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sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...




O general e o monóculo... A anedota foi recolhida pelo António Ramalho. 

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


1. Por que é que, ainda hoje, passados quase 60 anos (!), nós, antigos combatentes, gostamos de contar "anedotas e "piadas" do general Spínola ? Aliás, mais "anedotas" do que "piadas"... E mais sobre o  Spínola do "antes" do que o Spínola do "depois"...


Para nós, "antigos combatentes da Guiné", será sempre o "Caco Baldé", o "nosso general", o "Homem Grande de Bissau", o "Aponta Bruno", o "gajo que os tinha no sítio"... Para outros, o do pós-25 de Abril e do PREC, será o coveiro do Estado Novo e do Império, o conspirador, o "bombista",  etc.,  amado e odiado à esquerda e à direita, mas que chegará a marechal, com Mário Soares (teias que a política e a história tecem).

De facto, fazemos uma distinção do Spínola antes e depois do 25 de Abril... Como se fossem duas figuras completamente distintas... O Spínola carismático, prussiano, populista, reformista, "pai dos guinéus", que esteve à beira de ganhar a guerra da Guiné (!), e o Spínola desastrado, falhado, impopular, sinistro, do PREC e do exílio...

Por outro lado, há uma diferença entre "anedota" e "piada"...

Facto curioso: já não contamos anedotas do Salazar nem do Marcelo Caetano,  quando muito ainda contamos piadas requentadas (como aquela do Salazar que andava sempre com mão esquerda no bolso  das calças para manter a dita...dura!). Mas contávamos muito mais do último presidente da República do Estado Novo, o Américo Tomás, tanto anedotas como piadas.

É certo, também já se passaram mais de 50 anos, o Estado Novo está enterrado (e bem enterrado) mas nem por isso as anedotas do final do regime salazarista  deixam de ser fascinantes, davam para fazer uma tese de doutoramento (se a nossa Academia tivesse sentido de humor, que é coisa que não tem)...  Para quem não sabe (os nossos filhos e netos...), havia a censura, a que só a anedota ou a piada de café, de rua ou de tasca escapava, enquanto formas (orais) do sarcasmo popular...

Também dizem muito, essas anedotas,  sobre as personalidades caricaturadas do regime de então:
  • a "astúcia distante, provinciana" de Salazar, o "Botas";
  • a "eterna indecisão" de Marcelo Caetano, o professor;
  • e, claro, a proverbial falta de perspicácia (real ou inventada pela sátira popular) do Américo Tomás, contra-almiranhte e depois almirante, o "Cabeça de Abóbora", o "Corta-Fitas"...
Pelo menos enquanto Salazar foi "vivo", não terá tido qualquer iniciativa política, era um chefe de Estado meramente cerimonial ou protocolar, um contra-almirante (vai a almirante em 1970) que ganhou o lugar em eleições fraudulentas contra o carismático general da FAP Humberto Delgado...

Aos olhos do Zé Povinho (e na televisão de então, a preto e branco) só aparecia em "inaugurações". Daí ter ficado conhecido como o "corta-fitas". Era alvo de chacota popular pela sua falta de jeito para o discurso em público, e pelas  muitas "gafes" suas, gravadas no imaginário popular, com destaque para frases hilariantes como "É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive".

Curiosamente, o Marcelo Caetano nunca teve propriamente uma alcunha popular, de traço feio e cru, caricatural: era o senhor professor, o delfim, o continuador, o sorridente... e outros epítetos. Mas não sabemos qual o seu cognome que ficará para a História.

Já o "venerando Chefe de Estado" Américo Tomás, o Almirante, tem  uma série de anedotas, curtas, mas com pilhéria, muito focadas na sua obsessão em inaugurar tudo o que fosse obra pública. Daí o cognome "corta-fitas".

Contava-se que o Almirante foi visitar uma escola primária, cujo edifício tinha sido remodelado. A professora, nervosa, apresenta-lhe o melhor aluno da turma, o "Sabe-Tudo". Tomás olha para o menino, faz-lhe uma festa na cabeça e diz:

— Então, meu rapaz, já sabes ler e escrever?

— Saiba V. Excia que sim, senhor, senhor Presidente! — responde a criança, orgulhosa e devidamente industriada pela professora.

O Almirante, tirando uma tesoura do bolso, comenta:

— Muito bem, então vamos lá inaugurar esse caderno escolar que ainda está em branco!


2. Com a  ajuda das ferramentas de IA, vamos explorar alguns pontos de vista sobre as anedotas e piadas que envolvem figuras históricas como o "nosso" general Spínola.

Mas comecemos pela distinção entre a "anedota" e a "piada".

