Sim, porque a nossa aventura, antes de sermos chamados para "servir a Pátria", começava, um ou dois anos antes, com a "ida às sortes", ou seja, à "inspeção militar"... Dois dos nossos grandes humoristas, antigos combatentes, membros do nosso blogue, o Jorge Cabral e o Alberto Banquinho, escreveram sobre a "inspeção militar"... Ou mais exatamente sobre a "junta médica militar" de cujo veredicto dependia a sorte ou o azar dos mancebos que o exército queria nas suas fileiras, no tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quarta-feira, 22 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)
Prompt e orientação editorial: Luís Graça
Texto: Alberto Branquinho (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].
1. A IA é uma menina muito púdica. Lida mal (ou não sabe de todo lidar) com a nudez, o corpo humano, etc. E não adianta citar-lhe o aforismo hipocrático, "Naturalia non sunt turpia" (o que é natural, não envergonha). Foi o cabo dos trabalhos para "fabricar" estas pranchas de BD... Mas cá estão, depois de uma suada e assanhada negociação e de algum trabalho de "corte e costura", ilustrando este microconto (ou pequena crónica) com que o Alberto Branquinho abre o seu último livro, "Inventarium Vitae" (*).
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5 comentários:
Alberto, é uma escrita de primeira água, um micronto de antologia, dos muitos que tens escrito. Mas, repara: não era vulgar, nessa época, na 1ª metade dos anos 60, por volta de 1965, ver enfermeiras a integrar as "juntas médicas militares" concelhias... Mas isso passa-se no país profundo, Vila Nova de Foz Coa, onde tu terás feito a tua inspeção militar...
A enfermeira é descrita como uma típica "matrona", uma mulher dessexualizada, de 50 anos, óculos no nariz, bata branca desabotoada...Tinha que ser um "solteirona", já que até 1963 as enfermeiras não podiam casar...E esta não podia ser enfermeira paraquedista (figura criada em 1961, à pressa, quando Angola estava a ferro e fogo)...
Este pormenor vem enriquecer bastante a leitura do teu texto (que não é ficcionado, todos nós passámos por estas "cenas", caricatas, para não dizer aviltantes: o exame era tudo menos médico, era um ato mercamente burocrático, só se rejeitavam os cegos, surdos e mudos; recordo-me que no meu tempo foi feito na acanhada sala das reuniões municipais do antigo edifício dos paços do concelho, sem qualquer recato nem privacidade)...Mas não me lembro de nenhuma enfermeira... Estávamos em 1967... e já aprocissão da guerra do ultramar ia no adro...
Luís
Fui à inspecção na localidade onde, então, residia - Covilhâ - mais propriamente no próprio quartel, que, agora, é utilizado como parte das instalações da Universidade da Beira Interior. E estava uma mulher com uma bata branca que fazia parte da equipa..
O testemunho do Alberto Branquinho, que foi à inspeção na Covilhã, em meados dos anos 60, é preciosíssimo!|
Nos anos 1960, as juntas de inspeção e recrutamenmto militar eram presididas por um ofial (superior) do exército, e integravam oficiais médicos do Exército, normalmente apoiados por pessoal administrativo e por sargentos e/ou praças.
O ambiente era, de facto, quase exclusivamente masculino. Ou fortemente masculinizado. A presença de uma mulher, como recorda o Alberto Branquinho, não era a regra, mas também não era um caso extraordinário, sobretudo nas cidades de média dimensão.
Há vários fatores que ajudam a explicar essa presença: as inspeções envolviam milhares de mancebos todos os anos. Após o início da Guerra Colonial, em 1961, o volume de recrutas aumentou exponencialmente. Em muitos distritos tornou-se necessário reforçar as equipas com pessoal civil de saúde.
Era frequente recorrer a profissionais civis. Os médicos militares eram insuficientes para assegurar todas as inspeções, sobretudo nas sedes de concelho e nos períodos de maior afluência. Assim, podiam colaborar: delegados concelhios de saúde; médicos dos hospitais civis; médicos municipais; enfermeiras e enfermeiros dos serviços de saúde pública; ocasionalmente, pessoal hospitalar das Santas Casas da Misericórdia ou de hospitais distritais, conforme as necessidades locais.
A mulher de bata branca que o Alberto descreve era muito provavelmente uma enfermeira ou auxiliar de enfermagem. Não seria membro da junta deliberativa, já que essa função competia, técnica e legalmente. aos médicos militares, mas podia desempenhar tarefas como: preparar os inspecionandos; medir peso e altura; registar dados; auxiliar nos exames clínicos (que eram muito rudimentares, e feitos à pressa); manter a ordem e o fluxo dos candidatos.
No caso concreto da Covilhã, o testemunho do Alberto Branquinho parece perfeitamente credível. A Covilhã era sede de distrito militar e dispunha de hospital e de serviços de saúde minimamente organizados. Não surpreende que uma enfermeira civil colaborasse nas inspeções realizadas no quartel.
Portanto, sonbre a realidade de meados dos anos 60, podemos dizer que, embora as juntas de inspeção militar fossem compostas essencialmente por oficiais médicos do Exército, homens. não era raro encontrarem-se enfermeiras ou outro pessoal civil de saúde a colaborar nos exames dos mancebos, sobretudo a partir de 1961, quando o esforço de mobilização para a Guerra do Ultramar aumentou significativamente e os recursos sanitários militares se revelaram manifestamente insuficientes.
Não há legislação (pelo menos ainda não encontrámos...) que estabeleça, de forma sistemática, o recurso aos pequenos hospitais das Misericórdias (concelhios) ou aos serviços concelhios de saúde pública (reduzidos, muitas vezes, ao delegado de saúde e a uma enfermeira). Sabe-se, porém, que essa colaboração existiu em alguns locais, como a cidade da Covilhã (e outras), por necessidade prática. Mas precisamos de mais testemunhos orais que a confirmem. Em resumo, não era ainda prática corrente.
Claro que já existiam as enfermeiras paraquedistas...Mas aqui convém separar os contextos. A criação desse corpo, em 1961, foi uma iniciativa da Força Aérea Portuguesa , e não do Exército (que era muito mais conservador).
Eram voluntárias com formação militar e paraquedista, destinadas à evacuação aeromédica e ao apoio sanitário nos teatros de guerra de Angola, Guiné e Moçambique.
A sua existência não teve relação direta com o funcionamento das juntas de inspeção militar no continente. Essas enfermeiras pertenciam à Força Aérea e constituíam um corpo muitíssimo reduzido e altamente especializado.
Aliás, uma curiosidade histórica: as enfermeiras paraquedistas foram as primeiras mulheres portuguesas a integrar as Forças Armadas em regime militar, rompendo uma tradição secular de exclusão feminina. Mas iriam permanecer uma exceção durante muitos anos.
Por que raio é que uma mulher presente numa junta de inspeção militar (ou lá como é que aquilo se chamava) haveria de ser uma enfermeira e não uma médica? Nos anos 60 não havia só médicos do sexo masculino, também havia mulheres. Eu mesmo, aos 9 anos de idade, fui operado aos olhos por uma médica oftalmologista. Por uma mulher.
Numa inspeção não havia motivo nenhum para a presença de uma enfermeira ou de um enfermeiro. Não era preciso aplicar injeções, nem imobilizar membros fraturados, nem desinfetar feridas abertas, nem aplicar clisteres, nem... nem... Tratava-se apenas de verificar se os mancebos presentes à inspeção eram sãos e escorreitos e se «os tinham no sítio». Uma enfermeira estaria ali a fazer o quê?
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