Fonte: (1961), "Diário de Lisboa", nº 14013, Ano 41, Domingo, 17 de Dezembro de 1961, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16524 (2026-1-15)
1. Excerto de texto do ten-gen António Faria de Menezes:
(...) Em 18 de dezembro de 1961, a India pela força das armas invadiu o estado português da India pondo fim a 14 anos de conflito.
Para Portugal, foi uma invasão duma parcela do seu território contra os princípios do direito internacional por um Estado estrangeiro, apenas reconhecido na ONU em 1974. Para a India, a libertação de Goa, Damão e Diu, constituiu a sua plena afirmação como potência regional.
Para o regime dirigido por Salazar foi um rude golpe, não apenas pela natureza da capitulação militar sem o determinado sacrifício de sangue que, na ideia ultima do regime, provocaria um clamor internacional, dando o desejado suporte para a política ultramarina, mas também porque os ventos da história trouxeram à ribalta a fragilidade das velhas alianças, face a novos interesses e alinhamentos, expondo que para manter a ideia de um Portugal do Minho a Timor, ficaríamos sempre isolados e apenas dependentes de nós e das nossas capacidades.
Ao querer ser firme contra os ventos da história, claramente anticolonialista, crendo na infalibilidade da manobra diplomática junto a aliados e nas organizações internacionais, e mesmo na postura pacifista da liderança indiana que nunca admitiria o recurso à força, o regime adotou uma postura de sacrifício militar, sem que reunisse, como era seu dever, os meios necessários para resistir a uma ação sempre desproporcionada face ao poderio militar indiano.
O Estado português da India não era defensável militarmente com os meios aí destacados, nomeadamente sem ter o mínimo de paridade em meios aéreos e liberdade de movimento para uma manobra tática assente na mobilidade em sucessivas linhas de retardamento até a uma defesa na ilha de Goa e península de Mormugão para ganhar tempo para uma solução mediada internacionalmente.
Imbuídos da necessária racionalidade que o tempo agora permite, numa análise pragmática dos acontecimentos, e sempre com ênfase na perspetiva militar, julgamos ser interessante, perceber a estratégia operacional, o terreno onde esta foi consumada, a organização e a estrutura de comando político e militar, os aspetos tangíveis e não tangíveis das capacidades militares, os planos elaborados e sobretudo a condução das operações, ao nível operacional e tático, procurando, em jeito de conclusão, retirar as consequências políticas, estratégicas e militares da Queda do Estado Português da India. (...)
Para o regime dirigido por Salazar foi um rude golpe, não apenas pela natureza da capitulação militar sem o determinado sacrifício de sangue que, na ideia ultima do regime, provocaria um clamor internacional, dando o desejado suporte para a política ultramarina, mas também porque os ventos da história trouxeram à ribalta a fragilidade das velhas alianças, face a novos interesses e alinhamentos, expondo que para manter a ideia de um Portugal do Minho a Timor, ficaríamos sempre isolados e apenas dependentes de nós e das nossas capacidades.
Ao querer ser firme contra os ventos da história, claramente anticolonialista, crendo na infalibilidade da manobra diplomática junto a aliados e nas organizações internacionais, e mesmo na postura pacifista da liderança indiana que nunca admitiria o recurso à força, o regime adotou uma postura de sacrifício militar, sem que reunisse, como era seu dever, os meios necessários para resistir a uma ação sempre desproporcionada face ao poderio militar indiano.
O Estado português da India não era defensável militarmente com os meios aí destacados, nomeadamente sem ter o mínimo de paridade em meios aéreos e liberdade de movimento para uma manobra tática assente na mobilidade em sucessivas linhas de retardamento até a uma defesa na ilha de Goa e península de Mormugão para ganhar tempo para uma solução mediada internacionalmente.