A anedota, em geral:
  • é uma pquena história real ou apresentada como real (tem uma base factual ou verosímil);
  • é um episódio narrativo;
  • é centrada em (ou ligada a) uma pessoa concreta (um general, como o Spínola, ou um político, como o Salazar);
  • pode (ou tende a) ser humorística, visar ou não uma crítica social ou política;
  • mas não precisa de "punchline" (em inglês) (final ou  clímax engraçado)

Exemplo: “Uma vez o general disse isto… e aconteceu aquilo…”


Já a piada, normalmente;

  • é mais curta e direta, é rápida;
  • joga muitas vezes com trocadilhos ou situações engraçadas;
  • é uma construção deliberadamente humorística (inventada para provocar riso);
  • tem um estrutura de surpresa final ("punchline")

Exemplo típico: “Sabem qual é a diferença entre…?”


Muitas anedotas de caserna, militares, acabam por  funcionar como piadas, mas a sua origem costuma ser um episódio real ou verosímil  (de tropa ou de guerra).

Em termos latos, uma anedota é um relato breve de um acontecimento curioso, invulgar ou engraçado. No entanto, o seu sentido varia conforme o contexto:

  • sentido popular: uma narrativa curta com um final inesperado (o "punchline"), cujo objetivo principal é provocar o riso; é  sinónimo de "piada";
  • sentido histórico e literário: um episódio particular ou pouco conhecido da vida de uma figura pública que ilustra um traço do seu caráter; aqui, a anedota não tem de ser necessariamente cómica, mas sim reveladora.

3. Origem da palavra anedota

A palavra vem do grego antigo: ἀνέκδοτα (anékdota). Componentes: an- = “não” + ekdotos / ekdidonai = “publicar, dar a público”

Significado literal: “coisas não publicadas” ou “factos inéditos” (que por isso não constam da biografia das figuras públicas...).

O termo ficou famoso no século VI com o historiador bizantino, Procópio de Cesareia, que escreveu um livro chamado Anekdota (que ficou conhecido em latim como "Historia Arcana"ou  história secreta, em português).

Nesse livro reuniu episódios íntimos, secretos e escandalo,  sobre o imperador Justiniano I, a imperatriz Teodora e a corte bizantina que obviamente não podiam constar de uma publicação oficial...

Daí o termo "anedota" (facto escondido ou episódio revelador sobre alguém), distinto de "piada" (mecanismo humorístico para provocar o riso).

Quando nós, antigos combatentes, contamos histórias do general Spínola, na verdade estamos a fazer o uso clássico da anedota: pequenos episódios que revelam o carácter dessa figura (que foi nosso comandante-chefe e governador da Guiné)  e que descrevem a atmosfera desse tempo.

Talvez valha a pena perguntarmo-nos por que é que a nossa cultura militar (ou castrense) (e muitos nós tiveram lá três ou quatro anos!), produz tantas anedotas sobre os nossos generais (Spínola) e demais oficiais (o Gasparinho, o Onze, o Metro e Meio), mas também sobre camaradas (o Piça) e até sobre o inimigo (Maria Turra).

É material  interessante para uma antropossociologia do humor de caserna!


4. E acabamos por hoje com uma anedota pícara do general Spínola, contada pelo António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017:


O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.



Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No acto da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou!


Comentário do editor LG:

Esta é uma das melhores anedotas, seguramente a mais brejeira,  que eu já li do "nosso general"... É de antologia, valendo a pena repeti-la aqui,  para quem não a leu na altura, ainda na pandemia (**)

Nunca conhecemos na intimidade, o general Spínola, mas tudo indica que era perito em usar, pelo menos no CTIG,  tanto a  ironia seca, ríspida, como o timing que é apanágio de um  general, sabendo  jogar  tanto com a estratégia (que é a arte de comandar tropas) como com as palavras... 

A cena é quase cinematográfica: a loja do oculista (não devia haver muitas em Bissau),  o monóculo, o ar austero (e intimidatório) do ilustre cliente,  a empregada com a pergunta inocente (ou não tão inocente quanto isso...) e a resposta que só um homem daqueles, de cavalaria,  poderia dar, entre a autoridade e a malícia.

E um privilégio para nós poder publicar esta anedota que vem de um alentejano,  um grão-tabanqueiro, que sabe como é que se conta uma história com sabor a terra e a guerra. Até parece que o Spínola, mesmo no meio daqueles anos todos de conflito, nunca perdeu o jeito para um gracejo que deixava todos a  sorrir com o devido respeito  (coisa que é diferente de rir até partir... o coco!)

Quem esteve na Guiné  sabe que havia, em geral,  uma certa cumplicidade entre quem mandava e quem obedecia. Pelo menos ao nível de companhia, 160 homens que eram obrigados a viver, a sobreviver, a lutar, a suportar-se uns aos outros, em condições duras, difíceis,  num espaço delimitado por duas fiadas de arame farpado... 

E é essa cumplicidade, mesmo que dúbia, que continuamos a celebrar (e cultivar) aqui. Sem qualquer preocupação (muito menos obrigação) com o "politicamente correto". É  que o riso também ajudava a humanizar a situação de isolamento, de risco, de guerra, de abandono, em que vivíamos.

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