quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Guiné 61/74 - P24009: Memória dos lugares (448): a "Esnoga", a sinagoga portuguesa de Amesterdão (séc. XVII) e a história incrível da sua comunidade

 


Amsterdão > Interior da Esnoga / Sinagoga Portuguesa. Gravura do séc. XVII. (Cortesia de:

https://www.esnoga.com/en/history-of-the-community/ )

 1. Visitei a Esnoga (ou Sinagoga) Portuguesa de Amesterdão, no início dos anos 90. E fiquei deveras impressionado com a monumentalidade do edifício, em especial o seu interior e sobretudo a história da comunidade judaica, de origem portuguesa, que a construiu e manteve até aos nossos dias. Aliás, foi um "milagre" ter escapado à destruição, durante a II Guerra Mundial, bem como todo o preciosíssimo recheio (incluindo a fabulosa biblioteca Ets Haim - Livraria Montesinos, considerada a biblioteca judaica mais antiga do mundo, em funcionamento). 

A Esnoga é de há muito monumento nacional neerlandês Vale a pena visitá-la (bem como conhecer o histórico bairro  judeu, onde também se situa  a casa de Anne Frank). 


Roel Coutinho, 2016, foto de
Patrick Sternfeld / capa da revista "Benjamin",
junho 2016, ano 28, nº 104.
Com a devida vénia...

Já aqui  falámos, no nosso blogue, do médico neerlandês Roel Coutinho, de origem judaico-portuguesa, que em 1973/74 esteve no Senegal (nomeadamente em Ziguinchor)  e nalgumas bases do PAIGC,  da região Norte (como Sara). O seu espólio fotográfico dessa visita está disponível, por doação,  na Internet (Wikimedia Commons > Guinea-Bissau and Senegal_1973-1974 (Coutinho Collection)

 A família de Roel Coutinho, embora não pertencesse à comunidade religiosa de Amsterdão, a congregação Talmud Tora, foi igualmente vítima das perseguição aos judeus nos Países Baixos durante a II Guerra Mundial. 

Roel Coutinho, nascido em 1946  (em Laren, a sudeste de Amesterdão) e hoje reformado, é uma figura mediática no seu país, com grande prestígio científico e profissional, tendo-se destacado na luta e prevenção do HIV/SIDA, mas também na pandemia  de gripe A (H1N1) em 2009 e mais recentemente 
na pandemia de Covid-19.

O texto que se segue é uma condensação, feita pelo nosso editor LG, a partir de várias fontes.


História da comunidade judaico-portuguesa

 de Amesterdão  (*)


Kahal Kados Talmud Tora, a comunidade judaica portuguesa, é a comunidade judaica mais antiga dos Países Baixos. 

A comunidade foi fundada em 1639 por judeus espanhóis e portugueses que foram forçados a deixar Antuérpia, na Flandres (hoje Bélgica) depois que a cidade ficou sob o domínio espanhol (em 1585) (**). 

Eles já haviam fugido da Espanha e de Portugal para escapar à sanha da Santa Inquisição. Esses sefarditas encontraram um refúgio seguro na tolerante cidade de Amesterdão.

Num curto período de tempo, três comunidades sefarditas foram estabelecidas emAmesterdão: Bet Jacob em 1610, ou 1602, Neve Salom entre 1608 e 1612 e Bet Israel em 1618. As comunidades fundiram-se em 1639 no Talmud Tora, mais tarde conhecido como comunidade judaica portuguesa. (Talmud Tora quer dizer "o estudo da Lei".)

Na época, a Holanda estava a lutar para sair do domínio  espanhol, a razão pela qual  muito provavelmente os sefarditas (e nomedamente os de origem espanhola) abandonaram a designação 'espanhola'.

Muitos dos recém-chegados eram descendentes de judeus que haviam sido batizados à força. Eles eram conhecidos como “marranos” ou “conversos”. Os sefarditas usavam o português para a sua conversação do dia-a-dia, enquanto o espanhol (estamos no séc. XVII)  era usado para publicações científicas, prosa e poesia. 

