sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Guiné 61/74 - P24014: "Una rivoluzione...fotogenica" (7): Roel Coutinho, médico neerlandês, de origem portuguesa sefardita, cooperante, que esteve ao lado do PAIGC, em 1973/74 - Parte VI: O quotidiano dos guerrilheiros na base de Hermacono (Senegal)...


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermangono > PAIGC > 1974 > Comandante militar / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 11 - Hermangono, Guinea-Bissau - Military commander of Hermangono, Northern Guinea-Bissau - 1974


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermangono > PAIGC > 1974 >  Camas dos combatentes escavadas no chão / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 13 - Hermangono, Guinea-Bissau - Military trench beds - 1974


Guiné > PAIGC > Região Norte, fronteira com o Senegal >  Soldado com a sua mulher / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 14 - Hermangono, Guinea-Bissau - Soldier with wife - 1974.tif

Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 > Combatentes em frente a uma palhota /Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 18 - Hermangono, Guinea-Bissau - Soldiers in front of a hut - 1974


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal > Hermacono > PAIGC > 1974 > Dois combatentes em frente a uma palhota, com uma criança / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 21 - Hermangono, Guinea-Bissau - Soldiers in front of a hut with a child - 1974


 
Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 >  Combatentes e carregadores num momento de descanso./ Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 22 - Hermangono, Guinea-Bissau - Soldiers and carriers relaxing - 1974


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 > Dois combatentes "à volta do tacho"/ Foto; ASC Leiden - Coutinho Collection - D 17 - Hermangono, Guinea-Bissau - Soldiers cooking - 1974


 Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 >Dois combatentes, no intervalo da guerra, fazendo o seu TOC escolar... / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 15 - Hermangono, Guinea-Bissau - Military learning to read and write - 1974


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal > Hermacono > PAIGC > 1974 > A formatura da alvorada / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 19 - Hermangono, Guinea-Bissau - Morning roll call in Hermangono - 1974


 Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 > Inspeção às "tropas" (i) ... / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 16 - Hermangono, Guinea-Bissau - Military inspection in Hermangono - 1974


 Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 > Inspeção às "tropas" (ii) ... / Foto: :ASC Leiden - Coutinho Collection - D 20 - Hermangono, Guinea-Bissau - Morning roll-call in Hermangono - 1974


Guiné > Região Norte, fronteira com o Senegal  > Hermacono > PAIGC > 1974 > Uma saída  / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - D 12 - Hermangono, Guinea-Bissau - Military on the way - 1974



Fonte: Wikimedia Commons > Guinea-Bissau and Senegal_1973-1974 (Coutinho Collection) (Com a devida vénia...) . Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)
 
1. Roel Coutinho é um prestigiado médico, epidemiologista e professor, hoje jubilado, de epidemiologia e prevenção de doenças transmissíveis,  nascido em 1946, nos Países Baixos, em Laren, perto de Amesterdão, província da Holanda do Norte. Licenciou-se em medicina em 1972, esteve no Senegal e na Guiné-Bissau em 1973/74 em visita ao PAIGC, em missão sanitária. Especializou-se depois em microbiologia médica, doutorou-se em 1984, em doenças sexualmente transmissíveis; é um especialista mundial em HIV/Sida, com mais de 600 artigos publicados em revistas científicas. 

Tem ascendência portuguesa, e judaica: os antepassados, marranos ou cristãos-novos, devem ter saído de Portugal para a Holanda  no séc. XVII.  Os portugueses, cristãos novos, e de novo reconvertidos ao juadaísmo, constituíam uma comunidade prestigiada, pela cultura, o dinheiro e o poder. Sempre uaram os seus apelidos portugueses.  Prova doo seu estatuto, é a "Esnoga", a monumental Sinagoga Portuguesa, em Amsterdão, que chegou a ter 3 a 4  mil fiéis; hoje a comunidade está reduzida a umas escassas centenas de pessoas: espantosamente o edifício da "Esnoga Portuguesa", do séc. XVII, escapou à destruição da II Guerra Mundial e à ocupação nazi; é visita obrigatória para os portugueses que forem a Amesterdão.

Da coleção Coutinho, relativa à sua visita ao PAIGC na Guiné e no Senegal, entre março de 1973 e abril de 1974, apresentamos hoje uma seleção de imagens, editadas por nós, relativas ao quotidiano dos combatentes do PAIGC em Hermangono, na "região Norte,  junto à fronteira do Senegal".  

Como fotógrafo (amador), Coutinho não se deixou deslumbrar pelas armas nem pela guerra... Não são muitas as fotos dos combatentes, privilegiou antes outros aspectos da vida no "mato" (para usar um termo caro às NT):  a prestação de cuidados de saúde, a educação, a população, etc.

2. Não conseguimos, até hoje, localizar este lugar, Hermangono (ou Hermacono, segindo a 2ª Rep QG/CC/FAG.  

Segundo a instituição a quem foi doada a coleção de mais de um milhar de fotos e "slides", o African Studies Centre (ASC), Leiden, Hermangono seria "uma pequena aldeia na Guiné-Bissau, a um dia de distância da fronteira senegalesa", mas não se sabe a sua exata localização... 

Também não encontrámos este topónimo, nem na "Crónica da Libertação", do Luís Cabral (Lisboa, O Jornal, 1984), nem no Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum, nem nas nossas antigas cartas militares.

Pergunta-se a quem sabe: Hermangono (ou Hermacono)  seria no corredor de Sambuíá, que tinha início em Cumbamori?

