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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

A propósito da passagem dos 84 anos do nascimento de Adriano Correia de Oliveira, ocorrida no passado dia 9 de Abril, publicamos um poema do nosso camarada Adão Cruz, que lhe é dedicado, no meio de cujos versos aparecem títulos de algumas das canções do Adriano.

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA
(PORTO, 9 DE ABRIL DE 1942 - †16 DE OUTUBRO DE 1982)



PARA O ADRIANO

adão cruz

Nota: Este poema foi construido com versos meus e alguns títulos de canções do Adriano (a negrito).


E de súbito um sino
um cravo vermelho
Raiz de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
E a carne se fez verbo
Por aquele caminho da esperança
às portas da cidade
E o bosque se fez barco
por aquele mar de sonho
na Trova do vento que passa.

Todo o mel escorria por entre As mãos
e todos os frutos do Regresso
eram versos de Uma canção sem Lágrimas
na Canção da nossa tristeza.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na Fala do homem nascido.

O sol perguntou à lua
quando A noite dos poetas se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
se eram cravos vermelhos
ou a Canção tão simples
da tua voz sempre divina
numa Cantiga de amigo.

O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre As mãos da revolução.

Como hei-de amar serenamente
esta voz de Roseira brava
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a Cantar para um pastor
a canção de Abril que encheu a rua.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27852: Efemérides (384): Foi há 10 anos que morreu (de verdade) o nosso querido "morto-vivo", o António da Silva Batista (1950-2016), ex-sold at inf da CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972), natural da Maia

27 comentários:

Eduardo Estrela disse...

" A CANTAR PARA UM PASTOR"
" a canção de Abril que encheu a rua "
Obrigado Dr. Adão Cruz
Abraço
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Contrariamente a outros cantores e músicos que se exilaram, para escapar à guerra colonial (como José Mário Branco, Luís Cília e outros), o Adriano Correia de Oliveira (Porto, 1942 - Avintes, V. N. Gaia, 1982), estudante em Coimbra (e seguramenmte com ficha na PIDE, fez a greve estudantil de 1962)< a frequentar direito (faltava-se uma cadeira), foi chamado a cumprir o serviço militar, em 1967. Casado, e com uma filha, e já conhecido como músico e cantor.

(...) "Data de 1963 o seu primeiro EP, Fados de Coimbra. Acompanhado por António Portugal e Rui Pato, o álbum continha a interpretação de Trova do vento que passa, poema de Manuel Alegre, que se tornaria uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura. Em 1967 gravou o álbum Adriano Correia de Oliveira, que, entre outras canções, tinha Canção com lágrimas ". (...)

Há tempos um amigo meu, da Polícia Militar, comentou que esteve com ele, já alferes miliciano. Já não me recordo do quartel, nem o serviço, mas julgo qiue era em Lisboa (talvez RC 7). Seriam da PM... Guardou dele as melhores impressões. O meu amigo, furriel miliciano de cavalaria, foi o primeiro classificado do seu curso, não tendo sido mobilizado. O Adriano também não.

Eduardo Estrela disse...