Inicialmente, os rabinos permitiram o uso do português no culto para facilitar o retorno. à sinagoga, dos "cristãos novos". Quando a maioria dos membros aprendeu o hebraico, o culto foi novamente realizado inteiramente em hebraico. Até hoje os anúncios sobre assuntos profanos são feitos em português.

Rabinos e Hazanim foram inicialmente trazidos da Itália e, às vezes, de Salónica (então parte do império otomano) e Marrocos. 

Mais tarde Amesterdão tornou-se um centro de aprendizagem, e estudos judaicos. Yesiba Ets Haim (escola "Árvore da Vida") foi fundada e logo adquiriu uma extensa biblioteca. A Ets Haim-Livraria Montezinos existe até hoje e é uma das mais importantes bibliotecas judaicas do mundo. Um dos bibliotecários foi David Montezinos (1828-1916) que doou a sua já de si valiossíma biblioteca particular à comunidade, com a condição de que estivesse aberta ao público duas vezes por semana. Sucedeu-lhe Jacob da Silva Rosa (1886-1943) que, infelizmente, iria morrer num campo de concentração. A biblioteca foi levada em 1943 pelos nazis para a Alemanha para guarnecer o "Alfred Rosenberg Institut zur Erforchung der Judenfrage", em Frankurt. As tropas americanas acabaram por resgatar a biblioteca Ets Haim em Offenbach e devolvê-la à comunidade judaico-portuguesa de Amsterdão.

Durante séculos, Amesterdão foi o centro do mundo sefardita ocidental, gerando muitos rabinos, cientistas, filósofos, artistas, comerciantes e banqueiros, que fizeram uma enorme contribuição para a prosperidade da Holanda a partir do Século de Ouro.

Essa proeminência e riqueza encontraram a sua expressão máxima na Esnoga, também conhecido como Snoge, no coração do antigo bairro judeu. ("Esnoga", é um termo arcaico, corruptela de sinagoga, tempo ou assembleia de judeus).

Até hoje, a Esnoga está no coração desta comunidade. A Esnoga, juntamente com a Antiga-Nova Sinagoga em Praga, é a sinagoga em funcionamento mais antiga do mundo.

A construção foi iniciada em 1671 no que era, na altura,  a periferia da cidade. Foi construída em estilo classicista, popular entre a elite da cidade. A sinagoga foi projetada por Elias Boumanque também construiu a Casa De Pinto,  na vizinha Sint Antoniebreestraat.

A comunidade portuguesa inspirou a fundação de comunidades semelhantes em Nova Amesterdão (atual Nova York), Londres e Curaçao. Isso pode ser visto claramente na sinagoga Mikvé Israel-Emanuel em Willemstad, cujo interior é quase uma cópia exata da Esnoga.

Até à Segunda Guerra Mundial existiam também comunidades portuguesas em Den Haag, Naarden, Roterdão e Middelburg.

A perseguição aos judeus naquela época sombria, da ocupação nazi, foi um duro golpe para a comunidade: 3.700 dos 4.300 judeus portugueses (mais de 85%) pereceram. 

No entanto, em 9 de maio de 1945, quatro dias após a libertação da Holanda, os serviços foram retomados na Esnoga, como pode ser visto claramente numa famosa fotografia tirada por Boris Kowadlo. Mostra o parnassino,  o diretor da sinagoga, carregando um rolo de Tora, quase como se nada tivesse acontecido. A Esnoga e seus objetos cerimoniais permaneceram intocados. (Vd. foto à esquerda: reabertura ao cuto da "Esnoga", em 9 de maio de 1945, foto de Boris Kowadlo, cortesia de https://www.esnoga.com/en/history-of-the-community/

Os sobreviventes e seus descendentes trabalharam duramente para reconstruir a comunidade. Hoje, o seu número está a crescer, embora lentamente. Cerca de 250 famílias estão inscritas na comunidade e há cerca de 630 membros.

Os valiosos bens da comunidade, o magnífico edifício, os riquíssimos objetos cerimoniais e a biblioteca Ets Haim-Livraria Montezinos, foram transferidos para uma fundação separada, chamada CEPIG, em 2003. Isso facilitou a arrecadação de fundos e a obtenção de subsídios para a restauração e a manutenção da sinagoga e dos bens da comunidade. Desde janeiro de 2009, o CEPIG é administrado e operado pelo Museu Histórico Judaico, permitindo que a comunidade se concentre nas suas tarefas religiosas e sociais.

