1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025Queridos amigos,
Bem procurei saber mais sobre este 6.º Marquês do Lavradio que acompanhou o Rei D. Manuel II no exílio, cujo pai foi diplomata, terá certamente vindo para Portugal depois da morte do último Rei de Portugal, beneficiou de um arquivo onde não falta a correspondência trocada pelo pai com as figuras gradas do poder britânico. O que o Marquês do Lavradio nos vai apresentar está nos antípodas da narrativa imperial do Estado Novo, desenhada para se enfeitar de heróis, conquistadores e muito mais. É verdade que muito irá mudar depois da Conferência de Berlim, quando se alicerçam os ideais do Terceiro Império, doutrina que fermentou em espaços como a Sociedade de Geografia de Lisboa. O Marquês pretendeu repor a verdade, antes de se agigantar a doutrina imperial do Estado Novo, mostrou o que era o nosso império em África antes de 1851 (ou seja, antes da Regeneração) e daí estas verdades com punhos, uma autêntica desmistificação da doutrina que vivemos nos tempos da escola. Ao lermos este soberbo trabalho do Marquês do Lavradio não nos sobra dúvida que se montou uma máquina de ilusão para a nossa presença em África, a ideologia forjou um cenário de ilusões que talvez ajudem a explicar o que se dizia de uma recente sondagem em que mais de um terço dos inquiridos gostava que Portugal ainda tivesse colónias.
Um abraço do
Mário
Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio - 1
Mário Beja Santos
Foi uma manhã de boa safra, em sábado de Feira da Ladra, encho um trólei com livros e por uma ninharia trouxe esta obra que jamais ouvira falar do Marquês do Lavradio, nem me passou pela cabeça a surpresa que me estava reservada. Guardei a tralha toda em pilha, e depois de almoço, mordido pela curiosidade, preparei-me para folhear Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História), pelo Marquês do Lavradio, edição da Agência Geral das Colónias, 1936.
Só parei ao fim da tarde, o trabalho do Marquês do Lavradio, em boa hora, deu-me uma extraordinária companhia pelo fim de semana. Interrogo-me como só agora cheguei ao conhecimento deste livro. Nunca me fora dado a ler um relato tão denunciador das fábulas, devaneios miríficos, mistificações que virão a galope ainda antes de se iniciarem as guerras de África em 1961. O Marquês tinha a faculdade de possuir um arquivo de grande importância, o Arquivo Lavradio, o 5.º Marquês, por exemplo, será diplomata em Londres numa fase em que o Império Britânico pretende dilatar-se à custa do Império Português.
Confiro tal importância a esta obra que me proponho a fazer uma súmula de todos os seus capítulos. Logo revelando o estado das colónias portuguesas em 1851, em que o autor fala da nossa soberania muito problemática, o nosso domínio muito fictício e uma ocupação muito limitada. Ele passa em revista as colónias começando por Angola:
“Pelo norte, os pontos extremos que estão ocupávamos no interior eram: S. Salvador do Congo, Bembe e Encoge, a 100 km pouco mais ou menos uns dos outros e a 200 km da costa. No sul ocupávamos Caconda no interior de Benguela e Humbe no de Moçâmedes, a 250 km proximamente da costa. De S. Salvador ao Bembe e entre Bembe e Encoge, transitava-se quase sem dificuldade; de Encoge para Duque de Bragança não havia passagem; as comunicações entre Duque de Bragança e Malange eram, muitas vezes, impedidas pelos Gingas e Mabangas.”
Mais adiante:
“O distrito de Moçâmedes havia sido, por vezes, inquietado pelas guerras dos sobas vizinhos próximos, naturalmente belicosos, e que desde longa data tinham o hábito da rapina. Os sobas vizinhos de Pungo Andongo e Duque de Bragança não estavam sossegados, os povos do presidio de Caconda consideravam-se quase independentes e os de S. José de Encoge pouca obediência prestavam à autoridade portuguesa (…) Pelo porto de Ambriz, que não estava ocupado, fazia-se grande contrabando para o interior, desfalcando assim a Fazenda Nacional. A instrução pública não se achava muito espalhada; existiam na Província apenas oito escolas de instrução primária, sendo uma para o sexo feminino. O tráfico da escravatura era fortemente reprimido tanto pelas autoridades como pela vigilância dos navios da Divisão Naval; contudo, era quase impossível acabá-lo por completo, pois pontos havia onde não existia autoridade alguma portuguesa. Dos lugares onde tremulava o pavilhão nacional ou onde havia autoridade portuguesa não saía um só navio com carregação de escravos, e nem um só navio com a bandeira nacional havia sido encontrado transportando escravos.