Foi-me várias vezes referido pelo nosso camarada Ilídio Vaz, meu grande amigo, companheiro da Ccaç 14 como furriel miliciano enfermeiro e que comigo e contigo Luís, partiu em 24 de maio de 1969 para uma viagem de " estudo " à Guiné, que era o Adriano quem comandava o pelotão da PM que fez serviço a esse embarque.
Abraço
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O longo braço da PIDE não chegava, felizmente, a todo o lado. Os "psicoténicos" do exército selecionavam os melhores, os mais aptos, os mais habilitados para as diferentes especialidades... E deviam ter bastante autonomia. O que não quer dizer que não houvesse espaço para as "cunhas" e as "interferências", nomeadamente da polícia política. O Adriano Correia de Oliveira foi para a PM devido também à sua altura, mesmo com ficha na PIDE (presumo). Tanto quanto me lembro era um tipo muito alto, foi jogador de voleibol... Morreum infelizmente, muito cedo, aos 40.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Então, bate certo... O Adriano era da PM, o meu amigo também, e provavelmente também do seu pelotão. Tive esta conversa há uns anos. Mas posso confirmar. De qualquer modo, ´´e recordar que, nessa época, tanto na metrópole como em Bissau, tínhamos um asco à PM...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Já agora, Eduardo, recordo que no T/T Niassa, que partiu para a Guiné, em 24/5/1969, contigo, o Bartolomeu e outro pessoal da CCAÇ 2592 (futura CCAÇ 14) e comigo, o Levezinho, o Reis, o Branquinho, etc. (CCAÇ 2590, futura CCAÇ 12), ia também o soldado de cavalaria Jerónimo Carvalho de Sousa, CPM 2537 / RL 2 (Regimento de Lanceiros 2)...Tão anónimo como nós. Mas seria mais tarde deputado e secretário-geral do PCP. Não sei se já tinha ficha na PIDE, foi escolhido pelo "cabedal", pela altura...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Para saberes mais, sobre esse "cruzeiro das nossas vidas", em que nos teremos cruzado com o pelotão da PM, comandado pelo senhor alferes miliciano Adriano Correia de Oliveira (!), e com as senhoras do MFN, e com os pides, claro, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, na manhã de 24 de maio de 1969, um sábado (!)...

Vd. poste de 25 de março de 2020
Guiné 61/74 - P20774: O que é feito de ti, camarada? (11): o que é feito dos mais de 1700 camaradas que fizeram o "cruzeiro das suas vidas", no T/T Niassa, com partida em 24/5/1969, incluindo o Jerónimo de Sousa, hoje deputado e secretário-geral do PCP ?

Eduardo Estrela disse...

Fui novamente ler o poste que referes, relativamente à nossa comum viagem. Lembro-me que ao subirmos para o portaló do navio, as senhoras do MNF nos entregavam um " Ronson " de vinte e cinco tostões, um maço de cigarros ( creio que da marca Sporting) e uma sandes de mortadela.
Abraço
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Pelo que pude apurar, o o meu amigo António Fonseca (1º cabo miliciano e depois furriel miliano) e o Adriano Correia de Oliveira (aspirante miliciano e depois alferes miliciano) fizeram o serviço militar entre 1967 e 1969, tendo pertencido à PM - Polícia Militar. Falta-me confirmar se estiveram no mesmo pelotão (vou telefonar ao Fonseca).

Sabe-se que, desde 1953, o RL 2 (Regimento de Lanceiros nº 2) passou a ser a “casa-mãe” da Polícia Militar em Portugal, formando e enquadrando Companhias de Polícia Militar (CPM) e pelotões destacados.

As CPM eram subunidades orgânicas do RL 2, mas podiam ficar em Lisboa (serviço de guarnição, embarques, escoltas, ordem pública), ou ser mobilizadas para o Ultramar (muitas foram: dezenas de companhias, 8 mil militares).

Portanto, nem todos os oficiais da PM eram mobilizados, havia sempre unidades e pelotões em serviço interno (Lisboa incluída), nomeadamente para funções de policiamento militar, segurança de portos de embarque (como a Rocha Conde de Óbidos) e controlo de tropas em trânsito.

Eduardo, a infromação do teu/nosso camarada, Ilídio Vaz, fur mil enf da CCAC 2592/CCAÇ 14, que embarcou connosco no T/T Niassa, em 24/5/1969, é mais do que verosímil. O Adriano, reconhecido pelo Ilídio, estava de serviço nesse dia...

Pelotões da Polícia Militar do RL 2 (Ajuda, ali perto) eram destacados para o porto de Lisboa, para os embarques de tropas para o ultramar, com funções de controlo disciplinar, segurança, enquadramento, vigilância do cais.

O Adriano (e o Fonseca) deve ter ido ao Cais da Rocha Conde de Óbidos por diversas vezes, em serviço...E nesse dia, 24/5/1969, ouviu o Niassa apitar 3 vezes...Será que haverá nas suas canções algumas referências, diretas ou indiretas, à partida de tropas para a África ?

Alberto Branquinho disse...