Sobre alguns líderes históricos da comunidade, vd. aqui:

(i) Menasseh Ben Israel (1604-1657), também conhecido como Manoel Dias Soeiro, nasceu em 1604 na ilha da Madeira. A família refugiou-se em Amesterdão em 1610. Fundou a primeira tipografia hebraica de Amsterdão. Convivia com a elite cultural da cidade. (...)

(ii) Jacob ben Aaron Sasportas (1610-1698): nasceu em 1610 em Oran (que hoje faz parte da Argélia). Chegou a Amesterdão em 1646...Foi rabi, diplomata, fez oponente do falso Messias (Shabtai Tzvi) (...)

(iii) Irmãos De Pinto:

Isaac, Aron e Jacob nasceram no séc. XVIII, no seio de uma das famílias mais ricas, de comerciantes e banqueiros, de origem judaico-portuguesa. O pai, David de Pinto, figurava na lista dos dez mais ricos portugueses de Amesterdão. A família possuia uma casa senhorial nas margens do rio Amstel, Tulpenburg, e outra em Sint Antoniesbreestraat, conhecida com a Casa De Pinto, desenhada pelo mesmo arquitecto da Esnoga.

Até 1760, os três irmãos alternaram no papel de líderes da comunidade. Jacob de Pinto foi também um conhecido filósofo das Luzes, tendo-se correspondido com Diderot e entrado em polémica com Voltaire (na defesa dos judeus pobres expulsos de Bordéus). (...)

(iv) Samuel Sarphati (1813-1866)

Nasceu no seio de uma família de comerciantes de tabaco. Frequentou a escola médica de Leiden. Doutorou-se em 1839. Estabeleceu-se em Amesterdão como médico de clínica geral. Em contacto com os graves problemas de saúde do emergente proletariado industrial , desenvolveu uma série de projetos que contribuiram em muito para a melhoria da saúde pública e o planeamento urbano de Amesterdão (...)


(v) Num foto dos líderes da comunidade, em 1925, por ocasião do 250º aniversário da Esnoga, podem ver-se 8 personalidades, todas com apelidos bem portugueses

  • A. J. Mendes da Costa (secretário);
  • N. de Beneditty;
  • Dr. E.H. Vaz Nunes;
  • M. Rodrigues de Miranda;
  • M. Álvares Vega;
  • M. Vaz Dias;
  • J. Milhado; e
  • M. Cortissos 

(Fonte:  Judith C. E. Belinfante et al. - The Esnoga: a monument to Portuguese-Jewish culture. Amsterdam, D'Arts, 1991, il, pág. 61). (Capa à direita)

2. Informação adicional sobre a Esnoga (***)

Fica situada próxima do centro histórico de Amesterdão, em frente ao Museu da História Judaica. Endereço: Mr. Visserplein 3, 1011 RD Amsterdam. Horário: segunda e quarta-feira, das 10h00 às 15h00; sexta-feira. das 10h00 às 13h00.
 
O imponente edifício escapou milagrosamente à destruição pelos nazis (a maioria das sinagogas alemãs foram incendiadas). Diz-se que o regime nazi queria fazer naquele local o museu da "raça judaica",  cuja extinção estava planeada com o  Holocausto ou Solução Final...

Em finais do séc. XVI, haveria apenas uma  centena de portugueses em Amesterdão. Em 1610 seriam perto de 200. Por volta de 1725 seriam já 2 500Os sefarditas, os judeus ibéricos,  em breve se tornariam uma minoria, com o afluxo de judeus dos territórios da Europa de Leste (os chamados asquenazes), mais numerosos mas normalmente mais pobres. Os portugueses eram considerados gente culta e bem sucedida, com  dinheiro e influência política. Ainda hoje, os nomes de família portugueses na Holanda   detêm um aura de prestígio.

