Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
Jaime Silva (ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72, membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014, tendo já 130 de referências, no nosso blogue; nascido e 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; é professor de educação física, reformado, foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; tem página pessoal do Facebook).
Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (10): o Flecha que nos conduziu à sua antiga base (do MPLA) e rejubilou de alegria perante o espetáculo dos seus antigos camaradas mortos, no mesmo dia e hora em que o meu soldado Santos se casava por procuração numa igreja de Torres Vedras, perto da minha terra
por Jaime Silva
Decorria o dia 5 de setembro de 1970, quando o meu pelotão foi destacado para assaltar uma base do MPLA.
A PIDE/DGS entregou-nos um ex-guerrilheiro, pertencente aos Flechas (#), com o objetivo de indicar o caminho que nos levaria à base, onde antes havia combatido a tropa portuguesa, conjuntamente com os seus camaradas, e que agora entregava.
Levou-nos direitinho à base. Fizemos a aproximação e, já dentro desta, fomos confrontados com a forte resistência de um grupo bem armado, do qual resultou a morte de alguns guerrilheiros e a captura de várias armas.
No entanto, apesar ter sido uma das piores situações que o meu pelotão teve de enfrentar e resolver, o que mais me impressionou foi o júbilo e os saltos de satisfação que aquele homem dava, perante os corpos tombados dos seus ex-camaradas com quem já tinha partilhado as dificuldades da luta no mato contra os militares portugueses.
Também quem não se esquecerá desse dia e hora é o paraquedista Sousa, que no momento do assalto estava comigo (conjuntamente com o sargento Santos) na zona de morte.
É que, à mesma hora, decorria o seu casamento “por procuração”, numa igreja perto da minha terra, em Torres Vedras…
Também quem não se esquecerá desse dia e hora é o paraquedista Sousa, que no momento do assalto estava comigo (conjuntamente com o sargento Santos) na zona de morte.
É que, à mesma hora, decorria o seu casamento “por procuração”, numa igreja perto da minha terra, em Torres Vedras…
São factos e experiências que, pela sua violência… e perplexidade humana, dificilmente se apagam das nossas memórias.
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(#) Os Flechas, criados em 1967, eram um grupo paramilitar autóctone que conduzia operações encobertas na dependência direta dos serviços secretos da PIDE/DGS. Atuavam no interior de Angola sobretudo contra o MPLA e eram levados a praticar operações encobertas no interior da Zâmbia, onde O MPLA se encontrava acantonado Os Flexas podiam operar isolados ou integrados em patrulhas militares (Fonte: Fernando Cavaleiro ângelo - Os Flechas: a tropa secreta da PIDE/DGS na guerra de Angola. Alfragide: Casa das Letras, 2017).
(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:
Último poste da série : 15 de dezembro de 2025 > 21 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27556: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (9): a última operação do 1º cabo LAntónio José Lourenço


2 comentários:
Jaime, partilho o teu sentimento: "São factos e experiências que, pela sua violência… e perplexidade humana, dificilmente se apagam das nossas memórias". Quem foi fez (e foi obrigado a fazer) a guerra, não esquece... Ontem na Guiné, em Angola...Hoje, sei lá onde, em tanto sítio deste mundo desvairado que continua a girar em 2026... Um ano melhor, com o nosso pequeno contributo. E obrigado por fazeres parte da Tabanca Grande.
João Crisóstomo, Janeiro 1, 2026.
Caríssimo Jaime,
Acabei de ler o teu livro, do princípio ao fim. E depois de o ler não pude deixar de compreender ainda melhor a atitude de muitos que viveram aquela estúpida guerra e decidiram depois não a querer lembrar mais. Embora, a meu ver, não seja a atitude mais apropriada. Porque se histórias e actos de coragem devem ser conhecidos para que sirvam de inspiracão e motivação, também os tempos, experiências e situações lamentáveis, horrorosas mesmo por vezes como a que vivia o nosso Portugal e os portugueses não podem ser desconhecidos. Especialmente para as novas gerações. Partia-se me o coração ao ler uma e muitas vezes as palavras “por não saber ler”; não assinou por não saber”, e a situação tão generalizada de grande pobreza, que até em ingenuidade se evidenciavam. Recordo o caso hilariante, relatado pelo Pinto Carvalho se me não engano ( estou fora de casa e não tenho o livro comigo para confirmar) do soldado que se perguntava para onde ir em caso dum encontro com o inimigo , se perto não houvesse "mato ou morro" para onde fugir…) Por vezes Pergunto-me o que seria o Portugal de hoje se, mesmo tarde, a partir de 1961pelo menos, tivesse havido um despertar de consciências e com ele uma mentalidade mais aberta, uma mentalidade que tivesse aceitado e reconhecido os
nossos erros passados e enveredasse por uma política de senso comum. Porque parece que havíam meios: se houveram meios para aguentar uma guerra em três frentes...
De louvar o teu cuidado em dar a conhecer quem são/foram todos aqueles que merecem não ser esquecidos. Sei de casos de monumentos, acontecimentos etc, todos intencionados a que a memória com o decorrer do tempo se não perca, mas poucos são fruto um trabalho tão cuidadoso e abrangente como este, que reflete também a grandeza do teu coração.
Por mim, ( e creio que muitos o devem sentir também, mesmo que o não o digam expressamente ) a minha gratidão e admiração. E, mais uma vez: que o Ano Novo seja portador dos teus desejos.
João Crisóstomo, Janeiro 1, 2026.
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