte dos autores que, "ad hoc", escreveram aqui no blogue sobre o assunto. 

Para o Jorge Cabral, genial humorista, a inspeção médica resumia-se afinal a "tê-los (ou não) no sítio" (sic), uma expressão idiomática bem portuguesa que consagrava o culto do machismo (o "cabra-matcho", da rapaziada do PAIGC). 

Esta, a "Inspeção Militar", do "alfero Cabral",  é uma das histórias de antologia do humor de caserna. Que haveremos de republicar, por estes dias de canícula.  

Outra história, de  fina ironia e clínica observação,  é do Alberto Branquinho, que publicamos hoje, com a devida vénia ao autor e à editora.  É como que um  "aperitivo",  
um convite e uma sugestão para os nossos leitores comprarem e lerem o livro. Reservamos, para outra ocasião, 
e para a série "Nomadizações de um marginal-secante", a análise mais detalhada do texto.

  
A . Exame para ir à guerra

por Alberto Branquinho


Estavam quase todos despidos, embora alguns ainda estivessem com meias e sem sapatos e outros com meias e sapatos calçados.

Uma mulher. de bata vestida, mas não abotoada, com cerca de 50 anos, chegou junto à porta. Acertou os óculos no nariz, olhou os rapazes, levantou uma folha de papel à altura dos olhos e chamou três nomes. Aproximaram-se os três. Ela observou-os Um deles tapava o sexo com ambas as mãos.

 Oh!,  oh!,  que é isso ? Estás com medo que te caiam ao chão ? Venham comigo.

Entraram num salão grande, com chão e paredes em cantaria. Estavam mais dois homens de bata, um com estetoscópio ao pescoço. Fazia frio lá dentro.

Foram pesados, medida a altura e observados os corpos nus, mandando-os rodar, mostrando frente e costas. Quando julgavam necessário, faziam a observação mais cuidada de alguma parte do corpo.

 Aqui parece que há varicocele (#)  — disse a enfermeira, palpando os testículos de um dos rapazes.

O médico, sentado à secretária, olhou por cima dos óculos.

 Abre mais as pernas, rapaz!  — ordenou ela.

Voltou a apalpar, agora com ambas as mãos.

— Não é nada, doutor. Está tudo bem.

A inspecção dos três foi dada por terminada. O médico, ainda sentado, estava a tomar notas. Recebeu os papéis, olhou, arrumou bem as folhas e, depois, olhou na direcção deles:

 — Podem vestir-se. Boa sorte! 

Mais tarde, consultadas as listas afixadas, constataram: "Apurado para todo o serviço militar".

In: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026),  pp. 13-14 

(#) LG: Varicocele=dilatação varicosa das veias que drenam os testículos; surge na puberdade;  pode ser causa de infertilidade.

__________________

Nota do editor LG:

(*) Ultimo poste da série > 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)

5 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Alberto, é uma escrita de primeira água, um micronto de antologia, dos muitos que tens escrito. Mas, repara: não era vulgar, nessa época, na 1ª metade dos anos 60, por volta de 1965, ver enfermeiras a integrar as "juntas médicas militares" concelhias... Mas isso passa-se no país profundo, Vila Nova de Foz Coa, onde tu terás feito a tua inspeção militar...

A enfermeira é descrita como uma típica "matrona", uma mulher dessexualizada, de 50 anos, óculos no nariz, bata branca desabotoada...Tinha que ser um "solteirona", já que até 1963 as enfermeiras não podiam casar...E esta não podia ser enfermeira paraquedista (figura criada em 1961, à pressa, quando Angola estava a ferro e fogo)...

Este pormenor vem enriquecer bastante a leitura do teu texto (que não é ficcionado, todos nós passámos por estas "cenas", caricatas, para não dizer aviltantes: o exame era tudo menos médico, era um ato mercamente burocrático, só se rejeitavam os cegos, surdos e mudos; recordo-me que no meu tempo foi feito na acanhada sala das reuniões municipais do antigo edifício dos paços do concelho, sem qualquer recato nem privacidade)...Mas não me lembro de nenhuma enfermeira... Estávamos em 1967... e já aprocissão da guerra do ultramar ia no adro...

Alberto Branquinho disse...

Luís
Fui à inspecção na localidade onde, então, residia - Covilhâ - mais propriamente no próprio quartel, que, agora, é utilizado como parte das instalações da Universidade da Beira Interior. E estava uma mulher com uma bata branca que fazia parte da equipa..

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O testemunho do Alberto Branquinho, que foi à inspeção na Covilhã, em meados dos anos 60, é preciosíssimo!|

Nos anos 1960, as juntas de inspeção e recrutamenmto militar eram presididas por um ofial (superior) do exército, e integravam oficiais médicos do Exército, normalmente apoiados por pessoal administrativo e por sargentos e/ou praças.