 A comunidade judaica portuguesa produziu muitas figuras de renome nacional e internacional, como rabinos, escritores, filósofos, banqueiros, médicos, comerciantes, empresários, tais como  Gracia NasiIsaac de PintoDavid RicardoMenasseh ben IsraelIsaac Aboab da FonsecaUriel AcostaBaruch de Espinoza, etc. (****)

[Seleção / Adaptação / Revisão e fixação de texto / Negritos / Notas / Subítulos: LG]
___________

Notas do editor:

(*) Adaptação de Portugees-Israëlietische Gemeente - Amsterdam (https://www.esnoga.com/en/



(**) Sobre Antuérpia > Wikipedia (excerto):

(...) "Quando os portugueses abriram a rota marítima para a Índia, Antuérpia se tornou um centro de comércio ainda mais proeminente, porque o rei de Portugal para lá enviava quase tudo que chegava a Lisboa, vindo da Ásia; as corporações da cidade compravam carregamentos inteiros que daí seguiam para o resto do mundo ofuscando o brilho comercial de Veneza. Transferiram dessa forma a feitoria que na Idade Média mantinham em Bruges. Este facto revelou-se da maior importância para a cidade.

"Com os portugueses, instalou-se igualmente forte colónia mercantil espanhola, passando os negócios das coroas ibéricas a fazer-se maioritariamente por aqui. Assim, ao longo do século XVI, Antuérpia tornou-se um centro da 'economia do mundo'. O volume de negócios financeiros era de tal monta que em 1519 a sucursal alemã, a empresa Fugger, emprestou mais de meio milhão de florins de ouro a Carlos V para patrocinar sua campanha a Imperador do Sacro Império Romano Germânico.

"A prosperidade desta cidade prosseguiu ao longo desse século, atraindo assim inúmeros judeus, expulsos de Portugal, - na sequência da implementação de política antissemita desencadeada pelo governo português, - que buscavam nessa cidade livre grandes oportunidades de enriquecimento. Essa comunidade de exímios mercadores e artesãos enriqueceu o negócio da indústria dos diamantes e, consequentemente, a própria cidade, que passou a contar com a colaboração de artífices especializados no trato comercial.

"Para além de ser um centro económico, Antuérpia era igualmente centro cultural e intelectual. Por exemplo, ali nasceu em 1599 o pintor Anthony van Dyck. No entanto, a sua pujança foi irremediavelmente abalada por problemas religiosos depois de 1567, data em que tropas espanholas saquearam a cidade. Antuérpia foi de novo atacada em 1584, sendo, dessa feita, forçada a render-se aos espanhóis em 1585.

No século XVII, mais precisamente em 1648, foi mais uma vez lesada na sequência da Guerra dos Trinta Anos. Em questão estava o Tratado de Paz de Vestefália, que determinou o encerramento do rio Escalda à navegação, o qual foi reaberto somente em 1795 
pelos franceses" (...)

(***) Vd. Wikipedia > Sinagoga Portuguesa de Amesterdão
 
(****) Último poste da série > 14 de janeiro de 2023 > Guiné 61/74 - P23980: Memória dos lugares (447): Poortugaal, antigo município de origem portuguesa, nos arredores de Roterdão (Valdemar Queiroz)

8 comentários:

Anónimo disse...

De há já algum tempo para cá tenho-me cingido a "passar os olhos” pelos títulos dos post no nosso blogue, pois que, apesar se “reformado" e não sei que mais, o tempo não tem dado para mais. Hoje porém ao ver o título deste último blogue<< a sinagoga portuguesa de Amsterdão … e a história incrível da sua comunidadede.>> , tive de arranjar tempo para o ler. Em boa hora o fiz; e logo decidi deixar um comentário ao nosso camarada Roel Coutinho pelo excelente artigo. Embora nunca tenha visitado Amestardão, por razões várias o assunto não me é totalmente desconhecido. Mas fiquei impressionado pela abrangente, mas sucinta e e bem organizada maneira como o nosso camarada Joel conseguiu em poucas palavras informar e esclarecer sobre o assunto em questão. Parabéns meu caro Joel. Este artigo é ainda mais pertinente porque estamos em vésperas do dia do Holocausto. E por isso permito-me enviar ao Luís Graça mais algumas informações relacionadas com este assunto aqui nos USA e sobre este dia em especial. Deixo ao critério dele o publicar ou não.
Um abraço.
João Crisóstomo, Nova Iorque


Valdemar Silva disse...