Luís

O Adriano (e outros) cantou e gravou o "Pedro Soldado:

"Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada
.......

Não é Pedro pescador
nem do mar vindimador
nem soldado vindimando
verve vinha vindimada..."

Se ã letra não é assim, é mais ou menos assim...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Alberto...Agora já apanhei o "radar"... O poema, "Romance de Pedro Soldado", é do Manuel Alegre (da obra "Praça da Canção", 1965).

Foi musicado pelo Adriano Correia de Oliveira ainda na década de 1960. A canção surge associada ao seu repertório de intervenção, sendo divulgada sobretudo a partir do final dos anos 60, nomeadamente no ambiente de Coimbra e da canção de protesto. (As gravações mais conhecidas são já do período 1969/70, quando estas canções começaram a circular mais amplamente, beneficiando de alguma abertura da censura, com a chamada "primavera marcelista", de pouca dura.)

O tema também foi interpretado por José Manuel Osório (1947-2011), que lhe deu uma leitura mais próxima do fado.

A canção foi sempre proibida pela censura do Estado Novo. O tema (o soldado que recusa a guerra ) era frontalmente contrário à narrativa oficial sobre a "guerra do ultramar", o que o tornava particularmente incómodo. "Antipatriótico e dissolvente", para usar a linguagem da PIDE, na época...

Aliás, com o Manuel Alegre, já refugiado no exílio, os seus livros de poesia "Praça da Canção" (1965) e "O Canto e as Armas" (1967) foram proibidos pela censura. As edições esgotaram-se em poucos dias. Os poucos exemplares encontrados pela PIDE foram apreendidos.

Alberto, aqui tens a letra completa do "Romance do Pedro Soldado":

03 fevereiro 2007 > Romance de Pedro soldado, de Manuel Alegre

1.
Já lá vai Pedro Soldado
num barco da nossa armada
e leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

Triste vai Pedro Soldado.

Branda rola não faz ninho
nas agulhas do pinheiro
nem é Pedro marinheiro
nem no mar é seu caminho.

Nem anda a branca gaivota
pescando peixes em terra
nem é de Pedro essa rota
dos barcos que vão à guerra.

Nem anda Pedro pescando
nem ao mar deitou a rede
no mar não anda lavrando
soldado a mão se despede
do campo que se faz verde
onde não anda ceifando
Pedro no mar navegando.

Onde não anda ceifando
já o campo se faz verde
e em cada hora se perde
cada hora que demora
Pedro no mar navegando.

E já Setembro é chegado
já o Verão vai passando.
Não é Pedro pescador
nem no mar vindimador
nem soldado vindimando
verde vinha vindimada.

Triste vai Pedro Soldado.
E leva o nome bordado
num saco cheio de nada.

2.
Soldado número tal
só a morte é que foi dele.
Jaz morto. Ponto final.
O nome morreu com ele.

3.
Deixou um saco bordado
e era Pedro Soldado.


Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema originalmente publicado em 1965.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Falei com o meu amigo António Manuel Fonseca Pinto (n. 1945, Peniche). Fez 3 anos e 3 meses de tropa (de jan 67 a abr 70). Trabalhou com o Adriano Correia de Oliveira, Chefe do Gabinete de Justiça, do RL2. Já era alferes miliciano, sendo o Fonseca Pinto seu secretário (era furriel miliciano). Durante 6 meses. Depois o Adriano Correia de Oliveira foi substituído pelo João Duarte, do Cadaval (futuro presidente da direção da Caixa Agrícola do Cadaval) (já falecido). Dos dois, com quem trabalhou, tem as melhores referências. Tratavam-se por tu, o Adriano e o António. Nas eleições de outubro de 1969, para a Assembleia da República,o António lembra-se de o Adriano tentar persuadir a malta, no quartel, para ir votar. O António não votou nem estava recenseado.

