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sábado, 25 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27950: Efemérides (386): O 25 de Abril é um poema universal (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547)


25 DE ABRIL, FLOR SEM TEMPO

adão cruz

O Vinte e cinco de Abril é um poema universal. É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema. Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável. Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em todo o mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal-entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão do mundo. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora, senhora da mentalidade saudável do homem sério, honesto e bem-intencionado. Pondo de lado a enorme ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada, uma parte do mundo é feita de gente sem ponta de humanidade, sem consciência, sem honra nem dignidade, cultivando o ódio e a vingança, vivendo a corrupção e o deus dinheiro acima de tudo, o poder a qualquer preço, a guerra como instituição e a morte como indústria.

O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante renascer da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos. Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo eram todos almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.

Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.

Comemoramos hoje os cinquenta e dois anos do nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com alguma tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Não sabemos ao certo se é dor ou alegria o que sentimos, quando abrimos ao sol as portas de Abril e vemos os seus inimigos espumando de raiva ou comemorando com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram. Não nos deixemos iludir com o que se passa na Assembleia da República, onde a hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia.

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Nota do editor

Último post da série de 13 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27917: Efemérides (385): "Para o Adriano", poema do nosso camarada Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

2 comentários:

Eduardo Estrela disse...

Um texto que me enche a alma e o coração.
Um hino à mais elementar regra de vida
RESPEITAR OS OUTROS!!
Abraço Dr .
Eduardo Estrela

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Alguns comentários publicados até agora foram remetidos para Spam (deixam de ser aqui visíveis, não foram eliminados)... Porquê ?

Violam uma ou mais princípios da nossa política editorial... Recapitulemos:

(...) Neste espaço, de informação e de conhecimento, mas também de partilha e de convívio, decidimos pautar o nosso comportamento (bloguístico) de acordo com algumas regras ou valores, sobretudo de natureza ética:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros, o mesmo é dizer que evitaremos: as picardias, as polémicas acaloradas, os insultos, a insinuação torpe, a maledicência,
a violência verbal, a difamação, os juízos de intenção, o bullying, a intimidação, o assédio, etc.) (comportamentos, de resto, criminalizados pela lei portuguesa).

(iii) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra do Ultramar, guerra colonial, guerra de África ou luta de libertação (como cada um preferir);

(iv) não há limites temporais para os temas a abordar no blogue, direta ou indiretamente relacionados com a guerra da Guiné (1961/74), mas idealmente vão da época colonial ao 25 de Abril de 1974 e a á descolonização;

(v) não trazemos a atualidade para o blogue (nomeadamente em matéria político-partidária); em termos mais sintéticos, "não falamos de política, religião e futebol";

(vi) carinho e amizade pelos nossos três povos, o povo português, o povo guineense e o povo cabo-verdiano (e, por extensão, os demais povos com quem queremos manter laços de amizade e cooperação: os são-tomenses, os angolanos, os moçambicanos, os goeses, os macaenses, os timorenses...);

(vii) respeito pelos adversários do passado, por um lado, e as Forças Armadas Portuguesas, por outro (que estão acima dos regimes políticos);

(viii) recusa da responsabilidade colectiva (dos portugueses, dos guineenses, dos cabo-verdianos, dos fulas, dos balantas, etc.) (um conceito jurídico que não existe nem aceitamos);

(ix) recusa também da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro; não diabolizamos nem santificad«mos ninguém;

(x) não-intromissão na vida política interna dos 3 países (Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos a viver em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, etc.

(xii) respeito acima de tudo pela verdade dos factos (devendo, em contrapartida, dar tempo e espaço ao "contraditório");

(xiii) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus; pode haver temas fracturantes, como o dos "desertores", por exemplo, que devemos evitar abordar num blogue que é essencialmente de antigos combatentes);

(xiv) direito ao bom nome e à privacidade (evitamos publicar nomes completos, endereços postais, nºs de telefone endereços de email, etc., contra a vontade dos interessados);

(xv) respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor... mas também pela língua (portuguesa) que nos serve de traço de união, a todos nós, lusófonos. (...)