Consta que o nazi Alfred Rosemberg, condenado a morte por enforcamento no Tribunal de Nuremberga, teria ficado encantado com o edifício da Sinagoga Portuguesa de Amesterdão.
Embora a sua visita fosse para roubar o que houvesse e depois destruição, como aconteceu com todas as sinagogas, tal não aconteceu e o edifício foi poupado.
Talvez por Rosemberg ter frequentado/estudado arquitectura, teria criado interesse para futura utilização num falado Museu nazi sobre os judeus.
Sobre o Dr. Roel Coutinho falei com o meu filho, mas não descobriu nada sobre ele, a não ser que seja conhecido por outro nome.

Um abraço ao grande amigo João Crisóstomo e que tudo esteja bem lá nos USA.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, João e Valdemar, por darem atenção a este poste que, mesmo não estando assinado (como habitualmente...) é da minha lavra. Fiz um resumo ou condensação a partir de várias fontes... O João percebeu que se tratava de um texto do dr. Roel Coutinho... Não, não o conheço pessoalmente nem ele nos conhece a nós, deve ter mais que fazer...Temo-nos socorrido, no entanto, do seu interessante álbum fotográfico sobre o PAIGC, e noemadamente sobre o quotidiano das populações que o PAIGC controlava na Região Norte e no Senegal...

Mantenhas. LG

Tabanca Grande Luís Graça disse...

João: se quiseres saber mais sobre esta joia da cultura judaico-portuguesa que é a "Esnoga" (séc. XVII, monumento nacional), e como ela chegou praticamente incólome (!) até aos nossos dias (contrariamente à comunidade sefardita que a utilizava, de origem portuguesa, dizimada em mais de 80% pelos nazis), procura este livrinho:

Judith C. E. Belinfante et al. - The Esnoga: a monument to Portuguese-Jewish culture. Amsterdam, D'Arts, 1991, il,95 pp.

Custa-te para aí 5 dolares na Amazom.com

https://www.amazon.com/Esnoga-monument-Portuguese-Jewish-culture/dp/9090043500

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Também concordo que perdemos, com a política antissemita dos nossos reis da II, III e IV dinastia (a partir de Dom Manuel I) uma grande parte dos nossos melhores portugueses, a nossa elite profissional, técnica e científica, a comunidade judaica (e os seus descendentes) obrigados a converterem-se ao cristianiamos ou a terem que procurar novas terras de acolhimento (desde os Países Baixos ao Império Otomano e ao Norte de África, para além das novas terras ultramarinas, a começar por Cabo Verde, o Brasil, etc.).

Continuo a pensar que os quatro cavaleiros do apocalipse são: (i) a estupidez; (ii) a intolerância; (iii) a arrogância; e (iv) a ganância...

Vale a pena citar este trecho da Wikipedia (entrada sobre a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sinagoga_Portuguesa_de_Amesterd%C3%A3o

(...)O historiador António José Saraiva, na sua obra "Inquisição e Cristãos-Novos", viu na saída das comunidades judaicas da península ibérica no século XVI um factor prejudicial para as sociedades e economias ibéricas, anunciando o declínio de Portugal e Espanha no concerto da nações, então no auge da sua influência.

O historiador norte-americano David Landes, ao resumir as posições do Saraiva, assim escreve em "A riqueza e pobreza das nações":

"Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico Sul, eles estavam na linha da frente das técnicas de navegação. A abertura para a aprendizagem com sábios estrangeiros, muitos deles Judeus, tinha trazido conhecimento que se traduzia directamente na aplicação prática, e quando em 1492 os Espanhóis decidiram obrigar os seus Judeus a adoptar o Cristianismo ou a sair, muitos encontraram refúgio em Portugal, então com uma política mais relaxada face ao Judaísmo.