Por que é que o Adriano não foi mobilizado ? O meu interlocutor não sabe. Sabe que era um "um bocado revolucionário" mas aos olhos da PIDE não devia ser "perigoso". E em Lisboa era mais fácil controlá-lo do que em Bissau, Luanda ou Lourenço Marques,. O António não foi mobilizado por que era o 3º melhor classificado do curso (eram 80, começavam por ser mobilizados os últimos). Tinha 1,73 de altura e porte atlético, foi jogador de futebol da 2ª divisão. (O Adriano era mais alto, devia ter um metro e oitenta ou mais.) E fazia parte da equipa do RL2, os da PM ganhavam tudo. Ainda tem em casa troféus desse tempo. O Sporting Club de Portugal ofereceu-lhe 40 contos (sic) para ir para a Guiné, por troca de um atleta conhecido, campeão do triplo salto ou coisa parecida... Claro que ele não aceitou, mas houve alguém que avançou. 40 contos nesse tempo era dinheiro (em 1968/69): mais de (ou cerca de) 15 mil euros a preços de hoje.

O António não se lembra, no tempo em que esteve com ele nos anos de 1968/69), de ver o Adriano fazer o papel de "Oscar Rómio" (oficial de ronda). Mas ele, António, foi muitas vezes ao Cais da Rocha Conde de Óbidos aos embarques e desembarques de tropa. Um dia, um coronel, todo militarista, que estava tambémali no cais, participou dele (que estava a comandar o Pelotão da PM) por deixar passar a malta que saída eufórica do barco, sem a boina na cabeça!... A participação deve ter sido felizmente rasgada, no RL2...

Os dois, quando saíam juntos. ele e Adriano Correia de Oliveria, era apenas do exercício de funções de justiça militar (autos por acidentes, etc.)... Voltaram a encontrar-se mais tarde, já na peluda. Sabe que o Adriano foi impedido, ainda antes do 25 de Abril, no aeroporto de Lisboa, de seguir viagem para Londres onde ia participar num evento musical.

O meu amigo tem um percurso militar igual a muitos de nós: fez a recruta nas Caldas da Rainha (1º turno de 1967), frequentou o CSM, tirou depois a especialidade na EPC, em Santarém, e foi colocado no RL2. Voluntariou-se a seguir para ir para as Caldas, que ficavam perto da sua terra. Aqui, e durante 6 meses, deu 2 recrutas, como instrutor, 1º cabo miliciano. Esteve na 6ª Companhia, do cap inf Vasco Lourenço. Depois voltou ao RL 2, onde acabou o resto do tempo. Saiu em abril de 1970. O Adriano era um ano mais velho (nasceu em 1944).

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O Adriano Correia de Oliveira era do "reviralho". E a PIDE devia ter olho nele. Mas o Exército, numa altura em que a Academia Militar começava a ficar às moscas, não podia deixar-se ao luxo de desperdicar o talento e as competências de homens com formação universitária. Como era o caso do Adriano Correia de Oliveira.

Deve ter sido chamado para a tropa, em 1967, por ter chumbado numa cadeira, e não proprimente por razões "políticas". Fazem-no "polícia militar" porque, além de cumprir os critérios (físicos, psicoténicios, etc.), tinha formação jurídica.

Claro que o RL2 também devia ser um bom sítio para quem tinha "boas cunhas", mesmo não tendo formação jurídica...E depois nem todos eram mobilizados e, se o fossem, não iam para o mato...

Em resumo, éramos todos iguais (?)... mas uns muito mais do que os outros.

Alberto Branquinho disse...

Luís
Ouvi pela primeira vez o "Pedro soldado" em 1969, acabado de regressar da Guiné, no jardim da Associação de estudantes, em Coimbra, onde todo o pessoal estava muito excitado depois do não-discurso do Alberto Martins na inauguração do novo edifício de Matemáticas, o que deu origem à situação que é designada por "crise de 1969". Senti-me estremecer ao ouvir determinadas passagens da letra.
Depois, em 1970 e seguintes, já em Lisboa, o "Pedro soldado" e a "Trova do vento que passa" eram sempre cantadas nas situações de greve ou de contestação à guerra colonial. Isto acontecia principalmente na Cantina antiga, do outro lado da Avenida, em frente ao Hospital de Sta. Maria. Cheguei a ver a Cantina cercada pela Polícia, comandada por um capitão que eu conhecia da Guiné, mas não lhe falei (para não haver problemas).
Um dia invadiram mesmo a cantina. Fizeram alguns presos, foi uma grande confusão, com muita coisa partida, incluindo aqueles grandes vidros (principalmente os das traseiras). Eu não estava lá.
Abraço.