O ambiente era, de facto, quase exclusivamente masculino. Ou fortemente masculinizado. A presença de uma mulher, como recorda o Alberto Branquinho, não era a regra, mas também não era um caso extraordinário, sobretudo nas cidades de média dimensão.

Há vários fatores que ajudam a explicar essa presença: as inspeções envolviam milhares de mancebos todos os anos. Após o início da Guerra Colonial, em 1961, o volume de recrutas aumentou exponencialmente. Em muitos distritos tornou-se necessário reforçar as equipas com pessoal civil de saúde.

Era frequente recorrer a profissionais civis. Os médicos militares eram insuficientes para assegurar todas as inspeções, sobretudo nas sedes de concelho e nos períodos de maior afluência. Assim, podiam colaborar: delegados concelhios de saúde; médicos dos hospitais civis; médicos municipais; enfermeiras e enfermeiros dos serviços de saúde pública; ocasionalmente, pessoal hospitalar das Santas Casas da Misericórdia ou de hospitais distritais, conforme as necessidades locais.

A mulher de bata branca que o Alberto descreve era muito provavelmente uma enfermeira ou auxiliar de enfermagem. Não seria membro da junta deliberativa, já que essa função competia, técnica e legalmente. aos médicos militares, mas podia desempenhar tarefas como: preparar os inspecionandos; medir peso e altura; registar dados; auxiliar nos exames clínicos (que eram muito rudimentares, e feitos à pressa); manter a ordem e o fluxo dos candidatos.

No caso concreto da Covilhã, o testemunho do Alberto Branquinho parece perfeitamente credível. A Covilhã era sede de distrito militar e dispunha de hospital e de serviços de saúde minimamente organizados. Não surpreende que uma enfermeira civil colaborasse nas inspeções realizadas no quartel.

Portanto, sonbre a realidade de meados dos anos 60, podemos dizer que, embora as juntas de inspeção militar fossem compostas essencialmente por oficiais médicos do Exército, homens. não era raro encontrarem-se enfermeiras ou outro pessoal civil de saúde a colaborar nos exames dos mancebos, sobretudo a partir de 1961, quando o esforço de mobilização para a Guerra do Ultramar aumentou significativamente e os recursos sanitários militares se revelaram manifestamente insuficientes.

Não há legislação (pelo menos ainda não encontrámos...) que estabeleça, de forma sistemática, o recurso aos pequenos hospitais das Misericórdias (concelhios) ou aos serviços concelhios de saúde pública (reduzidos, muitas vezes, ao delegado de saúde e a uma enfermeira). Sabe-se, porém, que essa colaboração existiu em alguns locais, como a cidade da Covilhã (e outras), por necessidade prática. Mas precisamos de mais testemunhos orais que a confirmem. Em resumo, não era ainda prática corrente.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Claro que já existiam as enfermeiras paraquedistas...Mas aqui convém separar os contextos. A criação desse corpo, em 1961, foi uma iniciativa da Força Aérea Portuguesa , e não do Exército (que era muito mais conservador).

Eram voluntárias com formação militar e paraquedista, destinadas à evacuação aeromédica e ao apoio sanitário nos teatros de guerra de Angola, Guiné e Moçambique.

A sua existência não teve relação direta com o funcionamento das juntas de inspeção militar no continente. Essas enfermeiras pertenciam à Força Aérea e constituíam um corpo muitíssimo reduzido e altamente especializado.

Aliás, uma curiosidade histórica: as enfermeiras paraquedistas foram as primeiras mulheres portuguesas a integrar as Forças Armadas em regime militar, rompendo uma tradição secular de exclusão feminina. Mas iriam permanecer uma exceção durante muitos anos.

Fernando Ribeiro disse...

Por que raio é que uma mulher presente numa junta de inspeção militar (ou lá como é que aquilo se chamava) haveria de ser uma enfermeira e não uma médica? Nos anos 60 não havia só médicos do sexo masculino, também havia mulheres. Eu mesmo, aos 9 anos de idade, fui operado aos olhos por uma médica oftalmologista. Por uma mulher.

Numa inspeção não havia motivo nenhum para a presença de uma enfermeira ou de um enfermeiro. Não era preciso aplicar injeções, nem imobilizar membros fraturados, nem desinfetar feridas abertas, nem aplicar clisteres, nem... nem... Tratava-se apenas de verificar se os mancebos presentes à inspeção eram sãos e escorreitos e se «os tinham no sítio». Uma enfermeira estaria ali a fazer o quê?