Mas em 1497, pressão da Igreja Romana e de Espanha levou a coroa portuguesa a abandonar esta tolerância. Cerca de 70 000 judeus foram forçados a um baptismo meramente formal. Em 1506, Lisboa viu o seu primeiro pogrom, que matou dois mil Judeus "convertidos" (a Espanha já vinha fazendo o mesmo desde há duzentos anos). A partir daí a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue.

O declínio foi gradual. A Inquisição portuguesa foi instalada apenas na década de 1540 e queimou o seu primeiro herético em 1543; mas só se tornou cruelmente amedrontante a partir de 1580, após a união das coroas portuguesa e espanhola sob a pessoa de Filipe II de Espanha. Entretanto, os cripto-judeus, incluindo Abraão Zacuto e outros astrónomos, acharam a vida em Portugal suficientemente perigosa para saírem em grandes números.

… Os cientistas, matemáticos e físicos cripto-judeus do passado tinham saído. Nenhuma outra minoria dissidente apareceu para tomar o lugar deles… se os ganhos da troca de mercadorias são importantes, esses ganhos são ainda pequenos comparados com os ganhos da troca de ideias". (...)

Valdemar Silva disse...

"Mas em 1497, pressão da Igreja Romana e de Espanha levou a coroa portuguesa a abandonar esta tolerância. Cerca de 70 000 judeus foram forçados a um baptismo meramente formal..."

Admira-me o resumo de David Landes não fazer referência a uma das principais razões da perseguição e conversões forçadas de judeus, ter a ver com a promessa de casamento do D. Manuel com Isabel herdeira do trono de Aragão e Castela, viúva do seu primo. D. Manuel já andava por Espanha a ver o seu novo Reino e D. Isabel morreu, ficando por realizar o que mais tarde aconteceu, ao contrário, com os Filipes reis da coroa Portuguesa.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Terá sido a "ambição desmedida" do nosso Dom Manuel I que o levaria a alinhar-se pela "política intolerante" (para com as minorias religiosas, judeus e mouros) dos "reis católicos", depois conquista de Granada (em 1492)...

A inicial política de tolerância para com os judeus justificava-se porque o rei precisava deles para continuar a sua política expansionista: formavam uma elite financeiro e cultural poderosa...

No entanto o sonho do nosso "Venturoso" de vir a ser o imperador desta "jangada de pedra", que era a Ibéria, casando com a herdeira do trono de Espanha, Isabel de Aragão (e acentando as pressões dos sogros), teve consequências perversas... O tiro saiu-lhe pela culatra, como sabemos...

Valdemar Silva disse...

Ainda sobre a Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, e o ter escapado à fúria destruidora dos nazis, terá sido por culpa do nazi Alfred Rosenberg a interferência nesse facto por ele ter um fascínio por Bento (Baruch, Benito) Espinoza.
No livro "O Problema de Espinoza", de Irvin D. Yalon, temos conhecimento desse facto em relação a Alfred Rosenberg. Evidentemente, é um livro cativante de leitura rápida, sem a profundidade do "Ao Encontro de Espinosa", de António Damásio.

SINOPSE
Quando o jovem de dezasseis anos, Alfred Rosenberg, é chamado ao diretor devido a comentários antissemitas no liceu, é obrigado a estudar passagens sobre Espinosa. Rosenberg fica espantado ao descobrir que Goethe, o seu ídolo, era um grande admirador do filósofo português Bento Espinosa. Um judeu. Mais tarde na sua vida, Rosenberg continua a ser perseguido por esse «problema Espinosa»: Como poderia o génio Goethe inspirar-se num membro de uma raça inferior, uma raça que ele estava determinado a destruir?
Espinosa, um judeu português refugiado na Holanda, viveu uma vida de castigo e isolamento. Devido aos seus pontos de vista, foi excomungado da própria comunidade judaica de Amesterdão, e banido do único mundo que sempre conhecera. Apesar de viver com poucos meios, Espinosa produziu obras que mudaram o rumo da História.
Com o passar dos anos, Rosenberg tornou-se um ideólogo nazi eloquente, fiel servidor de Hitler, e principal responsável pela política racista do Terceiro Reich. Todavia, a sua obsessão por Espinosa continuava a afetá-lo.
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Valdemar Queiroz