Eduardo Estrela disse...

Adriano, Zeca, Fanhais. A messe de sargentos de Cuntima e os " abrigos" onde descansávamos a alma e o coração, foram testemunhas mudas de magníficos momentos onde a poesia e a música de intervenção, nos permitiram construir aquilo que nos acompanha até hoje. O agente da PIDE em Cuntima nunca ía à messe de oficiais, mas da nossa era frequentador assíduo. Garanto-vos companheiros que não nos metia medo..
Guardo desse tempo memórias inesquecíveis.
Abraço
Eduardo Estrela

Eduardo Estrela disse...

Tive o privilégio de ter o Zeca, o Dr. José Afonso como meu professor em Faro.
Abraço
Eduardo Estrela

Anónimo disse...

A propósito de exilados que o Luís refere, ocorre-me registar que muitos dos que tiveram a “coragem” e “valentia” de escapar à guerra colonial, foram os mesmos que na faculdade de medicina onde entrei em 1964, pressionavam insistentemente os professores para que não permitissem os ex-combatentes de frequentarem as aulas práticas nem de se candidatarem aos exames.
Tive oportunidade de o referir em público no painel do Colóquio “ O Regimento de Cavalaria nº 6 na Guerra Colonial”, na Universidade do Minho.
Abraço,
Ernestino Caniço

Eduardo Estrela disse...

A ditadura no seu melhor.
A democracia no seu pior.
Abraço Dr. Ernestino Caniço
Eduardo Estrela

Victor Costa disse...

Um bom comentário do Camarada Ernestino Caniço para refletirmos. Vejamos a letra da canção do Zeca VEJAM BEM.
As gaivotas em terra, o relento na areia, a praia da figueira, o relento no mar, para os pescadores da sardinha e os agricultores do baixo Mondego a lavrarem a terra para semear o arroz.
Uns andavam enlameados, outros com escama de sardinha agarrada ao pêlo mas, eu nunca considerei a figura deles triste porque a conhecia.

A viagem de comboio de Coimbra para a Figueira era muito interessante.
Um Ab. a todos Victor Costa

Fernando Ribeiro disse...

Luis Graça, parece-me que estás a querer atribuir à PIDE um poder sobre os militares (qualquer militar, seja ele do reviralho ou não) que ela não tinha, nem nunca poderia ter, nem de perto nem de longe.

O próprio Estado Novo devia a sua existência ao golpe de Estado de 28 de maio de 1926 (vão agora completar-se cem anos), que foi feito pelas Forças Armadas. Seria suicidário para o regime subalternizar as Forças Armadas relativamente a qualquer espécie de polícia. Nem pensar! O regime acabaria na hora.

Ainda por cima, a PIDE era dirigida por Silva Pais, que tinha o posto de major. Achas que algum general, brigadeiro, ou mesmo coronel que fosse, iria vergar-se diante duma instituição dirigida por um simples major?! Isso é que era bom! Julgar que isso era possível, corresponde a ignorar a existência do espírito de corpo entre os militares e a importância que a hierarquia tinha para eles. As Forças Armadas não eram um capacho da PIDE, nem nunca poderiam ser!

Nestas condições, enquanto estivesse na tropa, o Adriano Correia de Oliveira podia estar descansado, que a PIDE não se meteria com ele. Porque ele era militar. Só depois de passar à "peluda", então sim, é que a PIDE podia cair-lhe em cima outra vez.

Alberto Branquinho disse...