3. Alguns pormenores interessantes sobre os combatentes do PAIGC aqui fotografados:

(i) não viviam nem dormiam em "resorts" turísticos de "luxo": os nossos, apesar de tudo, sempre eram melhores; 

(ii) não há estruturas edificadas, de alvenaria, nem propriamente abrigos ou trincheiras, e a camuflagem não era "famosa"; 

(iii) quase todos calçam sandálias de plástico, provavelmente "made in China"; 

(iv) o fardamento é de diferentes tipologias e cores;

(v) parte deles estão à civil; 

(vi) alguns tinham família (uma ou mais esposas, filhos); 

(vii) não tinham "rações de combate", tinham que fazer a sua própria "bianda" (não há messe nem cantina...);

(viii) aparentam ser jovens, alguns deviam ter sido recrutados recentemente, apesar das crescentes dificuldades do PAIGC em renovar as suas fileiras; 

(ix) as formaturas têm todo o ar de terem sido feitas para a "fotografia", para o "jovem amigo e médico holandês";

(x) botas, relógios de pulso e rádios portáteis deviam ser um privilégio (isto é, só para alguns, o comandante de bigrupo, o comissário político); 

(xi) não se veem armas pesadas;

(xii) Hermangono parece ser mais um "barraca" do que uma base (como Morés ou Sara) (e, pelo aparente à vontade dos seus  habitantes podia estar já situada em território senegalês, com menos riscos de ser bombardeada pela aviação ou pela artilharia dos "colonialistas"); 

(xiii) estamos, de resto, numa altura, 1.º trimestre de 1974 (as fotos devem ser de março / abril), em que o PAIGC já tinha carta branca do Senghor para poder circular pelo Senegal, com "armas e bagagens" (os primeiros anos não nada foram fáceis, segundo o testemunho do Luís Cabral nas suas memórias).
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Nota do editor:

Último poste da série > 13 de janeiro de 2023> Guiné 61/74 - P23977: "Una rivoluzione...fotogenica" (6): Roel Coutinho, médico neerlandês, de origem portuguesa sefardita, cooperante, que esteve ao lado do PAIGC, em 1973/74 - Parte V: os "hospitais" do mato e o pessoal de saúde cubano

7 comentários:

antónio graça de abreu disse...

E foram estes homens, não mais de 5 mil guerrilheiros do PAIGC, muitos deles no Senegal e na Guiné Conacri, que em 1974 infligiram uma derrota militar às Forças Armadas portuguesas, 40 mil homens, com 9 mil combatentes africanos a combater ao lado da Nossas Tropas... Quem acredita nestas histórias da carochinha? Acredita o Mário Beja Santos, por exemplo.

Abraço,

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Caros amigos,

As botas militares e fardas de camuflado que se vêm nas imagens intrigam a minha imaginação, pois não me parece que fizessem parte do equipamento militar do PAIGC e são muito semelhantes ao equipamento usado pelos militares portugueses na guerra da Guiné.

Se esta conjectura for certa, então das duas uma: Ou o PAIGC e o exército Português teriam o mesmo fornecedor ou os guerrilheiros abasteciam-se a custa do exército português. Como?...Não sei, talvez alguém me possa ilucidar. De qualquer modo, nessas condições de vida no mato, atravessando bolanhas alagadas, as sandálias seriam muito mais práticas e confortáveis do que as pesadas botas de cabedal.

Caro AGA, a estimativa dos guerrilheiros na parte final do conflito seria de aproximadamente 10 Mil combatentes distribuídos entre forças do exército, marinha e milícias populares. Mas atenção, um guerrilheiro com mais de 7/8 anos de combate ou mesmo 10/11 não se pode comparar à um miliciano com estudos, contrariado pela situação e que está lá só para salvar a pele.

Mas, também concordo que a haver derrota ela foi política e não militar, pois também eu estava lá e confirmo em como não houve nenhum DIEN-BIEN-PHU.

Com um abraço amigo,

Cherno Baldé

antónio graça de abreu disse...

Claro que os ventos da História empurravam o PAIGC para uma vitória política, o que aconteceu. Mas não confundam as coisas, em 1974 não houve nenhuma derrota militar portuguesa, no terreno, no equilíbrio, ou desiquilíbrio das forças militares. Guileje não foi Dien Bien Phu.

Abraço,

António Graça de Abreu

Valdemar Silva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tabanca Grande Luís Graça disse...

E Hermangono, Cherno, diz-te alguma coisa ?...Mantenhas. Luís

Cherno Baldé disse...

Caro Luís Graça,

O nome da barraca Ermangono ou Ermankono foi muito badalado no período pós-independência, mas não sei ao certo onde se situava, pensava que era na zona de Biambe, entre Binar e Bissorã, agora quando dizes que era na fronteira Norte, a um dia de marcha para o interior, fiquei ainda mais perdido. Vou procurar saber junto de antigos guerrilheiros.

Cdte,

Cherno Baldé

Valdemar Silva disse...

Parece que continuam problemas de consciência, e o "não perdemos a guerra" é como uff! para acalmar não se sabe quem.
Mas, verdadeiramente, também não ganhamos a guerra na Guiné.
A guerra na Guiné foi motivada por o PAIGC querer a descolonização e a independência do território da "província" portuguesa.
A guerra na Guiné, pela sua brutalidade em toda a área do território, com mortos e feridos desde o soldado ao oficial superior, e pelos 10 anos de intensos combates, fez nascer a revolta de militares com um 'isto não pode continuar assim', culpando a ditadura por este facto desastroso.
Nasceu o MFA, a revolução e descolonização da Guiné
A Guiné tornou-se independente como o PAIGC desejava e por isso estava em guerra contra as autoridades portuguesas do território.
O PAIGC não ganhou a guerra mas ganhou a Independência da Guiné e Cabo Verde.
Os portugueses, toda a rapaziada que passou dois anos do caraças estão de consciência tranquila.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz