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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27636: S(C)Comentários (87): Foi há 65 anos: "Em 18 de dezembro de 1961, a India pela força das armas invadiu o estado português da India pondo fim a 14 anos de conflitos" (António de Faria Menezes, Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Início da Guerra de África 1961-1965. Ano I, nº 1, 2021)




Fonte: (1961), "Diário de Lisboa", nº 14013, Ano 41, Domingo, 17 de Dezembro de 1961, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_16524 (2026-1-15)


1. Excerto de texto do ten-gen António Faria de Menezes: 

(...) Em 18 de dezembro de 1961, a India pela força das armas invadiu o estado português da India pondo fim a 14 anos de conflito. 

Para Portugal, foi uma invasão duma parcela do seu território contra os princípios do direito internacional por um Estado estrangeiro, apenas reconhecido na ONU em 1974. Para a India, a libertação de Goa, Damão e Diu, constituiu a sua plena afirmação como potência regional.

Para o regime dirigido por Salazar foi um rude golpe, não apenas pela natureza da capitulação militar sem o determinado sacrifício de sangue que, na ideia ultima do regime, provocaria um clamor internacional, dando o desejado suporte para a política ultramarina, mas também porque os ventos da história trouxeram à ribalta a fragilidade das velhas alianças, face a novos interesses e alinhamentos, expondo que para manter a ideia de um Portugal do Minho a Timor, ficaríamos sempre isolados e apenas dependentes de nós e das nossas capacidades.

Ao querer ser firme contra os ventos da história, claramente anticolonialista, crendo na infalibilidade da manobra diplomática junto a aliados e nas organizações internacionais, e mesmo na postura pacifista da liderança indiana que nunca admitiria o recurso à força, o regime adotou uma postura de sacrifício militar, sem que reunisse, como era seu dever, os meios necessários para resistir a uma ação sempre desproporcionada face ao poderio militar indiano.

O Estado português da India não era defensável militarmente com os meios aí destacados, nomeadamente sem ter o mínimo de paridade em meios aéreos e liberdade de movimento para uma manobra tática assente na mobilidade em sucessivas linhas de retardamento até a uma defesa na ilha de Goa e península de Mormugão para ganhar tempo para uma solução mediada internacionalmente.

Imbuídos da necessária racionalidade que o tempo agora permite, numa análise pragmática dos acontecimentos, e sempre com ênfase na perspetiva militar, julgamos ser interessante, perceber a estratégia operacional, o terreno onde esta foi consumada, a organização e a estrutura de comando político e militar, os aspetos tangíveis e não tangíveis das capacidades militares, os planos elaborados e sobretudo a condução das operações, ao nível operacional e tático, procurando, em jeito de conclusão, retirar as consequências políticas, estratégicas e militares da Queda do Estado Português da India. (...)


Fonte: excertos de MENEZES, António de Faria,​​ A Queda do Estado Português da Índia. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Início da Guerra de África 1961-1965. [Em linha]. Ano I, nº 1 (2021). [Consultado em ...], https://doi.org/10.56092/EXCF1300

4 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Afinal, a guerra colonial portuguesa começou muito mais cedo...No continente asiático, foi uma "guerra híbrida", como se diz agora, que já levava 14 anos...

Este caso (o de "Goa, Damão e Diu") devia ser aproveitado como "case-study" nos altos estudos militares: "a guerra é a continuação da política por outros meios"... A frase, uma das mais famosas sobre a guerra, é a tese central do pensamento de Carl von Clausewitz (1780–1831), um general e teórico militar prussiano (Fonte: do seu livro, inacabado, "Vom Kriege" (em português, "Da Guerra), publicado postumamente em 1832.

Recorde-se que Carl von Clausewitz foi um veterano das Guerras Napoleónicas: dedicou a vida a entender a natureza da guerra, não apenas como um conjunto de táticas, mas como um fenómeno sociopolítico. Não é um fim em si, ou algo isolado da ação humana organizada. É uma ferramenta, ao serviço do poder. Se a diplomacia, as sanções e as negociações (os meios políticos "normais") não resolvem um conflito de interesses, o Estado, que tem o monopólio "legal" da violência, dentro das suas fronteiras, recorre à força (armada) para atingir o mesmo objetivo original contra outro país.

Clausewitz introduziu o conceito da "Tríada da Guerra": (i) Povo (fornece a paixão, o ódio e o apoio, ou seja, o elemento irracional); (ii) Comandante/Exército (lida com as variáveis acaso, estratégia e talento, isto é, elemento criativo); (iii) Governo/Estado (fornece o objetivo político e a razão, leia-se, o elemento racional).

Esta ideia tem como axioma "a subordinação do militar ao político". Ao general compete-lhe ganhar a batalha, mas é o político quem decide se a batalha deve ou não ocorrer e quando parar. Salazar, que era um paisano, nunca percebi isso...

Clausewitz estudava os inimigos da Prússia (hoje Alemanha): observou como Napoleão Bonaparte mobilizou nações inteiras, transformando a guerra de "conflitos entre reis" em "guerras totais"; o corso, o "parteiro da Europa", percebeu que a força militar sem um pensamento e uma liderança políticos torna-se uma destruição sem sentido.

Para Clausewitz, tem de haver um "controle da violência": sem um objetivo político claro, a guerra tende a escalar para a violência absoluta e incontrolável. Defendia também a profissionalização das forças armadas e o alinhamento da estratégia militar com a política de Estado; se a política muda, a tropa deve mudar também. Vimos isso ao longo dos dois séculos em que nascemos e vivemos...

Anónimo disse...

Luis, 14 anos ?
No continente asiático, acho que foi em Dadra e NagarAveli, em 1955 quando tinha lá o meu pai.
Portanto já havia guerra, ou levantamentos de seitas como os Satiagrás...
Os indianos ou indus, entraram com uma seita os Shiks barbudos.
Nheru foi um pulha, mas já morreu...
E nós aqui estamos de pernas abertas, um pobre país à beira mar plantado, a receber os miseráveis pobres indianos depois de nos levarem a India Portuguesa,
Se cá estivesse o Salazar, náo sei como eles seriam recebidos, afinal sáo umas vitimas como nós fomos tantos anos, e a culpa morre solteira.
Mas gostei deste texto do Luis, pelo menkis fiquei a saber mais e a conhecer o tal Carl von ...
Um abraço mas gosto desta controvérsia, ninguém tem afinal razáo nenhuma.
Sáo os ventos da história .
Virgilio Teixeira

Anónimo disse...

Afinal já consigo publicar de imediato nos comentários, estou na Biblioteca Publica com estes compitadores 10 estrelas, por isso o defeito no meu, que nao deixa publicar, dá sempre erro, é do meu Chaço!
VT

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Registe-se a famosa frase de Salazar,no seu "Discurso de Goa", em que ficou afónico: "Nunca me preocupei com a História; neste momento sinto que tenho o dever de a escrever".

Foi dita no contexto do seu discurso na Assembleia Nacional a 3 de janeiro de 1962, em resposta (tardia) à invasão e ocupação dos territórios de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.

Não sei se a História se irá lembrar desta frase de opereta...