Imbuídos da necessária racionalidade que o tempo agora permite, numa análise pragmática dos acontecimentos, e sempre com ênfase na perspetiva militar, julgamos ser interessante, perceber a estratégia operacional, o terreno onde esta foi consumada, a organização e a estrutura de comando político e militar, os aspetos tangíveis e não tangíveis das capacidades militares, os planos elaborados e sobretudo a condução das operações, ao nível operacional e tático, procurando, em jeito de conclusão, retirar as consequências políticas, estratégicas e militares da Queda do Estado Português da India. (...)
Fonte: excertos de MENEZES, António de Faria, A Queda do Estado Português da Índia. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Início da Guerra de África 1961-1965. [Em linha]. Ano I, nº 1 (2021). [Consultado em ...], https://doi.org/10.56092/EXCF1300
Disponível também no sítio do Ministério da Defesa
Último poste da série > 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27622: S(C)em Comentários (86): "Foi no dia 27 de maio de 1962, numa operação de ataque a um grupo inimigo, na qual eu, capelão, livremente participei. Caímos numa emboscada, na localidade de Sanda Massala, no norte de Cabinda. À minha frente, o Hélder cai atingido e logo morreu" (Bártolo Paiva Pereira, ex-alf grad capelão, BCAÇ 321, 1961/64)
_______________
Nota do editor LG:

10 comentários:
Afinal, a guerra colonial portuguesa começou muito mais cedo...No continente asiático, foi uma "guerra híbrida", como se diz agora, que já levava 14 anos...
Este caso (o de "Goa, Damão e Diu") devia ser aproveitado como "case-study" nos altos estudos militares: "a guerra é a continuação da política por outros meios"... A frase, uma das mais famosas sobre a guerra, é a tese central do pensamento de Carl von Clausewitz (1780–1831), um general e teórico militar prussiano (Fonte: do seu livro, inacabado, "Vom Kriege" (em português, "Da Guerra), publicado postumamente em 1832.
Recorde-se que Carl von Clausewitz foi um veterano das Guerras Napoleónicas: dedicou a vida a entender a natureza da guerra, não apenas como um conjunto de táticas, mas como um fenómeno sociopolítico. Não é um fim em si, ou algo isolado da ação humana organizada. É uma ferramenta, ao serviço do poder. Se a diplomacia, as sanções e as negociações (os meios políticos "normais") não resolvem um conflito de interesses, o Estado, que tem o monopólio "legal" da violência, dentro das suas fronteiras, recorre à força (armada) para atingir o mesmo objetivo original contra outro país.
Clausewitz introduziu o conceito da "Tríada da Guerra": (i) Povo (fornece a paixão, o ódio e o apoio, ou seja, o elemento irracional); (ii) Comandante/Exército (lida com as variáveis acaso, estratégia e talento, isto é, elemento criativo); (iii) Governo/Estado (fornece o objetivo político e a razão, leia-se, o elemento racional).
Esta ideia tem como axioma "a subordinação do militar ao político". Ao general compete-lhe ganhar a batalha, mas é o político quem decide se a batalha deve ou não ocorrer e quando parar. Salazar, que era um paisano, nunca percebi isso...
Clausewitz estudava os inimigos da Prússia (hoje Alemanha): observou como Napoleão Bonaparte mobilizou nações inteiras, transformando a guerra de "conflitos entre reis" em "guerras totais"; o corso, o "parteiro da Europa", percebeu que a força militar sem um pensamento e uma liderança políticos torna-se uma destruição sem sentido.
Para Clausewitz, tem de haver um "controle da violência": sem um objetivo político claro, a guerra tende a escalar para a violência absoluta e incontrolável. Defendia também a profissionalização das forças armadas e o alinhamento da estratégia militar com a política de Estado; se a política muda, a tropa deve mudar também. Vimos isso ao longo dos dois séculos em que nascemos e vivemos...
Luis, 14 anos ?
No continente asiático, acho que foi em Dadra e NagarAveli, em 1955 quando tinha lá o meu pai.
Portanto já havia guerra, ou levantamentos de seitas como os Satiagrás...
Os indianos ou indus, entraram com uma seita os Shiks barbudos.
Nheru foi um pulha, mas já morreu...