Vitor Cortes

Quando se quer analisar um texto literário (e as letras de canções são textos literários) ou se transcreve e depois se analisa coerentemente (com as "lentes" que cada um COSTUMA usar para fazer essas análises) ou não se faz uma análise correcta. E as partes transcritas do texto devem ser colocadas entre aspas.
Transcrever (assim como quem atira palavras) partes de texto e, ALÉM DISSO, truncado, não é correcto, não deve ser feito, sob pena de poder alterar o sentido do que o autor pretendeu transmitir.
Se bem me lembro, a cançaõ começa assim:
" Vejam bem/ que não há só gaivotas em terra/quando um homem se põe a pensar/quem lá vem/dorme à noite ao relento na areia/dorme à noite ao relento no mar..."
E segue e, para a entender, há que estar atento, procurar entender a mensagem (se se estiver disponível para isso, mesmo que se discorde).

Sem ofensa!

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Fernando, pelo teu valioso e oportuno comentário. Embora eu só conheça superficialmente o que já se sabe, da investigação académica, sobre as relações da PIDE com as Forças Armadas e vice-versa, também concordo contigo: eram dois poderes paralelos, dois pilares do regime, a polícia política e o poder militar.

Sim, a PIDE não “mandava” nas Forças Armadas, mas não se pode negar a sua capacidade de influência ou pressão sobre os militares, individualmente. Como sempre, nada disto é "a preto e branco", a realidade é sempre mais híbrida: houve coexistência, ora mais pacífica, ora mais tensa entre estes dois esteios do regime, com zonas, cinzentas, de conflito, vigilância mútua e equilíbrios instáveis.

Acho que isso terá sido mais patente na Guiné, na "Spinolândia", e no "making of" do 25 de Abril... O assunto merece mais tempo e vagar. Estou-me a lembrar também do caso dos 2 capelães que foram expulsos da Guiné, um no tempo do Schulz, o padre Mário de Oliveira (que estava em Mansoa, finais de 1968/março de 1969), e o padre Arsénio Puim (Bambadinca, 1970/71), no tempo do Spínola... Ainda hoje não se sabe bem até onde foi a "mãozinha" da PIDE nestes dois casos...

Por outro lado, no meu tempo, a PIDE não via com bons olhos a política spinolista "Por uma Guiné Melhor"...Spínola (e os militares) tiveram que refrear os seus abusos, os seus métodos, o "curto-circuito" com a "inteligência militar", etc.

Eduardo Estrela disse...

Admito estar enganado mas não partilho do entendimento do Fernando Ribeiro e do Luís Graça, no que à polícia política diz respeito. Muitas das nossas atitudes, comentários e iniciativas, foram pela certa objecto de informações para Bissau, onde estavam as chefias. Em Cuntima conheci 2 agentes, os quais cirandavam por entre a tropa. A sua actividade nunca esteve relacionada com a população. Tive oportunidade de confirmar que estavam munidos de rádio com capacidade para falarem directamente com Bissau.
Abraço
Eduardo Estrela

Victor Costa disse...

Obrigado Alberto Branquinho pelo reparo mas burro velho já não aprende.
Eu sempre fui um bom aluno a Fisica e Matemática, mas Português...
Um A braço a todos V.C.

Victor Costa disse...

De qualquer modo, vou procurar melhorar o meu português.
Um Ab. Victor Costa.

Alberto Branquinho disse...

Vitor Costa
As minhas desculpas pelo "Vitor Cortes".
Não se trata de ser bom ou mau aluno a "Português".
Primeiro: - é preciso ler/apreciar o texto dessas canções como um "todo" e não "aos bocados";
Segundo: - não esquecer que "nesses tempos" era necessário dizer as "coisas" através de imagens, comparações difusas, linguagem (quase) abstracta, etc., etc. e tal...

Outros tempos...
.

Victor Costa disse...

Eu concordo com o comentário do Camarada Fernando Ribeiro.
Eu já li o suficiente sobre Salazar e o Estado Novo, para perceber que: As Forças Armadas deram o Poder a Salazar para ele fazer aquilo que eles não sabiam, ou seja gerir a Economia e as Finanças, mas nunca perderam o controlo do País. Os Militares só sabem fazer a guerra e não percebem nada de Economia e Finaças e voltaram a provar isso a seguir ao 25 de Abril. Recordem-se de que: Em apenas onze meses meteram outra vez o País de TANGA.
UM Ab. a todos Victor Costa.