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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27676: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola



Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC..."Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14):   ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola

por Jaime Silva

 
Mensagem do Jaime Silva:

Data - 27 jan 26  , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro

Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné,  escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)

Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:

Nota importante:
 
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no  Luso  – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:

Sintetizando:

(i)  o Comandante da  1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);

(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;

(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve  tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;

(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;

(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse  interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;

(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.

Depois, e como relatei:

(vii) o Pide  não se despachava, o tempo começava escasseava para que os helis pudessem  realizar a operação e, por isso,  sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse  facto;

(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.


O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínimaa ideia.

O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?

Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:

a) após o final da operação entregava-.o  ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;

b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda,  por duas vezes, algumas mulheres.

O procedimento foi sempre o mesmo.

Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.

Caro Luís,

Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade. 

Eu não esqueci! 

Abraço
Jaime

Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026  


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso.  Temos , todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em  falar  do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal",  e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...

O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem ? o que correu mal ?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos  ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...

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