E nós aqui estamos de pernas abertas, um pobre país à beira mar plantado, a receber os miseráveis pobres indianos depois de nos levarem a India Portuguesa,
Se cá estivesse o Salazar, náo sei como eles seriam recebidos, afinal sáo umas vitimas como nós fomos tantos anos, e a culpa morre solteira.
Mas gostei deste texto do Luis, pelo menkis fiquei a saber mais e a conhecer o tal Carl von ...
Um abraço mas gosto desta controvérsia, ninguém tem afinal razáo nenhuma.
Sáo os ventos da história .
Virgilio Teixeira
Afinal já consigo publicar de imediato nos comentários, estou na Biblioteca Publica com estes compitadores 10 estrelas, por isso o defeito no meu, que nao deixa publicar, dá sempre erro, é do meu Chaço!
VT
Registe-se a famosa frase de Salazar,no seu "Discurso de Goa", em que ficou afónico: "Nunca me preocupei com a História; neste momento sinto que tenho o dever de a escrever".
Foi dita no contexto do seu discurso na Assembleia Nacional a 3 de janeiro de 1962, em resposta (tardia) à invasão e ocupação dos territórios de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.
Não sei se a História se irá lembrar desta frase de opereta...
1961, o "annus horribilis" do Estado Novo e o princípio do fim: 10 acontecimentos que lançam sombras negras sobre o regime:
O ano de 1961 foi, para o regime de Salazar (e, por tabela, para todos nós) um "annus horribilis", talvez um dos mais trágicos do séc. XX, na história de Portugal. Há um certo consenso entre os historiadores: o que aconteceu nesse ano foi também o prenúncio do fim da ditadura e do colonialismo português (em África e na Ásia).
Com a nossa fraca memória (e pouca apetência para as lições da História), esquecemo-nos facilmente do que ocorreu nesse ano:
(i) em janeiro de 1961 tem lugar em Angola, na zona de Malange, um levantamento de trabalhadores da Cotonang (Companhia de Algodão de Angola) (Cotonang), também conhecido pela Greve da Baixa de Cassange; protestavam contra as brutais condições de trabalho a que estavam sujeitos; os protestos são duramente reprimidos pelo exército português, o que é uma mancha na sua história (tratando-se de civis, indefesos);
(ii) a 22 de janeiro, elementos do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) (que congregavam militantes da União de Combatentes Espanhóis e do Movimento Nacional Independente, português, opositores das ditaduras ibéricas) tomam de assalto o paquete "Santa Maria", da CNN (Companhia Colonial de Navegação) (que fazia a carreira regular Portugal - Brasil); o navio é rebatizado "Santa Liberdade"; esta acção, liderada pelo capitão Henrique Galvão (um indfetível do regime...até aos anos 40) consegue cobertura noticiosa internacional (aonde não chegava a PIDE nem a censura) e provoca um profundo rombo no "barco" do regime de Salazar;
(iii) início da luta armada pela independência de Angola, marcada pelo ataque à cadeia de S. Paulo, em Luanda, a 4 de fevereiro e, um mês depois, pela chacina da UPA em 15 de março;
(iv) em abril: tentativa de golpe militar liderada pelo Ministro da Defesa, gen Júlio Botelho Moniz; a 21 partem no T/T NIassa os primeiros soldados para Angola;
(v) em junho, cerca de cem estudantes, oriundos das colónias portuguesas em África, abandonam clandestinamente o país, boa parte para se juntarem aos juntarem aos movimentos nacionalistas (ou de "libertação");
(vi) em agosto, o governo do Daomé (atual Benim), antiga colónia francesa na África Ocidental, ataca e ocupa a Fortaleza de São João Baptista de Ajudá: com 4,5 hectares, era uma das colónias mais pequenas do mundo; a fortaleza havia siudi fundada em 1680 pelos portugueses e serviu, sobretudo, como entreposto comercial, nomeadamente de escravos; foi a peça do império colonial português em África a cair:
(vii) em setembro: a abolição do Estatuto do Indigenato, associado a outras reformas da administração ultramarina (sob a liderança de Adriano Moreira), chegam já demasiado tarde para abafar o clamor nacionalista, de que Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP) é um exemplo de ação organizada e concertada;
(viii) Hermínio da Palma Inácio comanda, a 10 de novembro, o desvio do Super-Constellation da TAP "Mouzinho de Albuquerque"; são lançados sobre Lisboa e outras cidades (Barreiro, Beja...) milhares de panfletos apelando à revolta contra a ditadura;
(ix) a 18 de dezembro, tropas da União Indiana ocupam os territórios de Goa, Damão e Diu: a ordem de Salazar para que as tropas portuguesas lutem "até à última gota de sangue", não encontra eco no general Vassalo e Silva, que optou pela rendição;
(x) e, por último mas não menos importante, na noite de fim de ano, de 31 de dezembro de 1961 para 1 de janeiro de 1962, há uma tentativa frustrada de assalto ao quartel do Regimento de Infantaria 3, em Beja, onde morre o então sub-secretário de Estado do Exército, tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca.