A população da Província era muito diminuta: 99% era absolutamente rude e inculta, selvagem, desobediente e em parte mais ou menos hostil.
A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos estava em tal atraso que pode dizer-se ‘não existia’; o preto só por exceção trabalhava por seu próprio impulso e o branco não tinha a precisa ação sobre o preto para o fazer trabalhar às suas ordens e sob a sua direção.”
E o Marquês do Lavradio dá-nos o retrato de Moçambique:
“Banhada pelo Oceano Índico em toda a sua extensão, desde o Cabo Delgado à Baía de Lourenço Marques, não tinha para Leste as suas fronteiras bem definidas. Dividida em distritos, estes dependiam do Governador-Geral, que residia em Moçambique, e com ele comunicavam dificilmente e só por via marítima; as comunicações por terra eram impedidas pela hostilidade do gentio. Lourenço Marques era um pequeno presídio sujeito aos ataques dos negros e com uma pequena guarnição por tal forma indisciplinada que em 1850 prendia e punha a ferros o próprio Governador. O presídio tinha 87 praças, das quais só dois soldados eram europeus, e talvez não excedesse a 20 o número de espingardas em estado de fazer fogo.
Em Inhambane o nosso domínio não ia além do alcance da artilharia da Praça, e quando em 1849 o Governador do distrito pretendeu livrar-se dos régulos que nos deixavam, sofreu um revés e encontrou na morte o prémio do seu esforço.
A companhia de Inhambane compunha-se de 140 praças; o número seria suficiente se aquelas 140 praças fossem soldados que tal nome merecessem. Eram esses chamados soldados que anos antes haviam lançado ferros aos pés do Governador do distrito.
Sofala, o estabelecimento mais antigo da Província e o mais famoso na história dos nossos descobrimentos do África, era o mais decadente e abandonado.
O distrito de Quelimane, ‘A Zambézia’, assim chamado por ser na maior parte da sua extensão regado pelo Rio Zambeze, era verdadeiramente o coração da Província.
Os jesuítas, que possuíam os prazos de Luabo e Caya, haviam com o Evangelho e a prédica conquistado tanto como os soldados com as baionetas. Nos seus prazos havia povoações e estabelecimentos agrícolas e eram um núcleo para qualquer melhoramento governativo.
Haviam construído igrejas em Quelimane, Luabo, Caya, Marranque, Sena e Tete. Expulso pelo Marquês de Pombal foram substituídos por frades de outras ordens, que não tiveram nem perseverança nem a coragem de continuar a obra daqueles, nem mesmo sustentar o que tanto havia custado.”
Depois de referir ainda o distrito das ilhas de Cabo Delgado, dirá que Moçambique era o único ponto fortificado indefensável. Dirá adiante que no interior da Província o nosso domínio podia dizer-se que se resumia à influência de alguns sertanejos e capitães-mores, e dá-nos um quadro das gentes:
“Os únicos colonos que para ali iam eram alguns militares e empregados civis, os degredados e gente das nossas possessões asiáticas que iam a África procurar fortuna. Inhambane era um dos mais populosos. Sofala achava-se quase deserto. A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos não existia desde que os prazos haviam sido abandonados. O comércio estava em bastante decadência. Comércio de exportação reduzia-se quase exclusivamente a 8 ou 10 mil arrobas de marfim, que embarcava a maior parte para Bombaím e EUA, portos portugueses de Goa, Diu e Damão e algum excecionalmente para o Cabo da Boa Esperança ou Lisboa.”
O autor fala-nos do comércio dos distritos, dirá que entre outras consequências da extinção das ordens religiosas nunca mais se cuidara nem de religião nem de instrução, as freguesias estavam quase todas abandonadas por falta de parcos, os que havia eram mandados de Goa por não poderem ali viver pela sua má conduta ou estupidez. A religião islâmica progredia extraordinariamente.
Iremos seguidamente ter o retrato de Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe e ouviremos o autor falar das causas principais desta decadência.
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)


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