Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...
Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Jaime Silva (foto ao lado):
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(iv) é professor de educação física, reformado;
(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola
por Jaime Silva
Mensagem do Jaime Silva:
Data - 27 jan 26 , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro
Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)
Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:
Nota importante:
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no Luso – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:
Sintetizando:
(i) o Comandante da 1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);
(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;
(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;
(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;
(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;
(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.
Depois, e como relatei:
(vii) o Pide não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem realizar a operação e, por isso, sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse facto;
(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.
O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.
O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?
Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:
a) após o final da operação entregava-o ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;
b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.
O procedimento foi sempre o mesmo.
Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.
Caro Luís,
Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade.
Eu não esqueci!
Abraço
Jaime
Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026
2. Comentário do editor LG:
Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso. Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em falar do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal", e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...
O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...
De algum modo, salvas a honra do convento: "eu não ma(ltra)tei prisioneiros".
Até 6ª feira. LG
(*) Vd. poste anterior da série > 26 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________
Notas do editor LG:
(**) Vd. poste anterior da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro


2 comentários:
Spínola moderou a PIDE na Guiné. Mas os gajos eram incompetentes.
O alferes sentou-se numa cadeira e, com um ar extraordinariamente abatido, como nunca lhe tinha sido visto antes nem voltou a ser visto depois, confidenciou a dois ou três outros alferes, entre os quais eu próprio:
«Na última operação, o meu grupo de combate capturou um guerrilheiro. Vivo e armado.»
Por momentos pensei que ele iria dizer com ar triunfal:
«Vejam como nós somos bons! Até os agarramos à mão, armados e tudo!»
Mas não. O abatimento em que ele se encontrava contrastava demasiado com qualquer espécie de triunfalismo. Em vez disso, o alferes contou:
«O guerrilheiro foi trazido à minha presença e fiz-lhe um primeiro interrogatório. Comecei por lhe pedir para se identificar. Disse-me que era o guerrilheiro Didi, da 1ª Região Político-Militar do MPLA, de seu nome próprio Fulano de Tal. Perguntei-lhe quem era o seu comandante. Respondeu-me que era o Jacob Caetano "Monstro Imortal". Fiz-lhe mais algumas perguntas sobre o MPLA e sobre a guerra em geral. Respondeu-me só a algumas. A outras recusou-se a responder e eu não insisti. A minha intenção, naquele momento, não era extrair-lhe informações, mas sim saber a razão pela qual ele nos combatia. Foi isso o que lhe perguntei a seguir.
«Com ar sereno e olhar firme, o Didi respondeu-me que combatia a opressão colonial, o racismo, os maus tratos e as humilhações que o povo angolano sofre todos os dias na sua própria terra.
«Senti-me incomodado. Aquele guerrilheiro combatia por uma causa. Tinha ideais e lutava por eles. E nós? Por que causa é que nós lutamos? Que interesses é que nós defendemos? Que ideais é que nós temos? O único ideal que nos move é sairmos daqui vivos e inteiros…
«Como eu disse, o Didi falou-me com ar calmo e de cabeça levantada. Tanto, que cheguei a duvidar que ele estivesse consciente da verdadeira situação em que se encontrava. Por isso lhe perguntei:
«— Você imagina qual é o destino que lhe poderá estar reservado?
«— Acho que sim — respondeu-me ele. — Com certeza vou ser torturado e vou acabar por ser morto.
«Fiquei impressionado com a resposta e não pude deixar de lhe notar:
«— E você diz isso com essa serenidade toda… Não sente medo?
«O Didi respondeu-me:
«— Claro que sinto medo. Estou morto de medo. Mas vou fazer o quê? Chorar? O que é que eu ganho com isso?
«Perguntei-lhe ainda:
«— Quer dizer, então, que está pronto para morrer?
«E o Didi respondeu, sem vacilar, sem uma única tremura na voz:
«— Estou pronto para morrer. Morro pela liberdade do meu povo.
[…]
«[…] Trouxe o Didi prisioneiro para o quartel, onde o capitão lhe fez um segundo interrogatório e o mandou entregar à DGS.»
O alferes fez uma pausa prolongada e exclamou a seguir:
«Tive na minha frente um herói! E eu permiti que ele fosse entregue à DGS… Sinto‑me o mais desprezível dos vermes. Tenho nojo de mim mesmo.
Fez outra pausa e murmurou:
«A esta hora já deve estar morto.»
O texto acima transcrito relata o que eu mesmo ouvi pessoalmente da boca de um alferes miliciano atirador de Infantaria, colocado na região dos Dembos, norte de Angola, nos princípios de 1973.
Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas de que este relato é verdadeiro, porque o alferes que o contou estava demasiado abalado para poder inventar o que quer que fosse. Ninguém conta um acontecimento assim — desta maneira e com esta sinceridade — de ânimo leve. Só posso concluir que o guerrilheiro Didi existiu mesmo, a sua captura aconteceu mesmo, o diálogo transcrito ocorreu mesmo e o epílogo dos acontecimentos foi mesmo o que foi contado.
Esta confissão do alferes ficou gravada na minha memória para sempre como ferro em brasa e transcrevo-a quase ipsis verbis. Porém, cortei uma parte muito importante do relato, porque essa parte tem um caráter pessoal muito marcado e eu quero manter a privacidade do narrador, mesmo com prejuízo da compreensão dos motivos que o levaram a agir como agiu. Este antigo alferes está vivo e certamente não gostaria de ver os seus sentimentos mais íntimos postos ao léu na internet.
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