Essa de Beja é deveras interessante:
Contou também com a participação do Eng. Manuel Serra, que fica muito bem na fotografia que consta na pág.94 do livro os dias loucos do PREC. Quiz tambem ser Aquacultor, eu participei com ele nas reuniões conjuntas convocadas pela D.G.P., que decorreram no Terreiro do Paço, foi um grande beneficiado de fundos comunitários e a sua produção ficou a aguardar para o dia de S.NUNCA À TARDE:
D.G.P. Direção Geral das Pescas
Estas reuniões com a DGP contavam com representantes de Organizações de Produtores e destinavam-se a colher informação para regulamentar o sector da Aquacultura Marinha.
Para Salazar, já todos os anos eram do piorio, logo após o fim da 2ª grande guerra.
E antes do Santa Maria e de Goa e Neru houve as eleições de Humberto Delgado, onde no caso de Angola, quem votava votou contra Salazar.
Embora com 20 anos sem direito a voto, e sem ligar nada à política, hoje com tudo o que tenho lido e recordado, tem que haver uma explicação forte para o abrandamento da oposição a Salazar, quando a fé em Delgado era enorme.
De 1958 até à queda da cadeira ainda foram uns eternos 10 anos, e ainda sem procuração, Salazar passou por 6 anos a pasta a Caetano.
Pessoalmente lembro-me que havia uns antisalazaristas contemporâneos de Salazar, que vinham de governos da 1ª república e que teriam ficado alarmados com Goa e depois com o norte de Angola em Março de 1961.
Seria isto uma das razões para deixar arrastar o país sem grandes reações?
Ouvia-se por ouvidos leigos na política nomes como um tal Cunha Leal que abrandou na luta, um antigo ministro colonial mencionado recentemente aqui,.. chamado J. Soares tambem se adaptou...deve haver explicações além das de Fernando Rosas.
Tem cuidado com o que dizes, porque ainda acabas na prisão.
Durante a 2ª Guerra não faltou trabalho aos operários dos Estaleiros Navais do Mondego, graças ao "malandro" do Salazar e hoje está virado de pantanas.
Na salicultura, os grandes queriam ficar com tudo e ele com a CRPQF(Comissão Reguladora de Produtos Químicos e Farmaceuticos) recuperou o sector.
Manteve o Código de Seabra criado em 1867 e o art. 380º continuou a
funcionar, depois caiu da cadeira e:
Marcelo Caetano ex, Prof. de Dir. Admininistrativo faz aprovar o Dec.Lei
468/71 e começou tudo "melhorar" até 2005.
Sócrates "muito dedicado ao estudo", faz aprovar a Lei 54/2005 e fez os produtores irem para o Arq. da Univ. de Coimbra conhecerem os 12 Km de prateleiras e "fez aumentar a prodrução". Fazem-se grandes coisas em nome da Democracia e da transparência.
Sócrates foi e continua a ser um "grande filósofo" de Portugal.
Viva a república das bananas.
.
Enviar um comentário