1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.
Dos tempos da Guiné, aos tempos presentes…
Camaradas,
A vida, nesta persistente inovação, é apenas uma pequeníssima passagem por este cosmos terrestre no qual as nossas existências humanas são, tão-só, excessivamente efémeras. Admirava, enquanto criança de tenra idade, as histórias contadas pela minha avó materna, principalmente em noites de inverno à volta de um lume de lenha feito no chão e fixava o meu imaginário em fábulas que me preenchiam o coração. Aliás, tal como outras crianças que, como eu, absorviam esses maravilhosos contos de pessoas que estavam no limiar de vidas, sendo que muitas transportavam para a cova um “oceano” de canseiras.
Mais tarde veio a guerra no Ultramar, onde, em particular, muitos dos meus conterrâneos pisaram os solos de Angola, Moçambique e Guiné, sendo que as mães desses nossos camaradas tapavam os rostos com xailes pretos, uma peça de vestuário oriunda da civilização árabe, mãos escondidas, um lenço que não só lhe tapava a cabeça, assim como a testa, o seu ar era pesaroso e faziam promessas divinas para que os seus filhos retornassem à aldeia são e salvos e libertos de mazelas. Pelo meio da guerrilha existiram casos de morte, em combate, e o povo juntava-se num choro convulsivo, pelo filho da terra cuja presença colonial lhe fora fatal. Gentes que acusavam o falecimento de um “menino” que um dia partira para uma terra equidistante, desconhecida, exótica, onde os barulhos das armas ditavam inúmeros fins. E assim cresci e a Guiné foi então o meu destino. Para trás ficaram as imagens que ainda hoje ocorrem a uma memória, já gasta pelo tempo, mas residindo nelas realidades que jamais esqueceremos como antigos combatentes nos infinitos matos dessas antigas colónias. Luiz Gomes, um rapaz que conheci, foi uma das vítimas mortais nessa terra avermelhada de uma Guiné onde a imprevisibilidade era uma constante.
Desse clã universal de aldeanos, homens nascidos na minha terra, originários do interior do Baixo Alentejo, chão que outrora fora a terra do pão, alguns desses conterrâneos vão deixando inolvidáveis histórias que visam o exequível interesse para as gerações vindouras reconhecerem que, neste caso, em Aldeia Nova de São Bento nasceram pessoas de renome nacional e internacional que deixarão inolvidáveis obras que jamais serão por certo olvidadas.
Escrevo, hoje e em particular, sobre o enorme ensaiador de revista Filipe de La Féria. A minha memória guarda resquícios de um menino que, nesses tempos, já proclamava um dom pessoal para a arte de apresentação. Recentemente, tive a oportunidade de o ver numa entrevista, na qual o “menino” Filipe explanava orgulhosamente o nome da sua terra natal: Aldeia Nova de São Bento. É óbvio que Filipe de La Féria, não conheceu ao vivo os sons arrepiantes das armas de guerra, todavia, alguns dos seus amigos da escola primária, quiçá da mesma carteira ou a do lado, por lá passaram, sendo disso exemplo o Manel Macias, um camarada nosso que prestou serviço no território da Guiné, tal como muitos outros, sendo esse o meu caso.
Filipe de La Féria é um talentoso ensaiador de peças revistas, com casas sempre cheias, e que honradamente aqui o trago à estampa.
Obs: texto do meu livro Aldeia Nova de São Bento - Memória, Estórias e
Gentes. Livro editado pelas Edições Colibri, Lisboa.
Filipe de La Féria
Oriundo de uma família de lavradores e ganadeiros abastados, Luís Filipe de La Féria Valente e Orta, natural de Aldeia Nova de São Bento, era filho de Luís de La Féria de Assis e Orta, um homem que, na altura, possuía uma excelente cordoaria de cavalos de puro de sangue e que eram na verdade o encanto desses recuados tempos.
Filipe de La Féria nasceu a 17 de maio de 1945, sendo o filho mais novo de seis irmãos. A sua história de vida é literalmente encantadora. Tenho uma vaga ideia dele, embora sendo cinco anos mais novo, mas a sua presença, já nessa época, cativava. A sua intenção para o teatro era algo que não passava ao lado da miudagem. Lembro das brincadeiras com os rapazes do Rossio que utilizavam o “lisinho” do Luís Orta para ali dissecarem os seus momentos de ócio. O “lisinho” era, tão-só, o pavio da sua residência feita em cimento.
Aos 18 anos o Filipe rumou a Lisboa para estudar na Faculdade de Letras, porém, depressa abandonou os estudos naquela Universidade, ingressando na Escola de Teatro do Conservatório Nacional.
No ano de 1963, estreou-se, como ator, na Companhia Rey Colaço e Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, sendo Amélia Rey Colaço a atriz dirigente. Filipe de La Féria foi, ao longo de 12 anos, uma personalidade respeitada e acarinhada.
Beneficiou, então, de uma bolsa de estudo em Londres, urbe britânica onde
obteve o diploma para a Encenação. Regressado a Portugal, Lisboa recebeu-o de
braços abertos e Filipe de La Féria lançou-se deliberadamente no mundo da
encenação.
O seu currículo é vastíssimo e o seu nome amplamente reconhecido. As suas peças primam pela originalidade, o público acorre com facilidade às salas de teatro, aplaude efusivamente uma classe de atores que não escondem a sua vivacidade quando por detrás do seu papel em cena, está um Senhor chamado Luís Filipe de La Féria Valente e Orta, um cidadão que teve como berço de nascimento a nossa aldeia.
Bem-haja Filipe de La Féria o facto, bem expressivo, de jamais ter esquecido a sua origem de vida!
José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523
___________
Nota de M.R.:
Vd. últimos postes desta série em:
12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)

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